segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Interpretando a Declaração da OMS sobre Taxas de Cesáreas



A OMS publicou em 2015 uma Declaração sobre Taxas de Cesáreas. A declaração foi bastante comentada no país. No entanto, muitas pessoas se restringem a ler apenas o resumo do texto e podem acabar tirando conclusões distorcidas e diferentes do que realmente está escrito por lá. Por isso, o Blog Visão de Ilitia vai explicar para você, gestante, o que verdadeiramente diz a Declaração da OMS sobre Taxa de Cesáreas.


1. Logo no título, a OMS define sua posição de que esforços devem ser concentrados para garantir que as cesáreas sejam feitas quando necessárias. No entanto, deixa claro também que a definição de taxas-alvo de cesarianas deve ser evitada:




2. O resumo inicial relata a importância da cesariana na redução da morbimortalidade materna e perinatal quando realizadas por motivos médicos, ressalva que, como qualquer cirurgia, pode acarretar em riscos e que esses riscos são maiores para mulheres com acesso limitado a cuidados obstétricos adequados:




3. Num outro momento do texto, a OMS, ainda aponta que além da questão do risco do procedimento cirúrgico, existe a questão política, e que o procedimento da cesariana aumenta em muito o custo da saúde, principalmente para aqueles países que apresentam dificuldades no seu sistema de saúde:



4. A OMS, então, foi a procura de um valor ideal do número de cesáreas:




5. Apesar da dificuldade de se estabelecer uma taxa minimamente segura de cesáreas e que evite procedimentos desnecessários, a OMS afirma que a definição desse número não pode ser estendida às unidades hospitalares individualmente devido às diferenças de público atendido, de protocolos seguidos e de recursos disponíveis em cada local:




6. A OMS, então, realizou uma revisão sistemática das taxas de cesarianas e mortalidade materna e neonatal de diversos países e concluiu que:




7. Perceba que, como os estudiosos já haviam alertado anteriormente, o valor de 10 a 15% de cesáreas é um valor mínimo. Portanto, taxas de cesarianas abaixo desse valor é que estão correlacionadas com aumento de mortalidade:




8. Para valores de cesáreas situados entre 10 e 30% não há efeitos sobre a mortalidade:




9. E para valores acima de 30%:




10. O texto ainda reitera a importância da influência dos aspectos socioeconômicos e da qualidade da assistência à saúde como fatores causais de mortalidade que estariam sendo atribuídos às cesáreas:








11. E finalizou que, apesar de fundamental quando se leva em consideração o indivíduo e não a população, essas pesquisas não levaram em consideração aspectos psicológicos e sociais relacionados ao parto:




Quem lê somente o resumo ou a conclusão final da Declaração pode acabar interpretando de maneira incorreta o que está disposto no texto. Em termos de saúde pública, quando se pensa em uma população como um todo, o número de cesáreas precisa ser reduzido. A questão do custo se faz relevante principalmente em países pobres, pois o dinheiro economizado na redução do número de partos cirúrgicos pode ser utilizado para outros tipos de melhorias de saúde para a própria população. Cesarianas consecutivas elevam o risco para partos posteriores, o que faz com que mulheres de países sem histórico de planejamento familiar fiquem expostas a um risco maior.


No entanto, não está correto quem afirma, a partir desta Declaração, que existe uma correlação de causa entre aumento de taxa de cesariana e aumento de mortalidade materna e neonatal. Na realidade, o que o texto fala é que valores muito baixos de cesáreas (menores que 10 a 15%) se relacionam a aumento de mortalidade.


Também não está correto, pelo menos do ponto de vista da OMS, quem estipula taxas de cesarianas como teto máximo de realização do procedimento. Primeiro porque a organização desencoraja o estabelecimento de taxas-alvo, segundo por existir diferenças de população atendida e de estrutura nos diversos hospitais e unidades de saúde e, principalmente, pelo risco de se elevar a mortalidade materna e neonatal ao se estipular como máxima, a taxa mínima de cesáreas recomendada pela OMS.  

Assim terminamos este texto colocando que a Visão de Ilitia é a favor do parto normal, mas também a favor de cesarianas bem indicadas e eletivas a pedido da mulher. Somos mulheres com nossas histórias e vivências e não taxas e índices. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Diabetes na gestação


                O diabetes é o aumento dos níveis de glicose no sangue. Existem vários tipos de diabetes, mas os mais conhecidos são o tipo 1 (normalmente ocorre em crianças e adolescentes) e o tipo 2 (mais comum em adultos). Durante a gestação, o diabetes pode ocorrer de duas formas: mulheres previamente diabéticas (tipo 1 ou 2) que engravidam ou mulheres normais que desenvolvem diabetes durante a gestação (diabetes gestacional). Alguns pontos devem ser reforçados na distinção entre essas duas situações. O diabetes gestacional ocorre no segundo ou terceiro trimestre de gestação. Quando o diagnóstico de diabetes é realizado no primeiro trimestre, a mulher deve ser considerada como tendo diabetes tipo 2 previamente não reconhecido. A importância de se diferenciar estes dois casos é devido ao fato de o diabetes gestacional normalmente se resolver após o parto (apesar de uma maior chance de estas mulheres desenvolverem diabetes tipo 2 posteriormente), enquanto no diabetes tipo 2 isto não ocorre. Além disso, o diabetes gestacional é, em geral, de mais fácil controle que os diabetes tipo 1 ou 2.




Mulheres com diabetes que desejem engravidar devem tentar programar a gestação de maneira que os níveis de glicose no sangue estejam normais antes da concepção. Isto é muito importante, uma vez que níveis elevados podem levar a malformações, que ocorrem nas primeiras oito semanas de gestação, ou aborto espontâneo. Mas caso a mulher engravide e não esteja com controle ótimo do diabetes, não há motivo para desespero. Com tratamento adequado é possível alcançar níveis normais de glicose no sangue em pouco tempo. Para isso, a mulher deve procurar atendimento médico especializado assim que for confirmada a gestação.





O diabetes gestacional é diagnosticado pelo Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG), que deve ser realizado por todas as gestantes não previamente diagnosticadas com diabetes entre a 24ª e 28ª semanas de gestação. Mulheres que apresentem antes da 24ª semana uma glicemia acima de 92 mg/dL devem ter seu TOTG adiantado. O TOTG consiste na administração de 75 g de glicose com coleta de sangue antes da administração, 1 e 2 horas após. Caso qualquer um dos valores antes, 1 e 2 horas após forem maiores que 92, 180 ou 153 mg/dL respectivamente, o diagnóstico de diabetes gestacional está confirmado.

Pacientes com diabetes gestacional devem ser tratadas inicialmente com dieta e atividade física, além de perda de peso caso se encontrem com sobrepeso ou obesidade. Até 85% das gestantes com diabetes gestacional conseguem atingir níveis normais de glicose apenas com estas medidas. Se o controle não for alcançado, tratamento com insulina deve ser utilizado. O tratamento das mulheres previamente diabéticas é bastante semelhante, no entanto o uso da insulina é muito mais frequente nestes casos e é importante reforçar que não existem dados consistentes de segurança do uso de medicações orais para o diabetes durante a gestação, portanto o tratamento medicamentoso se restringe a insulina.






A automonitorização da glicemia capilar (teste para checar os valores da glicose realizado pelo paciente) é de extrema importância para o controle do diabetes. A manutenção de níveis normais de glicose é essencial para diminuir os riscos associados com o diabetes durante a gestação, que incluem pré-eclâmpsia, macrossomia (crescimento exagerado do feto), morte intrauterina, hipoglicemia neonatal (baixa de glicose no feto logo após o parto), tocotraumatismo (lesões no feto durante o trabalho de parto). É importante reforçar que o controle adequado dos níveis glicêmicos reduz significativamente o risco destas complicações. São considerados valores normais: 95 mg/dL antes das refeições, 140 mg/dL após 1 hora da refeição e 120 mg/dL após 2 horas (desde que a gestante não apresente hipoglicemias). Estes valores de normalidade devem ser individualizados e serão estipulados pelo endocrinologista assistente de acordo com os riscos e benefícios para cada gestante.


Ambas as vias de parto, normal ou cesárea, podem ser utilizadas nas gestantes com diabetes, a depender da preferência da gestante e de suas condições clínicas. Essa decisão deve ser tomada em conjunto pela gestante, obstetra, endocrinologista e demais profissionais que estejam acompanhando a gestação. Devem ser pesados os riscos e benefícios de cada abordagem, para que seja escolhida a melhor via. Pelo risco de morte intrauterina, macrossomia fetal e tocotraumatismo, não é recomendado o prolongamento da gestação, principalmente nas gestantes em uso de insulina. Após 40 semanas (ou até 38 semanas nas gestantes em uso de insulina) pode-se oferecer tanto a indução do parto quanto a cesariana eletiva, de acordo com as condições clínicas da gestante e do feto.









Como exposto acima, o diabetes durante a gestação pode levar a riscos tanto para a gestante quanto para o feto, os quais podem ser minimizados com um tratamento adequado. Este tratamento envolve dieta, atividades físicas e, em alguns casos, medicamentos (insulina). Para isso, é imprescindível uma equipe multidisciplinar composta por obstetra, endocrinologista, nutricionista e, se possível, um preparador físico. Estes profissionais devem estar em constante diálogo, com o intuito de proporcionar o melhor cuidado pré e pós-natal para a gestante e o bebê.








Texto:
Dr. Luiz Eduardo Armondi Wildemberg
Endocrinologista
CRM-RJ 52740047

A publicação das fotos foi autorizada pela gestante.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Pré-Natal. Aqui começa o respeito.

Quando a mulher engravida um horizonte novo se abre num mix de alegrias, medos e responsabilidades. A primeira coisa que uma grávida pensa, antes mesmo de contar para a família inteira, ou de sonhar com o quartinho do bebê, é em marcar com urgência o seu pré-natal.  É nesse exato momento em que a gestante faz sua primeira escolha: a de quem vai acompanhá-la

Pensando em como as gravidinhas ficam perdidas neste novo mundo, fizemos um roteiro das coisas mais importantes que precisam saber: como funciona o pré-natal e para que serve.

O pré-natal tem como principais objetivos:

- Passar orientações e informações de forma clara, objetiva, respeitosa e digna colocando a gestante, o seu companheiro e seus familiares em total capacidade de decidir sobre os cuidados da mãe e do seu bebê.

- Orientar sobre queixas comuns na gestação - o organismo da mãe se modifica durante a gestação. Essas modificações são fisiológicas e por isso normais, mas causam sintomas. Então, mesmo sem doença, gestantes podem ter sintomas como tontura, enjoo, desmaios, dor nas costas, hemorroidas. Algumas vezes são tão intensos que precisam ser medicados;

- Orientar suplementação de ácido fólico até 12 semanas, vitamina D durante toda a gestação e ferro, quando necessário;

- Orientar sobre vacinações na gestação: gripe, hepatite B e DTpa;

- Orientar os hábitos da vida diária, como beber, fumar, pintar o cabelo, atividade física;

- Orientar os direitos - como licença maternidade;

- Orientar sobre as vias de parto: seus riscos e benefícios, além de esclarecer sobre os procedimentos necessários, rotineiros e eventuais em cada tipo de parto;

- Estimular a amamentação;

- Avaliar alterações psíquicas ou psicológicas durante a gestação e no pós parto, dando apoio e orientando o tratamento quando necessário;

- Identificar doenças pré-existentes ou de início na gestação e, assim, perceber qual gestante vai precisar de cuidados adicionais, ou seguir para realização de exames mais específicos de acordo com a sua alteração.

Na primeira consulta são feitos a história, o exame físico e os exames complementares, para identificar a gestante que já é de alto risco.  A cada consulta, é feita a pesquisa de queixas; a verificação do peso e da pressão arterial, a medida do útero, a escuta do bebê. Os exames de sangue, urina e ultrassonografias também são repetidos regularmente.





Então, seguem as seguintes etapas:

- Anamnese – é uma história completa da gestante. Aqui são feitas perguntas como idade, doenças existentes, história de gestações anteriores, doenças na família, hábitos;

- Exame clínico completo - peso, pressão arterial, exames do coração, pulmão;

- Exame obstétrico - é o exame que mede o tamanho do útero para acompanhar o crescimento do bebê e escuta os batimentos do coraçãozinho;

- Exame ginecológico - procura doenças nas mamas, vagina, colo do útero. Identifica corrimentos e doenças sexualmente transmissíveis;

- Exames de laboratório - exames de sangue e urina, que detectam doenças;

- Ultrassonografia obstétrica - rastreio de síndromes cromossômicas, formação fetal, cordão umbilical, placenta e líquido amniótico.

As doenças podem, então, ser detectadas na história, no exame físico, nos exames de laboratório ou na ultrassonografia.  E se detectadas intercorrências clínicas ou obstétricas, estas serão tratadas ou acompanhadas. 

Uma vez classificada como de alto risco, a gestante é encaminhada para um pré-natal especializado, e aí, além da rotina básica de pré-natal, irá realizar outros exames regularmente, de acordo com o protocolo da alteração detectada.

Caso não seja constatado nenhum problema, ela manterá o acompanhamento conforme a rotina habitual do pré-natal nas consultas de retorno.


A gestação já pode ser considerada de alto risco desde o princípio nos casos de doenças maternas prévias como hipertensão, diabetes, lúpus, hiper/hipotireoidismo, câncer e outras. Ou ser classificada inicialmente de risco habitual, mas, por alguma intercorrência clínica ou obstétrica, passar a ser de risco aumentado. Esse risco pode aparecer a qualquer momento.


Quando nos referimos a intercorrências clínicas, estamos considerando doenças que podem aparecer mesmo fora da gestação, por exemplo, pneumonia, infecção urinária, câncer.

Quando falamos de intercorrências obstétricas, estamos falando das que só existem na gestação. Portanto, qualquer grávida pode apresentar:

- Hemorragias (ameaça de abortamento, descolamento de placenta, placenta baixa);
- Diabetes gestacional (aumento do açúcar no sangue que aparece na gravidez);
- Pré-eclampsia (pressão alta na gestação);
- Ameaça de parto prematuro;
- Miocardiopatia peri parto (uma doença rara do coração)
- Gestação gemelar
- Placenta prévia (baixa)

Muito se tem falado sobre os riscos de cada tipo de parto.

A ocorrência de morte no parto é rara e, geralmente, evitável. Na maioria das vezes, acontece por negligência em alguma etapa da assistência, e não pelo parto em si.




Onde pode estar o erro que aumenta o risco de morte ou sequelas para mães e bebês no parto?

- No pré-natal, que não detectou riscos ou intercorrências;
- No acompanhamento do trabalho de parto, que não diagnosticou e reverteu imediatamente as complicações;
- No parto, onde a via do parto não foi indicada de forma adequada ou não foram executadas as manobras necessárias na vigência de complicações;
- No pós-parto, onde complicações da mãe e do bebê foram negligenciadas.

O pré-natal visa o nascimento de um bebê saudável, sem prejuízo à saúde materna. Para isso, o pré-natal tem como principal objetivo detectar o alto risco. Cerca de 10% das gestações precisam de acompanhamento especial por doenças maternas ou fetais.

Como podemos ver, o pré-natal é fundamental e deve ser feito sempre por profissionais capacitados. Sem pré-natal adequado, deixamos de prevenir doenças, diagnosticá-las precocemente e tratar imediatamente as complicações. Um acompanhamento de pré-natal bem conduzido pode salvar vidas! 

sábado, 22 de agosto de 2015

Obstetrícia com Amor. Relato de uma Médica Obstetra.



Primeiro, eu conheci a B.. Ela estava grávida, havia descoberto há pouco tempo, embora já estivesse com a gravidez algo avançada. Internou no hospital por algumas comorbidades, para investigação diagnóstica e tratamento clínico - elas comprometiam a saúde dela e poderiam trazer complicações à saúde do feto. Assim que descobriu que havia um menino crescendo dentro dela, ele passou a ser chamar Arthur. Nós conversávamos todos os dias, B. e eu. Disse a ela que esse era nome de rei. 


Ela permaneceu internada por algumas semanas. Vivenciou tantos sentimentos diferentes, ouviu tantas histórias compartilhadas entre as pacientes – bonitas, com finais felizes, e outras tristes, sem o desfecho sonhado por algumas mães. Amadureceu um pouco a cada tarde. Contou os dias para que pudesse, enfim, ir para casa. Havia dúvidas se sairia com o Arthur ainda na barriga... Exames esclarecedores, diagnósticos firmados, tratamentos indicados e realizados com seriedade. B. queria conhecer aquele menino, queria pega-lo nos braços, queria que ele nascesse com saúde. No dia da alta hospitalar, ainda gestante, fizemos diversos acordos mútuos sobre as tarefas de cada uma dali em diante. Tudo haveria de dar certo. 


Todos os dias, porém, ao entrar naquele quarto de hospital, eu queria mesmo era saber como o Arthur estava. Conversávamos muito também, ele e eu. Eu com palavras, com a mão na barriga de B., ele com chutes (suponho!). Quando ela internou para a realização do parto tão esperado, eu não estava de plantão. Realizou parto vaginal assistido por colegas obstetras, plantonistas apaixonadas pela profissão.


Sentiu-se segura ali, ela disse. Relatou que, por alguns segundos, não acreditava que era o filho dela que já havia nascido. “Deu tudo certo, doutora!”- ela me contou, hoje, ao visita-los. Pude conhecer aquele menino com quem falei tanto, para o qual dediquei tantas horas de trabalho... Pude tocar a minha pele na pele do recém-nascido que antes eu cuidava sem poder ver, sem poder tocar, sem poder examinar diretamente – era através de B. que eu cuidava dele. Ele olhou para mim atentamente – parecia reconhecer aquela voz, como se não fosse novidade. Chutou minha mão de verdade, agora. 


Eu me despedi feliz. Ela estava grata, ele estava bem, eu estava satisfeita. Saí do hospital hoje como há muito não me sentia: esperançosa. Parece que os olhos atentos de Arthur sobre os meus hoje, a escuta dele atenta (acredite!), renovaram em mim a vontade de acreditar. Acreditar que no fim tudo sempre dá certo. Acreditar que a obstetrícia pode me trazer muitos sustos, sufocos, ansiedades – mas, no fim das contas, é a vida que chega através dela que carrega mais vida aos meus anos. Se me sinto envelhecendo muito a cada dia, pelas batalhas árduas que tenho travado como médica e obstetra nesse país, também me sinto como uma criança, cheia de sonhos, como uma jovem cheia de ideais. Que a maturidade trazida pelas derrotas me permita sempre enxergar com mais vigor o brilho conquistado com cada vitória. Seja bem vindo Arthur, o “mundo está melhor desde que você chegou”. 



Juli Zanrosso Caran





Foto tirada por B., divulgação autorizada. 




Juli Zanrosso Caran é médica ginecologista e obstetra e tem uma página no Facebook muito legal. 
Para seguir suas publicações é só curtir: Vem aqui, vamos conversar.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Quando o trauma vai além do parto. Relato de M. #partocomrespeito

Em busca de informações sobre os diversos tipos de parto e suas possíveis complicações, nos deparamos com a M. que preferiu não se identificar. Ela nos contou sua história que deixou marcas físicas, emocionais e na sua vida conjugal. Ficamos tristes por saber que a falta de informação ou melhor, a falta de informação de forma imparcial, leva cada vez mais mulheres a serem enganadas. Complicações existem em qualquer via de parto. Nossa luta é pelo parto com respeito.




Meu nome é M., tenho 27 anos. Morávamos na Bahia quando descobri minha primeira gestação. Ao darmos a notícia da gravidez para o ginecologista, ele olhou para meu marido e falou que ele tinha “feito mal para a moça”. Sempre que precisamos de atendimento médico por lá, achamos bastante precário. Desde aquele primeiro encontro, percebi que não queria que nosso bebê nascesse lá. Preferi retornar para o interior de São Paulo, onde poderia ser assistida pelo meu médico de confiança, que me acompanhava desde a adolescência.


Já em São Paulo, procurei grupos de apoio à gestante pelo Facebook. Eu tinha uma colega que era doula e participava de um grupo que acabei entrando até sem saber que era humanizado (na época não sabia dessas coisas). Foi nesse grupo em que conversamos e ela me convidou a conhecer o local e assistir à primeira palestra.

Fomos eu e meu marido, já estava com 4 meses, nos apresentamos e fomos apresentados ao mundo da humanização. Adorei a palestra, foi muito esclarecedora e a partir desse dia decidi voltar em todos os encontros.

Após alguns encontros eu e meu marido entendemos que a presença de uma doula na hora do parto era fundamental, então contratamos uma. Achei que teria um apoio a partir deste momento, mas não aconteceu, porém eu continuava acreditando que, pelo menos durante o parto, esse apoio viria.

A gravidez foi passando, assistimos ao Renascimento do Parto, vários vídeos de partos m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s, humanizados, vários de partos domiciliares e estes, então, costumavam ser ainda mais lindos. Também fomos apresentados a vários vídeos de violência contra o bebê, o que para uma mulher gravida é sempre muito chocante. A gestante fica bem mais sensível e os procedimentos parecem ser muito desnecessários mesmo.

Meu marido estava em transferência pra SP, o plano de saúde havia mudado e estávamos esperando que mudasse de novo quando a transferência fosse realizada. Então neste momento estávamos desamparados de plano de saúde, e minhas consultas passaram a ser pagas.  Havia o medo de ter carência do plano, então achávamos que não teria cobertura para o parto.




Conversamos com a doula sobre nossa situação, mas ela sempre foi neutra. Aconselhou visitarmos os hospitais que pudessem ser opção em Campinas e conversar com meu médico sobre o parto.
Tentei conversar com meu médico sobre o parto, porém com 33 semanas, ele disse que ainda era cedo para termos essa conversa. No mundo humanizado sabemos que quando o médico vem com essa história é porque no final haverá alguma desculpa para o parto ser cesárea.  Decidimos, então, mudar de médico com 35-36 semanas e passamos a conversar com uma médica humanizada em Campinas. Ela deu o preço dela, mas se o plano não cobrisse, teríamos despesas hospitalares para bancar também. Não sabíamos quanto iria ser.


Também tentamos conhecer uma casa de parto, mas fomos convencidos que não havia diferença em parir numa casa de parto ou na minha própria casa. Então, pela primeira vez considerei esta ideia. Afinal, por que não? Gravidez saudável, sem risco nenhum, o que poderia dar errado? Então comunicamos a doula essa possibilidade.


Nosso parto seria na época de copa... Meu próprio médico nos aconselhou a não aparecermos num hospital em trabalho de parto caso fosse jogo do Brasil, e sabemos que tem muito médico que agenda cesárea para não ser chamado num feriado prolongado, ou antes de sair de férias. No jogo do Brasil não seria diferente. E por não ser diferente também encontramos muita dificuldade pra encontrar algum profissional para realizar nosso desejo de um parto em casa, todos estavam com a agenda cheia, muitos não pegam por opção mesmo uma grávida com 36 semanas de gestação. Mas nossa doula nos falou que tinha uma opção na região. Só não falou que ela não tinha experiência e nós também não perguntamos.

Marcamos um encontro pra conhecer a parteira! Que delícia, carinha de boa pessoa, um histórico de profissão hospitalar, mas, mais uma vez, nos esquecemos de perguntar do histórico domiciliar. Como fomos muito com a cara dela, bateu confiança! E assim fechamos a equipe com ela.

Parto em casa, 36 semanas, foi aquele corre-corre para comprar os acessórios, piscina, chuveirinho, etc.. Ainda deu tempo de uma visita pré parto, mas o tempo não foi suficiente para conhecermos o resto da equipe.


Deu 39 semanas e bolsa estourou às 5 h da manhã. Fiquei assustada, mas sabia que isso não era motivo para pânico. Minha doula me tranquilizou pelo bate-papo do face, e disse que estaria aqui assim que começassem as contrações mais doloridas. Às 21 h, elas começaram um pouco mais fortes e foi piorar muito lá por volta da meia-noite ou uma da manhã. Ela chegou meia-noite junto com a enfermeira, pois já que viajariam de Sorocaba até aqui, decidiram vir juntas no mesmo carro.
Assim foi a madrugada toda, eu com muita dor e com medo por não saber se estava tudo bem, porque sentia dores, chorava, gritava, pedia ajuda, e não via muito caso da doula, muito menos da enfermeira que ficava o tempo todo no celular.

Me senti abandonada pela equipe dentro da minha própria casa, coisa que absolutamente não deveria acontecer num parto humanizado. A doula, buscava água quente, levava toalha, mas eu achava que precisava de apoio psicológico, e definitivamente não tive. Em certo momento ela começou com algumas massagens nas minhas costas, mas parecia uma coisa fria, não me senti acolhida. Eu gritava por SOCORRO! Em certo momento do parto, até chegaram policiais que invadiram a minha residência, pois provavelmente os vizinhos se assustaram. Neste momento a doula me abandonou totalmente e fiquei com uma auxiliar da parteira, por quem tenho total gratidão, por ter me acolhido nestes poucos minutos, o que me ajudou muito.

Senti que o dia estava amanhecendo, a parteira me orientou a deitar na cama e erguer uma das pernas, logo em seguida também orientou os puxos a cada contração, pois verificou que já estava com dilatação total. Todas nós que buscamos informações sobre parto humanizado, sabemos que a laceração ocorre mais facilmente se a parturiente estiver deitada e fizer força sem ter vontade. Porém, por eu estar assustada, e querer ajuda de qualquer forma, cedi à posição e aos puxos orientados por ela.

Durante a minha gravidez, ninguém me orientou sobre a utilização do EPI NO*, para minha doula era desnecessário, porém, sei hoje que se ele não ajuda na elasticidade do períneo, ajuda pelo menos a mulher na percepção do período expulsivo.

Então comecei a fazer força, e a parteira disse que já dava para ver o cabelinho e que se eu quisesse poderia pôr a mão para sentir. Eu não quis, pois a cada força que eu fazia eu sentia o períneo esticar pra frente, mas sem abrir. O medo foi aumentando, pois percebi que naquele buraco não passaria uma cabeça, e eu chorava...

Nessa hora a parteira me disse ”eu quero te ajudar”, mas não falou qual tipo de ajuda seria essa. Ela, então, resolveu simplesmente romper meu períneo com a mão e sem anestesia nenhuma. Griteiiiiii muito... este momento... é o momento de mais fragilidade minha vida até hoje... Lacerou muito. Via meu sangue jorrando... E ainda faltava o corpo, não tinha como parar tudo ali e fiz mais uma força para, enfim, sair o corpo do bebê.

Durante esse último procedimento, eu fiquei em quatro apoios. E quando meu filho nasceu, colocaram ele embaixo de mim para termos o contato olho a olho. Talvez, ver o olhinho dele, vê-lo tão frágil quanto eu estava naquele momento, fez com que eu não o rejeitasse, apesar de ter tido essa vontade no imediato. Até eu olhar para ele e ver que ele não era culpado pelo que eu estava passando. Ele tinha passado por tudo aquilo junto comigo, e não contra mim.


Eu estava muito dolorida, parecia que tinha sido atropelada por um caminhão. Fui tomar banho para parteira dar os pontos, tive muita tontura (essa tontura durou 3 ou 4 dias). Ela fez a sutura e aguardamos das 9 h, horário em que o bebe nasceu, até as 17 h para a saída da placenta. A sutura foi realizada apenas na pele, pois a enfermeira disse que a laceração era grau 1.




Minha recuperação foi longa e dolorosa, pelo que eu li acredito que minha laceração tenha sido grau 3, pois lacerei até o ânus. Tive fissuras, inflamação local e fiquei 2 meses para cicatrizar uma região que não fechou. A cicatriz ficou aberta, pois os pontos caíram sozinhos antes da cicatrização. Com tudo isso, a amamentação também ficou prejudicada, pois a questão emocional atrapalha muito a produção de leite.

Esse desfecho também atrapalhou minha vida sexual, pois após 5 meses, ainda sentia muita dor na região e quando eu e meu marido tentamos já percebemos que algo não estava normal lá em baixo. Fui a uma avaliação de uma ginecologista do meio humanizado que disse que a vagina deve ter ficado uns 3 pontos aberta e a bexiga um pouco caída, mas que podíamos tentar amenizar com uma fisioterapia perineal.


Faço fisioterapia e tem ajudado sim, mas o que fica é o emocional. O emocional ficou abalado e nunca voltará a ser como antes, pois ainda terei que passar por uma cirurgia de reparação perineal, para reconstrução da região. Infelizmente ainda não pude fazer a cirurgia, porque o bebê me demanda muito. Não tenho parentes por perto, a família nunca apoiou esse tipo de parto, e não sabe até hoje que eu passei por tudo isso. Além do mais, a ginecologista disse que se eu quiser um parto normal após a cirurgia perineal, o risco de uma laceração maior, é mais alta. Então quem passou por um trauma desse, quer evitar qualquer coisa que possa piorar um próximo parto.


Queria finalizar deixando claro que sou totalmente a favor de um parto que seja realmente humanizado, que diferente de certos profissionais que erram e que depois abandonam a paciente, minha doula me acolheu. Mas a enfermeira sumiu. Tentou se explicar, mas não se desculpou.

O que eu desejo é que esse relato sirva de alerta! Informação é importante, mas confiar o seu parto à pessoa/equipe certa é muito mais!



* EPI NO é um dispositivo que tem como finalidade auxiliar na distensão do períneo, exercitando sua musculatura, com a proposta de evitar a episiotomia. Sua aplicação tem sido discutida e estudada, conforme exemplificamos neste estudo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Gravidez e Beleza

Fonte: gnt.globo.com


A gestação é um período de grandes mudanças, em que a mulher passa por alterações físicas e psicológicas. Esse período de transição constitui numa das fases da personalidade da mulher que, aos poucos, vai desenvolvendo uma nova identidade: a de mãe. As mulheres passam a se preocupar com a saúde do bebê e até atos simples do cotidiano costumam gerar as mais diversas dúvidas na cabeça das futuras mamães. 

Para ajudar as gravidinhas mais vaidosas, a Dra. Fábia Luna, dermatologista (CRM-RJ 5258151-5), deu algumas dicas pra gente, do que pode e do que não pode na gestação.

Afinal, grávida pode?


Xampus, Condicionadores e Hidratantes Capilares


Fonte: www.blogdanibarbosa.com

De um modo geral, tais produtos são compostos por uma gama de matérias-primas muito grande, que, na maioria das vezes, salvo alguma orientação expressa feita pelo fabricante e que deve conter na embalagem, são seguros para o uso durante toda gravidez. Portanto deve-se sempre ficar atento ao que diz na embalagem desses produtos.


Alisamentos e Permanentes

Nesses procedimentos podem ser usados formol, tioglicolato de amônia e outras substâncias. Tais substâncias estão muito relacionadas à dermatite de contato e a fratura dos fios, mas não existem informações relacionadas à segurança das mesmas durante a gestação. Por conta disso, sugere-se cautela com o uso de tais substâncias durante a gravidez, restringindo o uso de tais procedimentos, mas só se for de extrema necessidade realizá-los e, preferencial, após o fim do segundo trimestre gestacional.


Pintar os Cabelos


Fonte: modabelezaestetica.com.br


A fim de obter tal efeito estético, utilizam-se produtos ditos temporários, os tonalizantes (2 semanas), semipermanentes, as Henas (4-6 semanas) e permanentes, as tinturas. Na literatura, encontramos algumas informações frágeis a respeito da associação de tintura de cabelo com tumor de Wilms em fetos, já que se acredita em uma pequena taxa de absorção pela pele.

No entanto, tais suposições não se confirmam, bem como a associação de aumento de taxa de abortos espontâneos em cabeleireiras, tampouco sem conclusão.

Embora sem informações contundentes sobre a segurança no uso de tais produtos, prefere-se restringir o tingimento dos cabelos para o terceiro trimestre de gestação (NUNCA NO PRIMEIRO TRIMESTRE), evitando sempre a mistura entre produtos, não só para gestantes, mas, também, para cabeleireiras grávidas. Também devem ser evitados produtos que contenham amônia em sua formulação.


Clareamento de Pelos

A grande maioria dos produtos no mercado é a base de água oxigenada. Por não haver informações contundentes sobre a segurança deste produto durante a gestação, embora se acredite que uma pequena quantidade do produto possa ser absorvida pela pele, tal procedimento deve ser evitado ao máximo! Se extremamente necessário, somente no último trimestre.


Maquiagem e Esmaltes


Fonte: www.vestiremaquiar.com.br

A maioria dos cosméticos parece ser segura para uso durante a gravidez. No entanto, é importante evitar aqueles que contém mercúrio, vitamina A e seus derivados, pois podem ser teratogênicos (podem gerar malformações fetais). Durante a gestação, a pele pode se tornar mais permeável, portanto, deve-se evitar o uso de maquiagem contendo parabenos e lauril sulfato de sódio. As mulheres com tendência a acne podem ter agravamento do quadro durante a gravidez e é recomendado não usar cosméticos oleosos. Alguns batons e esmaltes podem conter níveis altos de chumbo, principalmente os mais fixadores. Deve-se evitar seu uso. 

Não existe um estudo que determine a segurança de produtos cosméticos durante a gestação, por isso recomenda-se que sejam usados basicamente cosméticos a base de dióxido de titânio e corantes inorgânicos não absorvíveis.


domingo, 16 de agosto de 2015

Complicações de uma Cesárea. O parto de uma Obstetra.


Eu sou médica e obstetra e já assisti muitos partos normais e realizei muitas cesarianas durante a minha formação e carreira. Como qualquer mulher, eu sonhei e planejei a minha própria gestação. Uma gestação planejada e programada, primeiro neto e primeiro bisneto da família. Todos estavam muito felizes.

Fiquei na dúvida da via de parto, mas preferi cesariana. Me senti segura junto ao médico do pré-natal e que trabalhava com um amigo querido. A esposa deste amigo, que também é uma grande amiga, seria a pediatra da sala de parto. Então, meu parto já seria cheio de amor.

Com 36 semanas de gestação, o destino me deu uma baita surpresa. Meu avô materno, que era como um pai para mim, ficou doente. Foi para o CTI com uma infecção urinária, depois infecção pulmonar e, a partir deste ponto, entrou em coma induzido. Fiquei quase 20 dias da sua internação grávida, com  uma barriga enorme, pés inchados, do lado do leito dele. Morria de medo de entrar em trabalho de parto e não poder mais estar ali com meu avô. Até que, com quase 40 semanas, eu não aguentei. Mesmo com ele em coma, me despedi dele no sábado e comuniquei à família que faria a cesariana na segunda. Pedi para que ninguém me visitasse, para dar toda atenção ao meu avô. Fui para casa e dormi. Fui acordada com um telefonema que ele havia falecido. Ele me escutou e resolveu partir para assistir ao nascimento do bisneto em outro plano. Ele foi enterrado domingo e compareci contra a vontade de todos. Foi um dia de desespero para mim. Não gosto nem de lembrar...

Enfim, me foquei para o nascimento do meu filho amado, que seria no dia seguinte. Não tinha cabeça alguma para entrar em trabalho de parto. Me internei à noite, fiz jejum adequado e o parto foi lindo. Meus amigos em sintonia de amor, muito choro e emoção. Fui para o quarto e tentei dormir um pouco.


Até que começou o pesadelo.....


Comecei a sentir um peso na região da cicatriz e uma sensação estranha no corpo e pedi para a enfermagem olhar meus pontos. Eu mesma queria ver, sem incomodar ninguém, mas não deixaram. Chamaram meu amigo que me operou pois ele morava em frente ao hospital. Ele ao me examinar viu que havia um hematoma enorme e eu precisava ser reoperada com urgência. (complicação 1). Naquele mesmo dia, às 3 da manhã, eu entrei novamente no centro cirúrgico para desespero do meu marido e dos meus familiares. Fizeram a drenagem do hematoma e cauterizaram qualquer vaso que podia estar babando aquele sangue todo. No outro dia, eu me sentia bem. E pressionei para ter alta com 48 h de vida do meu pequeno.


Fui para casa na quarta-feira sem amamentar plenamente. Tenho mamoplastia redutora e isso estava dificultando (ou a cesariana? ou a outra cirurgia?). Passei a primeira semana como qualquer mulher pós parto, descabelada, tentando amamentar e me descobrir como mãe. Um eterno aprendizado. Meu filho chorava o dia todo e eu não percebia que era de fome porque eu não queria dar complemento e ficava o dia todo com ele no peito.  Associado a isso, eu estava com uma cicatriz que saía muita secreção e fui sentindo aumentar as dores no corpo e a fraqueza. Não conseguia mais tomar banho em pé e passei a fazer isso com auxílio de uma cadeira. Meu amigo veio aqui em casa me ver e me ajudava no curativo.

Como médica e obstetra eu sabia que tinha algo de errado.  Na segunda-feira seguinte, exatamente uma semana após o parto, fui ao meu obstetra (que era da equipe do meu amigo). E relatei que estava com muita dor à descompressão abdominal que significa possibilidade de infeção abdominal interna. Mas, como eu não estava com febre, ele não acreditou. Achou que era psicológico e pediu para eu aguardar mais um pouco. Pois eu tinha passado pela perda do meu avô e estava debilitada emocionalmente.

Voltei para casa e por conta própria comecei a tomar medicações analgésicas mais fortes e escrever um guia de cuidados com meu filho que eu gostaria que seguissem na minha ausência. Passei a madrugada com falta de ar, dor abdominal intensa, mas esperei amanhecer na terça-feira e liguei para o meu amigo que estava na minha cirurgia avisando que eu não aguentava mais e iria para uma emergência. Também liguei para outro amigo que trabalhava em uma das melhores emergências da minha cidade e avisei que eu estava indo. Minha mãe chegou lá em casa sem acreditar. Pedi para ela ficar do lado do meu filho sem largar sequer um minuto. Entrei no carro com meu marido e daí lembro somente de fatos picados.

Não conseguia respirar direito porque doía muito. Cheguei na emergência. Os médicos já me aguardavam porque receberam a ligação do meu amigo avisando. Entrei direto e já me colocaram na máscara de oxigênio e me deram medicação analgésica. Colhi exames de sangue e segui para uma ultrassonografia abdominal. Neste momento, vi que os meus amigos já estavam lá e meu obstetra também. Na ultra lembro de me falarem que eu não tinha nada. 

Chegaram os resultados do exame de sangue, que mostraram que a coisa estava feia. Bem feia. Uma infecção absurda. Sepse. (complicação 2). O caso era mais sério do que pensavam. Já começaram a falar de internação. Fiz a Tomografia. Mostrou focos de pus em todo abdome, derrame pleural bilateral. Lembro de sair da sala de exame e ver mais amigos ao meu redor porque eles foram chegando por lá para acompanhar o caso. Estavam incrédulos. E eu pensei nesta hora.... Estou morrendo.

Fui internada no CTI e passei a maior parte dos primeiros dias dormindo e lutando para respirar bem e sem dor. Gritando por medicação analgésica. Iniciaram antibiótico. E sempre que eu abria o olho tinha algum amigo médico ao meu lado. Fiz duas transfusões de sangue. E pensava... estou morrendo. Meu marido passava o dia todo lá comigo e só voltava para casa à noite porque não podia dormir lá. E minha mãe grudada no meu filho como uma leoa. Ela tinha acabado de enterrar o pai e estava perdendo a filha.  Meus sogros apoiando minha mãe e meu marido.
  
Enfim, fui vendo uma luz no fim do túnel e aos poucos fui melhorando. Fazia fisioterapia respiratória e já estava estável. Fui transferida para a semi intensiva e meu marido ficou comigo 24 h sem me largar. Acompanhava meu filho por foto.  Fiquei 7 dias e finalmente fui para o quarto já sem precisar de ajuda para respirar. E foram no total 15 dias de luta. Finalmente, recebi alta hospitalar e fui para casa.

Foi muito emocionante rever meu filho. Mas tive que me adaptar novamente a ideia de que eu era mãe. Foi como um novo nascimento. Não pude amamentar. Mas não me importava, estávamos juntos e bem. E ele crescia lindo e cheio de vida. 

Quando meu filho estava com 3 anos engravidei novamente e desta vez fiz meu próprio pré natal até 34 semanas. Todo mundo me perguntava se eu teria novamente uma cesariana. E esta resposta eu tinha na ponta da língua. SIM. Surpresa para vocês? Para mim a cesariana foi cruel, mas meu filho nasceu perfeito e com saúde. Sou mãe, enfrento o que for por ele.  Pedi para um outro amigo me operar e assim foi feito.  Minha filha nasceu linda e saudável e eu tive um pós operatório perfeito.




Sim cesariana tem riscos e eu mais do que ninguém sei disso. Foi uma escolha consciente. Mas cada um tem que saber o que acha melhor para o seu parto. E suas consequências.

O Visão de Ilitia tem a intenção de mostrar os dois lados, mostrando os riscos de cada tipo de parto. Para que mulheres possam fazer a sua escolha de forma lúcida e consciente. Em breve publicaremos informações para auxiliá-las nesse processo.


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Todo extremismo é perigoso #priscilla #pararefletir

Priscilla quando engravidou pensou em ter seu parto normal. Foi levada a escolher um médico da sua cidade que era conhecido por parto humanizado. Mas não imaginou que para este médico era mais importante a via de parto para engrossar a sua estatística do que o bem estar da mãe.
Nestes extremismos o importante é nascer por normal  não importando as consequências. E depois de feitas as escolhas do tipo de profissional que vai te acompanhar o arrependimento vem em uma hora que não dá para voltar atrás. 
Aqui ela tem coragem de contar sobre este parto que a deixou com sequelas físicas e emocionais para que outras mulheres tenham mais informação antes de escolher.

Meu nome é Priscilla, tenho 35 anos, vou contar minha história.

Imagina, uma mãe saudável, que pensa em fazer parto normal, mas seu bebê não está numa posição favorável, segundo os médicos que fizeram suas últimas ecografias. Ela questiona o médico em sua última consulta antes do parto, indagando sobre uma possível cesariana, mas o médico, defensor do parto humanizado, diz que o parto normal é o melhor para mãe e para o bebê e que a posição do bebê não era impedimento, que só seria mais difícil o trabalho de parto.


Pois bem, o trabalho de parto não foi tão ruim assim, durou apenas 3 h. Quem diria? Mas o período expulsivo, ao contrário do que todos imaginavam, não foi tão fácil, durou cerca de 6 horas. Digamos que o médico teve que colocar a mão entre as membranas do saco amniótico e a parede do útero e empurrar as paredes do útero, para ver se induzia o parto. Essa manobra é considerada aceitável, geralmente uma vez basta, porque funciona e também dói muito. Digamos que o médico fez isso umas 20 vezes ou mais, no desespero... não funcionou.

A mãe, desesperada, quase morre, clama a Deus por socorro, pede por uma cesariana, mas já não era mais possível fazer a cesariana. Na sala de parto estava uma outra equipe médica, outro obstetra que tenta ajudar e fazer com você posições de malabarismo, que ninguém se julga capaz de fazer em tal situação, foi administrado a ocitocina... anestesista de plantão, várias enfermeiras... muita tensão. Seu marido ali, o único que parecia estar calmo e querer passar tranquilidade e confiança pra mãe, ele passou a ser a força que ela não tinha mais. A exaustão era profunda, desespero na cara de todos.  Horas se passaram e ela começa a escutar o clamor a Deus, desesperado, de sua mãe lá no corredor do hospital.

Seu marido entra na banheira com ela, segura a corda pra ela pendurar, está ao lado dela na barra para agachar, faz massagem nela quando esta de cócoras... e esse ciclo se repete várias vezes... Ela olha pra ele, e ele: “Vai amor, você vai conseguir...”.

Resumindo, o bebê nasceu, saudável, faminto... A mãe, desfaleceu, tremia de quicar na maca... “mãe, mãe, sua filha nasceu !”, o médico tentava acordá-la. Mas ela não conseguiu presenciar esse momento mágico.

O bebê nasceu no domingo, a paciente liga para o médico e manda mensagens perguntando quando ele iria passar no quarto para vê-la. Na quarta-feira a enfermeira liga para o médico várias vezes perguntando se ele não vem ver sua paciente, pois ele ainda não tinha aparecido para ver se a paciente ficou bem após o parto, apesar de ter ido todos esses dias no hospital para ver outras pacientes. De fato, se ele tivesse ido, teria constatado que ela não estava bem. Até uma amiga levou psicólogo para conversar com ela, pois percebeu que tinha algo errado. Os pediatras diziam: “o bebê já pode ir para casa, mas eu não vou dar alta ao bebê por conta do estado da mãe”. Acho que ele deve ter ficado com medo de encarar a família.

O médico, que se diz pró parto humanizado, era contra a episiotomia. Quando o bebê foi nascer ele, com o dedo, fez uma laceração no canal vaginal para que o bebê passasse. Os pontos foram rejeitados pelo organismo e abriram, mas é claro que ele não viu, pois até então não tinha ido visita-la no hospital.

Na quinta-feira, a mãe acorda desesperada, sai pelo corredor do hospital e agarra o colarinho do médico desconhecido que passava por ali: “ Se o senhor não me der alta, eu saio correndo do jeito que estou e fujo, deixo tudo para trás!”  O médico então, viu que ela não estava bem, prescreveu medicação e deu alta à paciente, com a promessa de que ela procuraria um especialista ao sair dali.

A mãe volta pra casa, o bebê, hoje, tem 10 meses... A mãe? Ainda em tratamento, o parto deixou sequelas.

Essa mãe sou eu, mato um leão por dia, enfrento meus medos e consequências que esse parto me trouxe até hoje, todo os dias há algo que preciso passar por cima, inclusive a culpa que não tive.

Hoje, eu não comemoro o meu parto normal, não comemoro não poder passar as primeiras semanas da minha filha ao lado dela com o prazer de ter me tornado mãe, muito menos, não comemoro uma amamentação que não pude dar.

Hoje eu comemoro a vida, a dela e a minha. Um pedaço de mim que alegra meus dias e deu sentido para minha existência. 

O tipo de parto está virando uma ideologia, quando deveria girar em torno do bem-estar da mãe e do bebê. Foi por conta de uma ideologia que tudo isso aconteceu comigo. O parto normal não era o melhor pra mim e pra minha filha. Não tem sido melhor até hoje.




Não sou contra o parto normal, ainda tenho mais medo da cesariana e tentaria ter o parto normal no meu segundo filho, se realmente ele for o melhor para mim e para o bebê.

Se eu pudesse prever o futuro, a cesariana seria a minha primeira opção.

Somos livres e essa é uma escolha pessoal, não tem que ser alvo de discussão.

Concordo com uma amiga quando diz que muitas pessoas estão com valores invertidos, estão comemorando o tipo de parto e não a vida!