terça-feira, 11 de agosto de 2015

Humanização, um conceito para se pensar




  • Oi, pessoal! Sou médica, obstetra, trabalho no SUS. Quando vi a campanha do Senador Romário - Humaniza SUS - fiquei reflexiva.
  • Não, não é possível humanizar o SUS. Gestantes em trabalho de parto, sentadas em bancos, esperando por atendimento, às vezes peregrinando de porta em porta. Faltam leitos nas maternidades, sujeitando algumas mães a parirem em cadeiras, macas estreitas e colchões espalhados por corredores (vejam esta matéria do G1). Muitas vezes, aguardam por horas a transferência para outras maternidades, devido à falta de vagas. A rede pública está carente de estrutura, medicamentos e recursos humanos para promover um parto digno e respeitoso às suas usuárias (vide post deste blog). Os obstetras trabalham desmotivados, mal remunerados, sobrecarregados, desamparados e acusados de violência . 
    Sim, é possível humanizar o SUS. Aliás, é possível humanizar qualquer parto ou procedimento médico. Mas, tenho meu próprio conceito de humanização. E vou contar pra vocês, em dois posts distintos. Neste primeiro, vou falar da humanização do profissional da saúde. Posteriormente, escreverei outro post, analisando este conceito de humanização de forma mais crítica, analítica e abrangente.

    Infelizmente, a imagem da classe médica está maculada pela conduta de maus profissionais. Há de se considerar também questões ligadas à política, que não vou discutir aqui, mas, certamente, colocaram o médico numa posição defensiva. Ou de ataque. E a prática obstétrica foi colocada na berlinda, depois de questionamentos acerca da tal violência. Eu não gosto deste termo, porque violência me soa como algo proposital e sádico. E não acredito que seja assim. Percebo, na verdade, que se trata de um mau hábito herdado e propagado em nossa prática cotidiana. Prática, esta, que nunca tinha sido questionada por mim, até então.

    Existe uma real demanda pelo parto humanizado. Mergulhei nesse tema e procurei me informar. Foi assim que entendi os anseios das gestantes e mudei meu ponto de vista. Algumas parturientes se afastaram da assistência hospitalar pelo temor da tal violência obstétrica. Não temos o direito de julgar suas escolhas antes de analisar nosso comportamento. Quantas vezes elevamos o tom de voz, dissemos coisas que podem ser facilmente interpretadas como humilhantes, desdenhosas ou agressivas, fizemos intervenções excessivas, perdemos a paciência... Muitas vezes despropositadamente, nada intencional, mas, precisamos ter em mente que, para alguns de nós, pode ser apenas mais um parto, mas, para a mulher e sua família, trata-se de um momento único, talvez o mais importante de suas vidas. Seja parto normal ou cesariana, precisamos focar nossos esforços para, no mínimo, respeitar este evento mágico. Vejam bem: humanizar não significa que tenhamos que abrir mão da nossa formação acadêmica, das evidências científicas, de condutas consagradas na obstetrícia, mas é preciso repensar certas posturas. Algumas adaptações à obstetrícia clássica, de forma alguma, diminuem nosso papel na assistência e em nada ferem conceitos científicos. Cedamos, colegas, cedamos. Sejamos menos intervencionistas. Proporcionemos às mulheres uma experiência saudável, amena e rica. O parto, ou qualquer outra situação que envolva nossa intervenção, deve sempre colocar, em primeiro lugar, o paciente, exaltando técnica, informação e respeito. 
  • Indubitavelmente, há equívocos na forma com que os termos "humanização" e "violência" têm sido abordados e interpretados. E é muito injusto que os médicos sejam o fim da linha para partos mal conduzidos - seja em ambiente domiciliar ou hospitalar, por profissionais mal capacitados - sendo automaticamente culpabilizados por maus resultados. Mas nossa indignação não deve se voltar para as gestantes. Precisamos acolher as CarlasMoniques e Isabelas com respeito. Transformemos nossa luta em informação.
  • Humanizar o profissional da saúde, no fim das contas, significa colocar-se no lugar do outro, enxergando seus medos e expectativas, tratando o próximo da forma como gostaríamos de ser tratados. Humanizar a saúde é ser ético, sensível, acolhedor. Humano. No sentido mais condolente da palavra.
  • Fonte: www.abril.com.br



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