quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Feliz Parto Seguro!

Criou-se um dicotomia estúpida. Um “8 ou 80” absolutamente sem sentido, em todas as áreas, sob todos os aspectos.

No que tange o assunto “parto”, não foi diferente. Grupos que defendem idéias distintas brigam entre si nas redes sociais, cada lado gritando mais alto que o outro, usando, em vez de argumentos, ofensas.

Fonte: http://www.abcdagravidez.com.br/2013/07/parto-normal-ou-cesarea.html

A internet é, sem dúvidas, uma grande aliada na divulgação de informação, mas, por outro lado, deu espaço para que muitas pessoas, sem capacitação ou conhecimento, começassem a disseminar idéias equivocadas e sem embasamento, conquistando legiões de seguidores absolutamente iludidos, graças a um discurso enfático e convincente.

As redes sociais também geraram um sem número de “juízes”, que analisam e condenam o comportamento, as escolhas e os anseios alheios.

Em meio a esse tiroteio e à enxurrada de informações contraditórias, as gestantes ficam completamente perdidas, expostas a riscos reais e órfãs de informação confiável. Sentem-se pressionadas, coagidas, julgadas.

Foi pensando nisso que surgiu o blog/página Visão de Ilitia. Nós, desconfortáveis com essa situação e preocupadas com o bem estar da mãe e do bebê, resolvemos criar um espaço para divulgar informação e relatos, onde as gestantes pudessem se inteirar do tema e fazer suas escolhas de forma consciente.

Não é um trabalho fácil: exige muito estudo e dedicação. Mas estamos muito satisfeitas com o resultado. Parece que as pessoas entenderam a nossa proposta e temos tido uma boa aceitação, inclusive por parte dos profissionais de saúde.

Em 2016, continuaremos com a mesma linha de pensamento e conduta. Contamos com vocês para que sugiram temas para as publicações e compartilhem conosco seus relatos de parto.

Desejamos que, em 2016, possamos encontrar mais sabedoria, tolerância e respeito, tanto na vida real quanto na virtual. Que os partos sejam lindos, seguros e, os bebês, saudáveis. Que as mães se empoderem, mas não no sentido que tem sido difundido. Que se empoderem de conhecimento, lucidez, cuidado e orgulho. Porque, para ser mãe de verdade, só é preciso uma coisa: O AMOR!



Feliz 2016!
Fonte: http://muitoassuntoprafalar.blogspot.com.br/


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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Natal de Joaquim

No Natal, celebramos o nascimento de Jesus Cristo e sua compreensão deveria ser mais abrangente. Deus enviou o seu Filho ao mundo para que o mundo fosse salvo por Ele e o verdadeiro significado do Natal é a celebração deste ato de amor incrível.

Nesta data, nós, do Visão de Ilitia, viemos aqui reforçar tudo aquilo que temos tentado transmitir, desde a criação do blog, há cerca de quatro meses: respeito, apoio, informação e ausência de julgamento. Viemos, também, lembrar que, no final das contas, o que importa é festejar a vida e o amor.

Desta forma, trouxemos o relato de Andreza Pereira, mãe do (nosso) prematuro Joaquim. Leiam e se emocionem com essa bênção! 

Joaquim


"Sempre quis ser mãe e meu marido sempre quis ser pai e, esse dia, enfim, chegou. Descobrimos a gravidez e a felicidade tomou conta da gente, de nossos familiares e amigos que esperavam por esse momento há mais de sete anos. As semanas foram se passando, os exames sendo feitos e tudo indo muito bem. Nas consultas regulares com a nossa médica obstetra, tudo  estava perfeito, até chegar a 28ª semana. Eu tinha uma consulta de rotina, numa sexta-feira à tarde. Já estava atrasada e quase não fui à consulta mas, ao falar com a doutora, ela disse que esperaria, mesmo tendo seu filho para pegar no colégio. 

Chegamos lá e ela viu o exame que tinha sido feito naquela manhã, que mostrava um bebê pequeno e uma leve alteração que poderia levar a hipertensão. Como de costume, ela mediu a minha pressão arterial e, para nossa surpresa, estava 180x100. Na hora ela falou comigo, percebi a preocupação dela e comecei a ficar um pouco preocupada. Ela, então, orientou que fôssemos imediatamente para emergência da maternidade, falou que provavelmente ficaria internada. E nessa hora meu mundo desabou, eu desabei, comecei a chorar, ela e meu marido tentavam me acalmar. Ao ser examinada na maternidade, fui diagnosticada com pré-eclâmpsia, então minha GO pediu minha internação .

Logo depois disso, a médica me liga perguntando como eu estava. Mal consegui falar com ela, foi muito humana tentando me acalmar, dizendo que seria para o nosso bem, e que ela dormiria aquela noite triste por tudo o que acontecera. Eu não conseguia me conformar, ficava procurando motivos para tudo isso estar acontecendo comigo, me sentia culpada, mas nem sabia exatamente o porquê.

No dia seguinte, acharam melhor que eu fosse para UTI Materna, para acompanhamento mais rigoroso. Lá, a pressão era medida a cada 20 minutos, onde se mantinha 140x70 e já iniciaram remédios para hipertensão. Começamos a monitorar o bebê por ultrassonografia, as medições não eram muito animadoras, ele quase não estava ganhando peso. Passamos a acompanhá-lo por ultras dia sim dia não, em um dia o resultado estava um pouco melhor em outro um pouco pior. 

Os dias no hospital eram angustiantes, o tempo não passava. Parecia uma tortura, tanto pra mim quanto para meu marido que se dividia entre trabalho, casa, cachorro e hospital. Ele, com certeza, foi meu grande alicerce, ia dormir no hospital praticamente todas as noites e me dava forças, tentava me animar e quantas vezes só me dava seu ombro para que eu pudesse descarregar tudo aquilo que estava sentindo e passando.

Então, no dia 17 de setembro, em mais uma descida para emergência para fazer a ultra, veio a tão temida centralização. Depois de fazer contato com a minha GO, ela então veio conversar comigo e confirmou tudo e, novamente, eu desabei. Liguei pro meu marido na hora e só conseguia chorar, parecia que meu chão tinha sido arrancado. Em contato com a doutora ela confirmou a cesariana para o mesmo dia às 18 horas e, assim, aconteceu: fui para UTI materna receber sulfato de magnésio e me preparar para a cirurgia. 

O Nascimento


Então, em 17 de setembro de 2015, chegou o nosso Joaquim, com 37 cm, pesando 1.045 kg, com 30 semanas e 5 dias. Sim, ele era muito pequeno, tão magrinho, mas tão lindo! Em sua chegada, mal pude vê-lo, o vi brevemente ao sair da barriga e ele já teve que sofrer algumas intervenções pelo pediatra. Todo aquele sonho de segurar seu bebê logo que nasce, também não se realizou. Após as intervenções, o vi novamente, muito rápido, antes de ele ir para UTI Neonatal.

Era um misto de sentimentos. Estava ainda meio em choque pelo tamanho do Joaquim, por sua fragilidade, e muito apreensiva de como seria tudo dali pra frente. Mantivemos uma rotina diária de UTI e me culpava por não estar lá o tempo todo com ele. Cheguei a me comparar com outras mães mas, depois, fui me conscientizando de que eu estava fazendo o meu melhor e que não deveria me comparar com os outros. Ali eu era somente mãe, minha profissão (Psicóloga), não daria conta de me ajudar muito naquele momento. 

Ah... o lactário! Esse sempre foi uma tortura para mim ... aquela bomba, e eu quase não tinha leite e ver outras mães que em cinco minutos enchiam uma mamadeira, era no mínimo deprimente e desanimador. Mas não desisti. Cada dia na UTI era uma apreensão nova, uma descoberta, uma angustia diferente.. Os dias foram se passando e, a cada 10 gramas que ele ganhava, era uma grande vitória, mas também perdia e isso era terrível. 

Ele chegou a ter 960 gramas, no seu quinto dia de vida. As vitórias foram acontecendo. A primeira mamadeira foi emocionante de ver, e a primeira vez no seio, meu Deus! Como foi mágico!  Foram 54 dias de UTI Neonatal, em uma rotina incansável de UTI-casa-UTI. 

Joaquim teve alta com 2.095 kg no dia 09 de novembro, aniversário do papai e véspera do aniversário da mamãe, que belo presente ganhamos! Hoje ele está muito bem, me dedico ao meu pequeno com muito carinho, ele está ganhando peso e ficando cada dia mais lindo. Nosso grande presente de 2015!

Hoje o nosso Joaquim não é só nosso, é nosso mesmo, de todos os amigos e familiares que direta ou indiretamente estiveram conosco em presença ou em oração. É lindo ver como ele já é tão querido por todos, todos perguntam: e aí como está o NOSSO Joaquim?!
Nosso Joaquim, nosso guerreiro, nosso pequeno, aquele que foi estabelecido por Deus em nossas vidas!"  



TRECHOS DA CARTA DE UMA MÃE DE PREMATURO

"SER MÃE DE PREMATURO é ser pega pela surpresa e o despreparo. É não segurar seu filho nos braços quando nasce. É olhar pela incubadora. É sentir sua cria pela ponta dos dedos esterilizados em álcool 70%. 

Ser mãe de Prematuro é ser viciada no monitor. E ver seu filho respirando por aparelhos, com sensores medindo o que há de vida na sua criança. São os benditos 88% de saturação. É tirar leite na máquina. É ver o leite entrando pela sonda. É ter paranóia com o processo ganha/perde de peso diário. É se incomodar com as aspirações e manobras, mas saber que é um mal necessário. 

Para ser mãe de UTI tem que virar pedinte e mendigar todo dia uma boa notícia. Mesmo que seja a bendita palavrinha “estável” - significa que não melhorou - mas também não piorou. É ter de pedir para pegar seu filho no colo quando quiser, às vezes ouvir sim e tantas outras não. É não se esquecer de agradecer o cocô e o xixi de cada dia. Sinal de que não tem infecção. É joelho no chão do banheiro da UTI para pedir milagre, ou pedir que acabe o sofrimento. 

Haja fé. E só com fé. É ser a Rainha da Impotência, por ver o sofrimento e a dor do seu bebê e simplesmente não poder fazer nada. Só confiar. É bater papo com seu filho através da incubadora. E ter lágrima escorrendo pelo rosto todo dia por não poder sentir seu cheirinho e beijar seus cabelos, nem vê-lo a hora que quiser. 

Mas, ser mãe de prematuro é superação, é ter história para contar! Idade cronológica e idade corrigida. É difícil de entender. É sair da UTI com festa e palmas. E deixar por lá amigos eternos e preciosos. 

Ser mãe de Prematuro é ter medo do vento, da bronquiolite, do inverno e do hospital. Toda mãe é um ser guerreiro por natureza. Mas a Mãe de Prematuro, precisa ser guerreira em dobro. E isso nos difere e ao mesmo tempo nos iguala. Lutadoras, perseverantes, resilientes, frágeis a ponto de desabar a qualquer momento, mas com uma força absurda. Uma força que talvez venha de um útero vazio antes do tempo. Assim são as mães dos bebês que nascem antes..."
(Autor desconhecido)


O pequeno Joaquim. Um presente da Vida.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Qual o limite da sua dor?



Na semana passada, eu assisti a um parto lindo. Nasceu um bebezão de 3.925g. Tudo começou 2 semanas antes, quando, ao examinar uma gestante com queixa de cólicas leves, percebi que ela já estava com quase 3 cm de dilatação.

Achei que seria logo, mas ela ficou no mesmo quadro por duas longas semanas. Entrou, finalmente, em trabalho de parto e com a mesma cara de paisagem de antes. Sentindo apenas pequenas “pressões”.

Já na emergência, com 7 cm, a gestante ainda sorria. Internamos e continuamos a assistência, sem pressão e sem hora marcada.

Em um determinado momento, já com 9 cm, ela solicitou analgesia. A cara já não estava tão tranquila assim. E assim foi feito. A contração diminuiu e ela voltou a sorrir. E conversamos sobre viagens e outras amenidades.

Optamos por iniciar ocitocina sintética. Quando a contração voltou com força, já no final, a analgesia não segurou mais. Mas já era o período expulsivo.

Então, em um rompante incontrolável de dor, ela pariu. Foi lindo, foi exaustivo, foi intenso. Irmã médica neurologista dentro da sala de parto.

Esse foi meu último trabalho em uma semana. Descobri uma conjuntivite que me fez ficar, de forma forçada, em casa.

E pensando neste parto, na dor e no limite de cada um, pensei na Nathalia.

Nathalia Munhoz, de São Paulo, teve uma experiência negativa em seu parto humanizado domiciliar. Sua maior queixa foi o seu limite de dor.

Vínhamos conversando há cerca de 2 meses e recebi quase 3 horas de áudio por whatsapp que prometi transcrever em texto. O trabalho profissional fora do blog e pessoal com meus filhos não me permitiu cumprir com rapidez a promessa. Mas neste tempo de molho retomei as transcrições.

Preciso dizer que a Nathalia tem muitas questões importantes a serem debatidas. Ela enfrenta uma depressão pós-parto intensa. Mas hoje falarei sobre dor e de como cada um sabe a dor que sente.


Por Nathalia Munhoz



"Engraçado, mas eu já tinha me envolvido com esta questão de feminismo. Já estava envolvida neste mundo materno. Já tinha entrado até em aula de costura para fazer as coisas para o meu filho quando ele nascesse, mas eu pensava que ele ia nascer daqui há uns 3, 4, 5 anos. Não agora.

O primeiro contato que eu tive com a ideia de parto humanizado foi um pouquinho antes da minha gravidez. Foi o filme “O Renascimento do Parto” e que eu chorava muito, copiosamente, de imaginar meu filho sendo puxado da minha barriga, dormindo ainda, desacordado para a vida. E era uma cesárea. Então eu falei: “Não, não quero isso”.

Como se o parto via vaginal fosse totalmente livre de força. Só de pensar no bebê passando no canal vaginal, já é um trauma. Não dá para dizer que a cesárea seria mais desumana.

Eu tinha acabado de fazer uma lipoaspiração. E eu engravidei do Theo. Então você pode imaginar como estava a minha cabeça. Eu sou uma controladora do meu peso.

Acabei descobrindo que eu estava grávida e aí foi o contato mesmo. E aí desde então eu sofri uma lavagem cerebral. Mas eu me deixei sofrer esta lavagem cerebral.

Eu decidi ter um parto domiciliar, uns dois meses depois que eu descobri que estava grávida. Já estava com 5 meses mais ou menos. Eu decidi ter um parto domiciliar porque eu percebi que eu ia gastar mais ou menos a mesma coisa. E eu era a doida do idealizado. Se era melhor, no filme era melhor um parto domiciliar e as mulheres choravam tanto por não terem conseguido um parto domiciliar, eu falei “Vou fazer um parto domiciliar”.

A gente se aperta, a gente se ferra. Pegamos dinheiro emprestado com o meu pai para pagar o parto e o convênio reembolsa muito pouco. Eu acabei decidindo isso porque se é melhor para o meu filho e para mim, se estão dizendo e era uma questão tão enfática, eu vou fazer o parto domiciliar.

E assim, foi um parto idealizado, de ficar em casa. Do bebê nascer em casa.

Eu escolhi minha equipe quando eu assisti o filme “O Renascimento do Parto”, e era o tudo de melhor coisa do mundo de parto. Falei: “vou contatar uma das pessoas, das enfermeiras que falam no filme”. Foi aí que eu mandei uma mensagem para uma obstetriz que participa do filme, e ela me passou o nome de 4 pessoas. Duas não atendiam aqui em São Caetano e duas atendiam. Achei melhor a que me parecia um pouco mais velha. Então seria um pouco mais experiente e foi assim que escolhi a minha equipe. Fui lá e conversei com ela e a gente acabou optando por ela.

Fiz um plano de parto, mas a merda que eu fiz foi não escrevê-lo. Mas existia um plano de parto que eu passei ao meu marido por whatsapp, falei do plano B. O plano B era se eu precisasse de anestesia e quisesse anestesia a gente iria para o Hospital São Luis. O plano C era se o bebê nascesse ou estivesse em sofrimento fetal a gente iria para um outro hospital a 2 min da minha casa. Esse era o plano.

É....só que deu tudo errado, deu tudo errado.




Eu tinha um contrato sim. O único contrato que eu tinha foi o da enfermeira. Mas era um contrato básico. Eu até acho que fui enganada. Em caso de transferência imediata, ela chegou e eu já fui para o hospital, ela iria cobrar R$ 3.500,00 o parto. E só se fosse em casa, ela cobraria R$ 5.000,00. E ela acabou me cobrando os R$ 5.000,00. Só que isso mais uma vez foi combinado de boca. Eu não sei com que cabeça que eu estava no momento para fazer mais uma coisa sem assinar. A gente estava confiando nela.

Ela era parteira, mas ela queria dar aula na universidade, ela queria dar plantão em hospital e ser parteira. No dia do meu parto ela não pode vir, mandou outra pessoa no seu lugar.

A menina que veio antes dela já acabou com o parto domiciliar porque não conseguiu escutar o bebê, e tinha esquecido o gel. E meu plano de parto não estava escrito. Ela não tinha que ter aceitado ser enfermeira obstetra de um parto domiciliar sem um plano de parto escrito e assinado. Fiz plano de parto mas fiz verbalmente.

Porque a gente não sabe na prática. Ainda mais eu que era primeira gravidez. Te colocam as imagens de uma forma, que te parece óbvio que seja melhor. Mas no final das contas eu nunca tinha parado para pensar direito.

Claro, eu sempre fui muito contra a cesárea agendada quando não existe risco. Aquela cesárea agendada por conveniência. Eu era. Eu não sou mais. Acho que cada um tem seu filho da maneira que quiser. Eu gosto da ideia de esperar a criança nascer, para mim eu acho que tinha que ser assim. Esperar a criança nascer no momento que ela achar que ela tem que nascer.

Primeiro eu fiquei aqui em casa por umas 6 horas e eu, tive que implorar para ir para o hospital, apesar de fazer parte do plano B. E assim eu paguei R$ 5.000,00 reais para ela por não ter um plano de parto escrito, por ter um plano de parto de boca com ela e ela não cumprir.

Para primeiro parto, é a coisa mais traumática do mundo você fazer um parto domiciliar. Você precisa saber muito bem lidar com a dor. E a dor é uma coisa muito nova para a mulher no primeiro parto. Então eu acho extremamente desumano um parto domiciliar no primeiro parto. Acho que eu vejo muito sucesso em parto domiciliar, mas acho que já te falei isso, né? É porque não era primípara. Era a segunda gravidez.

Então, para mim, a maior violência obstétrica foi me roubarem o protagonismo do meu parto. Porque eu estava vulnerável de tanta dor, eu não conseguia falar direito e ficavam me enrolando para não me dar anestesia. Eu obriguei que me dessem anestesia depois de 5 horas implorando por isso.

Apesar de perceber o desprezo da enfermeira por mim quando eu solicitei a anestesia e tomei a anestesia, ela falava: “você não pode fazer isso com seu filho”, “você pode”, “você é uma mulher empoderada” que depois até meio que me irritou esta, desculpa eu vou falar palavrão, esta PORRA de empoderamento e não sei o que, não sei o que lá... É mais uma lavagem cerebral.

Durante o parto, aquilo que falavam “a dor é linda”.... Não queria saber de dor não, sabe? A minha escolha era não ter sentido dor. Esta era a minha escolha. Se eu tivesse tomado anestesia na primeira hora que eu pedi, acho que eu não teria tido tanto trauma. Porque teria sido feita a minha escolha e não a escolha da enfermeira que estava fazendo o meu parto. Acho que é isso.

Então pera aí! A violência obstétrica é só quando você faz episiotomia? Só quando você tem cesárea agendada? Ou é também quando você tenta ter o bebê de uma forma que dizem humanizada? Em nenhum momento eu me questionei se aquilo era realmente humanizado. Disso eu tenho um pouco raiva de mim mesma porque eu fui meio que ludibriada pelo Renascimento do Parto, fiquei meio que chocada com as coisas que se falava ... e nem me questionei. Eu queria mesmo sentir aquela dor? Eu não sabia que dor era aquela.

A doula conversando comigo. Meu marido inebriado pelo medo, pelo desconhecido. Não sabia se ouvia ela ou me ouvia, que estava gritando de dor. Ele também não sabe o que é esta dor.

Eu fui enganada, ludibriada. Eles ficavam me enrolando. “A gente já vai trazer o seu anestesista”.

No momento em que eu fui para um parto hospitalar a enfermeira se afastou um pouco. Um ou duas horas depois, ela me repudiou 100% porque eu já tinha gritado por anestesia e feito acontecer. Eu dei entrada no hospital meia-noite e cinco, meu marido foi assinar a papelada da anestesia que iria acontecer só as 2:40h da manhã.

Então, por todo este período, fora as 2 horas que estava aqui na minha casa, ela decidiu que não daria anestesia. E não me dava nem a pau. Ficava falando que era para eu esperar um pouco que já estava vindo, e eu acabei tendo um parto sem protagonismo nenhum. Eu não mandei no meu próprio parto. Ela considerou que ela sabia o que era melhor para mim.

Eu fui silenciada no meu parto todo. Eu não consegui escolher o que eu queria para mim. E queria anestesia desde sempre, desde o começo. Eu implorei por 6 horas por anestesia e aquela tirana da enfermeira obstetra não deixou eu tomar anestesia, não deixou eu parir do jeito que eu queria.

Eu não fiquei decepcionada com a cesárea em si porque eu tentei o parto normal por 14 horas. Mas eu fiquei decepcionada por ter tido que esperar por tanto tempo pela anestesia, sabe? Eu queria ter tido anestesia logo no começo. Eu acho que eu não teria tido este trauma do parto.

Após a cesárea eu me senti bem e eu não senti quase dor. Eu levantava e fazia tudo. Cuidei do bebê. Ele ficou em alojamento conjunto com a gente, então era eu que levantava e fazia tudo. Levantava, sentava. Fui totalmente contra o que me recomendaram de não pegar o bebê. Eu fiz de tudo até dirigir. Me senti muito bem depois da cesárea. Eu sei que tem algumas mulheres que realmente tem problema na cicatrização. Mas eu me senti bem.

A minha recuperação da cesárea foi igual provavelmente de um parto normal de verdade. Meu corte ficou lindo, não doía. Dava um incomodo, mas achei boa a minha cicatrização e como eu não sentia dor, consegui fazer tudo.



Me arrependo de ter feito um parto domiciliar na primeira gestação. Cada um é cada um. Não dá para dizer que o que é bom para um é bom para o outro. Não dá! E é isso que a gente precisa entender de uma vez por todas! Cada gestação, cada parto, cada amamentação é extremamente única. Não dá para se planejar.

O que eu diria para uma mãe de primeira viagem?
Consiga um bom médico. Tenha o bebê no hospital, não faça parto domiciliar. A maior cagada que você pode fazer. Nós não somos mais índios. Nós podemos e devemos usar a modernidade a nosso favor. Eu não estou falando para o bebê nascer em uma sala fria. Eu não estou falando... Sei lá também se eu não estou falando isso. Cada pessoa escolhe o caminho que achar melhor para si.

Depois que eu fui mãe eu percebi isso. Ninguém sabe o que a gente passa. Só a gente para saber. Só quem está na nossa pele para saber. Eu não julgo ninguém mais. Eu era a primeira a julgar antes de ser mãe. Hoje não... Hoje eu não julgo ninguém.

Eu enxergo hoje o movimento de humanização do parto com muita preguiça... sem generalizar, mas já generalizando. É um povo muito chato que fica julgando o pessoal da cesárea. Não é por aí.

Não tem lados esta história. A gente tem que se unir. Não importa. Se a mulher quer fazer cesárea, deixa ela fazer cesárea.

O movimento da humanização do parto é importante, mas infelizmente conta com muitas radicais que fazem com que aquelas adeptas ao agendamento da cesárea se afastem e não se aproximem. Então não adianta.

É meio que um clubinho que só a nata da humanização pode participar. E estas mães que ficam ouvindo que elas são menos mães porque elas fizeram uma cesárea?

Esta experiência do parto humanizado e da depressão pós-parto me mudou porque hoje eu não julgo mais as pessoas. Eu estou muito mais preocupada com a minha vida, o meu bem-estar e o dos meus do que em ficar interagindo com pessoas vazias que não me acrescentam. Estou mais seletiva. Me sinto mais seletiva. Mas me sinto muito deprimida, muito triste, muito violada. E não enxergo uma luz no fim do túnel. Se este remédio não der certo, eu não sei o que eu faço. Porque está difícil.

Mudou porque me deixou uma pessoa amarga, uma pessoa triste, me deixou uma pessoa que se sente culpada. Porque a enfermeira obstetra me falou que a culpa era minha. Que eu tinha tomado anestesia e a culpa era minha do meu filho estar com bradicardia. Esta experiência me mudou. Acabou comigo. Estou tendo que renascer do zero. Renascer das cinzas.

O que me motiva é poder ajudar outras mulheres que passaram ou que poderiam vir a passar por isso e se eu puder evitar que outras mulheres passem pela mesma coisa. É este o meu propósito. Eu me ferrei, mas outras mulheres não precisam se ferrar também para aprender."


sábado, 12 de dezembro de 2015

O Segundo Sol: histórias de amor e luto

Pensando em J., SPMãe de Maria IsabelCarla MarinsCamila  e outras que sofreram luto por seus bebês, compartilhamos esse lindo trabalho sobre perdas gestacionais. Uma homenagem às mães e pais guerreiros, que enfrentam a dor da perda, algumas vezes iludidos pela promessa do parto ideal e utópico.



Seguem trechos copiados do site oficial do documentário: http://www.osegundosol.com/sobre-o-projeto/

O objetivo do projeto O Segundo Sol é dar voz para o luto de quem passou pela perda gestacional ou neonatal, incluindo as perdas em qualquer estágio da gravidez. O apoio é para mães e pais que passaram pela triste experiência de não trazerem seu filho para casa. Honrar a existência deles no mundo, através da sua história que, embora curta, é muito preciosa e importante. 

E, quando achávamos que a luta por visibilidade fosse apenas falar, descobrimos mais, é preciso mexer na estrutura das maternidades, educar os profissionais de saúde para um melhor atendimento a essas mães que estão a passar pela experiência. Que, daqui pra frente, esse tratamento no hospital seja mais respeitoso e inclusivo. Que possamos ter o direito da despedida, que possamos ser acolhidos nesse momento e não segregados, separados da atuação da equipe médica.


O projeto surgiu da experiência da perda. Nós, Fabrício e Rafaella, engravidamos no início de 2014 e perdemos Miguel em 06 de novembro do mesmo ano. A gestação do Miguel foi um aprendizado em diversos aspectos. Todo o contato que estabelecemos com a questão do parto humanizado, com a realização plena de viver à espera do querido filho. E, já no final, entramos em contato com a hora mais escura da noite, a perda gestacional. Miguel nos deixou sem explicação algumas horas antes de vir ao mundo. É verdade quando dizem que certas experiências nos transformam. Toda a dor vivida nesse processo mudou alguma coisa aqui, dentro de nós. Nós, enquanto vítimas dessa tragédia, tivemos muito apoio, fomos brilhantemente assistidos. Esses meses de terapia, apoio dos amigos e da família nos fez pensar. Pensar que existem mães e pais por aí que não tiveram esse acolhimento. Existem mães e pais por aí que não estão conseguindo enxergar uma luz no fim do túnel. E foi aí que decidimos fazer algo. Não existe uma receita de bolo para este processo, mas acreditamos em um ingrediente universal que gostamos de cultivar aqui: O amor.

O grupo foi idealizado e concretizado pela doula Bel Cristina, terapeuta Ana Lana e psicóloga Renata Duailibi, que apoiam mães e pais enlutados.




Trechos transcritos dos depoimentos das MÃES desse documentário:

"O Théo sempre vai fazer parte da nossa família, ele é insubstituível (...) hoje eu olho e penso, verdadeiramente, que eu viveria tudo de novo para ter essas semanas e dias com ele (...) porque foi a história de amor mais linda que eu vivi e eu realmente me sinto especial por ser mãe dele, porque ele deixou uma mensagem de amor." 

" E, quando acontece esse desabrochar, depois do sentimento da dor, é o maior legado que eu poderia ter nessa vida, é sentir que eu sou um ser humano falho mas, olha que loucura, eu posso amar as pessoas e eu posso receber amor dessas pessoas (...) só a tristeza sente empatia, a alegria não sente."

"Não é necessário acontecer uma coisa tão ruim assim para que a gente consiga olhar pro outro e, realmente olhar pro outro, e oferecer aquele carinho que é tão pueril, é tão leve... tem coisa mais leve que um abraço? Apertado? (...) A gente precisa de menos constrangimento com a dor, menos constrangimento com a lágrima do próximo porque, dor, todo mundo tem.!"


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