quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Quando o trauma vai além do parto. Relato de M. #partocomrespeito

Em busca de informações sobre os diversos tipos de parto e suas possíveis complicações, nos deparamos com a M. que preferiu não se identificar. Ela nos contou sua história que deixou marcas físicas, emocionais e na sua vida conjugal. Ficamos tristes por saber que a falta de informação ou melhor, a falta de informação de forma imparcial, leva cada vez mais mulheres a serem enganadas. Complicações existem em qualquer via de parto. Nossa luta é pelo parto com respeito.




Meu nome é M., tenho 27 anos. Morávamos na Bahia quando descobri minha primeira gestação. Ao darmos a notícia da gravidez para o ginecologista, ele olhou para meu marido e falou que ele tinha “feito mal para a moça”. Sempre que precisamos de atendimento médico por lá, achamos bastante precário. Desde aquele primeiro encontro, percebi que não queria que nosso bebê nascesse lá. Preferi retornar para o interior de São Paulo, onde poderia ser assistida pelo meu médico de confiança, que me acompanhava desde a adolescência.


Já em São Paulo, procurei grupos de apoio à gestante pelo Facebook. Eu tinha uma colega que era doula e participava de um grupo que acabei entrando até sem saber que era humanizado (na época não sabia dessas coisas). Foi nesse grupo em que conversamos e ela me convidou a conhecer o local e assistir à primeira palestra.

Fomos eu e meu marido, já estava com 4 meses, nos apresentamos e fomos apresentados ao mundo da humanização. Adorei a palestra, foi muito esclarecedora e a partir desse dia decidi voltar em todos os encontros.

Após alguns encontros eu e meu marido entendemos que a presença de uma doula na hora do parto era fundamental, então contratamos uma. Achei que teria um apoio a partir deste momento, mas não aconteceu, porém eu continuava acreditando que, pelo menos durante o parto, esse apoio viria.

A gravidez foi passando, assistimos ao Renascimento do Parto, vários vídeos de partos m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s, humanizados, vários de partos domiciliares e estes, então, costumavam ser ainda mais lindos. Também fomos apresentados a vários vídeos de violência contra o bebê, o que para uma mulher gravida é sempre muito chocante. A gestante fica bem mais sensível e os procedimentos parecem ser muito desnecessários mesmo.

Meu marido estava em transferência pra SP, o plano de saúde havia mudado e estávamos esperando que mudasse de novo quando a transferência fosse realizada. Então neste momento estávamos desamparados de plano de saúde, e minhas consultas passaram a ser pagas.  Havia o medo de ter carência do plano, então achávamos que não teria cobertura para o parto.




Conversamos com a doula sobre nossa situação, mas ela sempre foi neutra. Aconselhou visitarmos os hospitais que pudessem ser opção em Campinas e conversar com meu médico sobre o parto.
Tentei conversar com meu médico sobre o parto, porém com 33 semanas, ele disse que ainda era cedo para termos essa conversa. No mundo humanizado sabemos que quando o médico vem com essa história é porque no final haverá alguma desculpa para o parto ser cesárea.  Decidimos, então, mudar de médico com 35-36 semanas e passamos a conversar com uma médica humanizada em Campinas. Ela deu o preço dela, mas se o plano não cobrisse, teríamos despesas hospitalares para bancar também. Não sabíamos quanto iria ser.


Também tentamos conhecer uma casa de parto, mas fomos convencidos que não havia diferença em parir numa casa de parto ou na minha própria casa. Então, pela primeira vez considerei esta ideia. Afinal, por que não? Gravidez saudável, sem risco nenhum, o que poderia dar errado? Então comunicamos a doula essa possibilidade.


Nosso parto seria na época de copa... Meu próprio médico nos aconselhou a não aparecermos num hospital em trabalho de parto caso fosse jogo do Brasil, e sabemos que tem muito médico que agenda cesárea para não ser chamado num feriado prolongado, ou antes de sair de férias. No jogo do Brasil não seria diferente. E por não ser diferente também encontramos muita dificuldade pra encontrar algum profissional para realizar nosso desejo de um parto em casa, todos estavam com a agenda cheia, muitos não pegam por opção mesmo uma grávida com 36 semanas de gestação. Mas nossa doula nos falou que tinha uma opção na região. Só não falou que ela não tinha experiência e nós também não perguntamos.

Marcamos um encontro pra conhecer a parteira! Que delícia, carinha de boa pessoa, um histórico de profissão hospitalar, mas, mais uma vez, nos esquecemos de perguntar do histórico domiciliar. Como fomos muito com a cara dela, bateu confiança! E assim fechamos a equipe com ela.

Parto em casa, 36 semanas, foi aquele corre-corre para comprar os acessórios, piscina, chuveirinho, etc.. Ainda deu tempo de uma visita pré parto, mas o tempo não foi suficiente para conhecermos o resto da equipe.


Deu 39 semanas e bolsa estourou às 5 h da manhã. Fiquei assustada, mas sabia que isso não era motivo para pânico. Minha doula me tranquilizou pelo bate-papo do face, e disse que estaria aqui assim que começassem as contrações mais doloridas. Às 21 h, elas começaram um pouco mais fortes e foi piorar muito lá por volta da meia-noite ou uma da manhã. Ela chegou meia-noite junto com a enfermeira, pois já que viajariam de Sorocaba até aqui, decidiram vir juntas no mesmo carro.
Assim foi a madrugada toda, eu com muita dor e com medo por não saber se estava tudo bem, porque sentia dores, chorava, gritava, pedia ajuda, e não via muito caso da doula, muito menos da enfermeira que ficava o tempo todo no celular.

Me senti abandonada pela equipe dentro da minha própria casa, coisa que absolutamente não deveria acontecer num parto humanizado. A doula, buscava água quente, levava toalha, mas eu achava que precisava de apoio psicológico, e definitivamente não tive. Em certo momento ela começou com algumas massagens nas minhas costas, mas parecia uma coisa fria, não me senti acolhida. Eu gritava por SOCORRO! Em certo momento do parto, até chegaram policiais que invadiram a minha residência, pois provavelmente os vizinhos se assustaram. Neste momento a doula me abandonou totalmente e fiquei com uma auxiliar da parteira, por quem tenho total gratidão, por ter me acolhido nestes poucos minutos, o que me ajudou muito.

Senti que o dia estava amanhecendo, a parteira me orientou a deitar na cama e erguer uma das pernas, logo em seguida também orientou os puxos a cada contração, pois verificou que já estava com dilatação total. Todas nós que buscamos informações sobre parto humanizado, sabemos que a laceração ocorre mais facilmente se a parturiente estiver deitada e fizer força sem ter vontade. Porém, por eu estar assustada, e querer ajuda de qualquer forma, cedi à posição e aos puxos orientados por ela.

Durante a minha gravidez, ninguém me orientou sobre a utilização do EPI NO*, para minha doula era desnecessário, porém, sei hoje que se ele não ajuda na elasticidade do períneo, ajuda pelo menos a mulher na percepção do período expulsivo.

Então comecei a fazer força, e a parteira disse que já dava para ver o cabelinho e que se eu quisesse poderia pôr a mão para sentir. Eu não quis, pois a cada força que eu fazia eu sentia o períneo esticar pra frente, mas sem abrir. O medo foi aumentando, pois percebi que naquele buraco não passaria uma cabeça, e eu chorava...

Nessa hora a parteira me disse ”eu quero te ajudar”, mas não falou qual tipo de ajuda seria essa. Ela, então, resolveu simplesmente romper meu períneo com a mão e sem anestesia nenhuma. Griteiiiiii muito... este momento... é o momento de mais fragilidade minha vida até hoje... Lacerou muito. Via meu sangue jorrando... E ainda faltava o corpo, não tinha como parar tudo ali e fiz mais uma força para, enfim, sair o corpo do bebê.

Durante esse último procedimento, eu fiquei em quatro apoios. E quando meu filho nasceu, colocaram ele embaixo de mim para termos o contato olho a olho. Talvez, ver o olhinho dele, vê-lo tão frágil quanto eu estava naquele momento, fez com que eu não o rejeitasse, apesar de ter tido essa vontade no imediato. Até eu olhar para ele e ver que ele não era culpado pelo que eu estava passando. Ele tinha passado por tudo aquilo junto comigo, e não contra mim.


Eu estava muito dolorida, parecia que tinha sido atropelada por um caminhão. Fui tomar banho para parteira dar os pontos, tive muita tontura (essa tontura durou 3 ou 4 dias). Ela fez a sutura e aguardamos das 9 h, horário em que o bebe nasceu, até as 17 h para a saída da placenta. A sutura foi realizada apenas na pele, pois a enfermeira disse que a laceração era grau 1.




Minha recuperação foi longa e dolorosa, pelo que eu li acredito que minha laceração tenha sido grau 3, pois lacerei até o ânus. Tive fissuras, inflamação local e fiquei 2 meses para cicatrizar uma região que não fechou. A cicatriz ficou aberta, pois os pontos caíram sozinhos antes da cicatrização. Com tudo isso, a amamentação também ficou prejudicada, pois a questão emocional atrapalha muito a produção de leite.

Esse desfecho também atrapalhou minha vida sexual, pois após 5 meses, ainda sentia muita dor na região e quando eu e meu marido tentamos já percebemos que algo não estava normal lá em baixo. Fui a uma avaliação de uma ginecologista do meio humanizado que disse que a vagina deve ter ficado uns 3 pontos aberta e a bexiga um pouco caída, mas que podíamos tentar amenizar com uma fisioterapia perineal.


Faço fisioterapia e tem ajudado sim, mas o que fica é o emocional. O emocional ficou abalado e nunca voltará a ser como antes, pois ainda terei que passar por uma cirurgia de reparação perineal, para reconstrução da região. Infelizmente ainda não pude fazer a cirurgia, porque o bebê me demanda muito. Não tenho parentes por perto, a família nunca apoiou esse tipo de parto, e não sabe até hoje que eu passei por tudo isso. Além do mais, a ginecologista disse que se eu quiser um parto normal após a cirurgia perineal, o risco de uma laceração maior, é mais alta. Então quem passou por um trauma desse, quer evitar qualquer coisa que possa piorar um próximo parto.


Queria finalizar deixando claro que sou totalmente a favor de um parto que seja realmente humanizado, que diferente de certos profissionais que erram e que depois abandonam a paciente, minha doula me acolheu. Mas a enfermeira sumiu. Tentou se explicar, mas não se desculpou.

O que eu desejo é que esse relato sirva de alerta! Informação é importante, mas confiar o seu parto à pessoa/equipe certa é muito mais!



* EPI NO é um dispositivo que tem como finalidade auxiliar na distensão do períneo, exercitando sua musculatura, com a proposta de evitar a episiotomia. Sua aplicação tem sido discutida e estudada, conforme exemplificamos neste estudo.

6 comentários:

  1. Oi M, em primeiro lugar quero dizer que sinto muito pelo que aconteceu e torço pela sua recuperação.
    Sou médica, fiz 2 anos de internato em uma maternidade pública, humanizada, referência, onde aconteciam em média 10 partos por dia.
    E quero dizer que eu sou contra o parto humanizado como esta sendo difundido hoje. O governo com ajuda das ativistas esta distorcendo informações, falsificando estatísticas, sumindo com o prontuário de bb sequelado ou morto em
    Maternidade pública tudo em nome da contenção de gastos. Um PN custa 245 reais, uma cesarea 2500 reais. Eexiste um projeto chamado Rede Cegonha que repassa uma verba milionária(4 milhões) para hospitais que atingem no mínimo 30% de cesáreas ( pq os 15% preconizados péla OMS são impossíveis). Quanto mais baixa for a taxa de cesárea maior será o repasse. E isso tem
    alimentado um mercado negro e igualmente milionário o das doulas, parto domiciliar...onde mulheres simpáticas, e boas de conversa convencem gestantes emocionalmente fragilizadas a pagar caro por seus serviços desnecessários e perigosos, sim, algumas tem boa vontade, mas nenhuma tem o estudo necessário para saber como e quando intervir , pois isso é diagnóstico e único capacitado para diagnosticar é o médico. Existem médicos que são pessimos profissionais, mas ainda sim só esta profissão é que tem capacidade de fazer diagnóstico e intervenção e evitar danos para Mae e bebe.
    Já fiquei muito triste várias vezes, chorei ao ver a UTI neo com 40 vagas, lotada de bb de parto normal. Enquanto 100% das mães de casarea, que pagaram e as do SUS, estavam em seus quartos com seus lindos bbs no colo. Infelizmente parto normal não é para todas, não basta ser saudável. Tem reunir um serie de pré requisitos ( como bacia ginecoide, peso do feto inferior a 3,775, circunferência cefalica, diâmetro do ombro fetal...entre varios outros...)pra que ele possa acontecer de maneira tranquila e segura, e mesmo assim ainda pode complicar. Desculpe pelo comentário gigante se quiser pode apagar, foi mais um desabafo...Se quiser conversar estou a disposição.

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    1. Pois é né... Os acontecimentos citados durante a gravidez nos induziram a esse caminho... Sabe qndo tudo da certo? Sqn =/

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    2. Então, eu entendo. Ainda mais que existe uma propaganda maciça de toda a mídia , não se sinta culpada. Pelo seu relato sempre quis o que considerou ser o melhor para o seu neném. Nem tudo deu errado, ne? seu nenem esta saudável, e existem chances de recuperar o seu perineo .

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  2. Obrigada pelo seu comentário. Infelizmente, bons e maus profissionais existem em todas as áreas. Iniciamos o blog Visão de Ilitia para dar voz às mulheres e aos profissionais de saúde e principalmente para passarmos informação de qualidade e isenta de ativismos. Mais uma vez, obrigada pela sua contribuição.

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    1. Oi, o blog é otimo, estou lendo todo os relatos. Parabéns pela iniciativa é exatamente esse tipo de informação que esta faltando na midia!.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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