sábado, 22 de agosto de 2015

Obstetrícia com Amor. Relato de uma Médica Obstetra.



Primeiro, eu conheci a B.. Ela estava grávida, havia descoberto há pouco tempo, embora já estivesse com a gravidez algo avançada. Internou no hospital por algumas comorbidades, para investigação diagnóstica e tratamento clínico - elas comprometiam a saúde dela e poderiam trazer complicações à saúde do feto. Assim que descobriu que havia um menino crescendo dentro dela, ele passou a ser chamar Arthur. Nós conversávamos todos os dias, B. e eu. Disse a ela que esse era nome de rei. 


Ela permaneceu internada por algumas semanas. Vivenciou tantos sentimentos diferentes, ouviu tantas histórias compartilhadas entre as pacientes – bonitas, com finais felizes, e outras tristes, sem o desfecho sonhado por algumas mães. Amadureceu um pouco a cada tarde. Contou os dias para que pudesse, enfim, ir para casa. Havia dúvidas se sairia com o Arthur ainda na barriga... Exames esclarecedores, diagnósticos firmados, tratamentos indicados e realizados com seriedade. B. queria conhecer aquele menino, queria pega-lo nos braços, queria que ele nascesse com saúde. No dia da alta hospitalar, ainda gestante, fizemos diversos acordos mútuos sobre as tarefas de cada uma dali em diante. Tudo haveria de dar certo. 


Todos os dias, porém, ao entrar naquele quarto de hospital, eu queria mesmo era saber como o Arthur estava. Conversávamos muito também, ele e eu. Eu com palavras, com a mão na barriga de B., ele com chutes (suponho!). Quando ela internou para a realização do parto tão esperado, eu não estava de plantão. Realizou parto vaginal assistido por colegas obstetras, plantonistas apaixonadas pela profissão.


Sentiu-se segura ali, ela disse. Relatou que, por alguns segundos, não acreditava que era o filho dela que já havia nascido. “Deu tudo certo, doutora!”- ela me contou, hoje, ao visita-los. Pude conhecer aquele menino com quem falei tanto, para o qual dediquei tantas horas de trabalho... Pude tocar a minha pele na pele do recém-nascido que antes eu cuidava sem poder ver, sem poder tocar, sem poder examinar diretamente – era através de B. que eu cuidava dele. Ele olhou para mim atentamente – parecia reconhecer aquela voz, como se não fosse novidade. Chutou minha mão de verdade, agora. 


Eu me despedi feliz. Ela estava grata, ele estava bem, eu estava satisfeita. Saí do hospital hoje como há muito não me sentia: esperançosa. Parece que os olhos atentos de Arthur sobre os meus hoje, a escuta dele atenta (acredite!), renovaram em mim a vontade de acreditar. Acreditar que no fim tudo sempre dá certo. Acreditar que a obstetrícia pode me trazer muitos sustos, sufocos, ansiedades – mas, no fim das contas, é a vida que chega através dela que carrega mais vida aos meus anos. Se me sinto envelhecendo muito a cada dia, pelas batalhas árduas que tenho travado como médica e obstetra nesse país, também me sinto como uma criança, cheia de sonhos, como uma jovem cheia de ideais. Que a maturidade trazida pelas derrotas me permita sempre enxergar com mais vigor o brilho conquistado com cada vitória. Seja bem vindo Arthur, o “mundo está melhor desde que você chegou”. 



Juli Zanrosso Caran





Foto tirada por B., divulgação autorizada. 




Juli Zanrosso Caran é médica ginecologista e obstetra e tem uma página no Facebook muito legal. 
Para seguir suas publicações é só curtir: Vem aqui, vamos conversar.

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