quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O nascimento da anjinha Maria Isabel #pré-natal adequado #pararefletir



Com a chegada do termo “parto humanizado” veio também a teoria do natural. Alguns profissionais se auto denominam referências para este novo modelo de atendimento. 


Toques vaginais e exame físico muitas vezes são deixados de lado. E evitam ao máximo o apoio de médicos dos serviços de emergência. Ecografias também são realizadas seguindo o protocolo enxuto do SUS que considera o mínimo necessário. Será que eles têm tamanha convicção sobre a complexidade da vida humana ? 


Porém, na gestação nem sempre isso dá certo. Cada vez mais frequentemente, vemos tragédias que poderiam ser evitadas, ou pelo menos diagnosticadas ainda em tempo de busca socorro. Como sempre, o radicalismo se choca com a realidade da vida. Parto com respeito e pré-natal adequado devem ser conduta de todo profissional.

 
Aqui, segue o relato da C., que pela primeira vez teve a coragem de contar a sua experiencia negativa do pré-natal humanizado. 



O Nascimento da Anjinha Maria Isabel


Como começar a falar do momento mais triste da minha vida?


Desde o nascimento do meu primeiro filho há 5 anos atrás eu sonhava em tê-lo da forma mais natural possível e de preferência que fosse normal. Na época, não tinha condições para pagar o parto dos meus sonhos, humanizado, e acabei indo para um cesarista que me disse que faria, sim, meu parto normal. 


No entanto, no final da minha gestação, ele me levou à cesárea, pois meu filho estava com duas voltas de cordão umbilical no pescoço e, segundo ele, apenas tocando na minha barriga, meu líquido estaria diminuindo.


Meu filho, hoje com 5 anos e meio, nasceu bem. Foi aspirado, colocaram o colírio nos olhos dele e todos aqueles procedimentos normais que dizem ser violências contra os bebês. Após eu retornar da anestesia, ele foi para o quarto comigo e após dois dias, tivemos alta. 


Na época, lembro-me de ter ficado chateada com o médico. Me pareceu que ele havia induzido a cesárea, pois já havia visto bebês nascendo com o cordão enrolado no pescoço e pensava que a minha próxima gravidez seria da forma que eu queria: a mais natural possível, no hospital, na banheira de preferência, e normal. 



Em novembro de 2013 descobri que estava grávida de novo e logo fui em busca da melhor equipe que pudesse me atender e que faria o parto como eu queria, afinal já tinha uma cesariana. Então, através de indicações de gestantes e colegas de médicos humanizados da minha cidade, cheguei a uma das médicas mais bem conceituadas na humanização de partos. 





Na minha primeira consulta gostei muito dela e a mesma tirou todas as minhas duvidas, inclusive salientou que, se minha gestação fosse de baixo risco, o melhor parto seria domiciliar, que eu poderia fazê-lo em casa onde eu seria respeitada e não sofreria nenhuma intervenção. Ainda estava com medo, mas ela me assegurava que se precisasse de remoção para o hospital, os primeiros procedimentos seriam feitos em casa sem problema nenhum. Fiquei muito segura e aí começou o que hoje eu chamo de “lavagem cerebral”.

 

Para que eu fizesse o parto domiciliar precisava do consentimento do meu esposo, pois não o faria sem que ele quisesse. Então, minha doula me indicou um documentário para que nós assistíssemos e, assim, tirássemos conclusões juntos. Por sorte, o documentário seria exibido no cinema e ela nos chamou para assistir. Após o filme, haveria um debate. O nome do documentário é “O renascimento do parto”. 


Após assistirmos, incrível!, nós não queríamos ter outro tipo de parto se não em casa, onde nossa filha nasceria no tempo dela e eu poderia ficar à vontade. Decidido! Fomos a várias palestras elucidativas, onde mostravam que todas as mulheres sabiam parir e partos humanizados domiciliares que deram certo, ou seja, só a parte bonita. Fiz todas as consultas e o pré-natal, tudo perfeito. Não tive nada. Estava dentro do baixo risco. Estava calma, decidida e segura que conseguiria parir minha filha.

 

Quando completei 36 semanas, minha doula foi lá em casa para ver como seria feito no dia do parto e tirar todas as dúvidas que tínhamos sobre o trabalho de parto. A mesma nos disse que não estaria aqui na semana do dia 12 de junho e isso nos deixou um pouco inseguros, pois se minha filha não nascesse até a data provável que era dia 7 de junho não poderia contar com ela e, sim, com as backups. A minha médica me solicitou uma ecografia simples que fiz com 38 semanas e estava tudo normal.

 

Chegou dia 7 e nada de sentir algo. No dia seguinte, dia 8, no domingo, meu tampão saiu. Nossa! Senti uma alegria muito grande, pois sabia que estava perto da minha filha nascer. Então, comuniquei a dra pelo whatsap, mesmo a doula dizendo que a saída do tampão não necessariamente significava que iniciaria o trabalho de parto. No meu caso não significou, apenas senti uma contração e mais nada. 


A médica pediu que eu relaxasse. Na quarta, após a saída do tampão tive consulta com a dra e ela me questionou se queria acelerar o parto para que desse tempo para minha doula participar. No entanto, a doula viajaria no dia seguinte e não necessariamente daria certo dela estar presente, então optei por aguardar o tempo da minha filha. 


Nessa mesma consulta minha idade gestacional era de 40 semanas e 4 dias e a médica pediu que eu realizasse a última ecografia simples quando completasse 41 semanas (estranhei pois normalmente é feita com doppler) e se não entrasse em trabalho de parto, decidiríamos o que iria ser feito. 






E aí começou o meu pesadelo.

 

Segunda dia 16 fui fazer a ecografia simples e o médico que o fez ficou assustado com a idade gestacional que eu estava (41 semanas e 2 dias) e com o tamanho da minha filha e ainda constatou que meu líquido estava baixo e me orientou a ligar para minha médica o mais rápido possível. 





Fiquei assustada e entrei em contato com a médica pelo zap e a mesma me pediu que eu aumentasse a ingestão de água e me orientou a fazer a ecografia com doppler, sem demonstrar que era com urgência e que eu poderia fazer em emergência. No entanto, já era tarde e eu não conseguiria realizá-lo no mesmo dia.


Já estava com algumas contrações, porém muito irregulares ainda. No dia seguinte, acordei cedo e tentei marcar a ecografia com urgência, mas não deu certo, pois estava em cima da hora e era jogo do Brasil, o expediente acabava às 11 horas. Logo contactei a médica que me falou que se entrasse em trabalho de parto não teria problema nenhum. Fiquei tranquila. No final da tarde do mesmo dia, ainda com contrações, saiu um muco esverdeado e achei muito estranho, logo mandei um novo zap para a dra perguntando se esse muco esverdeado era  tampão e ela me respondeu por mensagem, sem ao menos me examinar, que sim, e assim fiquei muito tranquila. 


De madrugada comecei a sentir muitas contrações fortes e sentia que minha filha estava por vir, ligamos para a doula backup como combinado e ela estava com outra parturiente e pediu que ligássemos para outra doula que era backup. Ligamos para ela e ela passou lá em casa e disse para meu esposo que eu não estava em trabalho de parto ativo, que eu viraria um bicho quando estivesse, e falou para eu tomar um buscopam, um chá de camomila, colocar uma bolsa de água quente na minha lombar e, por fim, tentar dormir.

 

Bom, das 4 horas da manhã até às 9 horas do dia 18/06/2014 consegui dormir e acordei no susto com um líquido esverdeado saindo. Mandei uma mensagem para a médica falando que estava em dúvida se o que estava saindo desde o dia anterior era líquido ou muco. Então, a dra me pediu que colocasse um absorvente e verificasse se iria enchê-lo. Na hora que coloquei, encheu com liquido verde constatando que não era tampão e sim mecônio. Com isso, ela começou a se preocupar e falou que iria passar lá em casa para me examinar. 


A médica chegou por volta das 11:30h e fez o exame de toque, deixando-a preocupada, pois não estava saindo líquido. Ela ficou sem saber se eu estava sem líquido nenhum na barriga ou se o que estava saindo era corrimento. Após conversa com a enfermeira da sua equipe, perguntou se eu me importava de fazer a ecografia com doppler (a que eu não tinha conseguido fazer e que ela falou que não havia problema se não tivesse feito) com um colega dela para fechar o prognóstico, se iria ser feito uma cesárea de emergência ou parto normal induzido, e nós falamos que não havia problema algum. 


Fomos correndo ao consultório do tal dr., porém só fomos atendidos às 13 horas atrasando mais ainda o diagnóstico. O médico constatou que meu líquido tinha diminuído mais e minha filha já estava em sofrimento fetal e ainda falou que a médica deveria ser muito prudente na escolha e pediu que ligássemos o mais rápido possível para ela. Quando liguei, o médico já havia falado com ela e ela disse que iria ser uma cesárea e que, quando eu estivesse pronta, fosse para o hospital.

 

Então pegamos nossas coisas em casa e fomos para o hospital. Às 15:43h, minha filha nasceu, desacordada. Meu útero estava cheio de mecônio, pois o tal muco que a médica confirmou por mensagem que era tampão, na verdade, era mecônio. Logo, fiquei um dia e meio com mecônio na barriga, o que agravou mais ainda o quadro da minha filha e, com a falta de oxigênio, ela aspirou o mecônio dentro da barriga causando uma hipertensão pulmonar e lesão no cérebro. 


Eu não pude nem beijá-la, pois tiveram que correr para aspirá-la, que foi o que, por sinal, salvou-a naquele momento, a tal aspiração que tanto dizem ser desnecessária. Minha pequena chorou e correram para a UTI, iniciando aí, a luta pela vida dela. Pela falta de oxigenação, foi constatada, após 11 dias, que havia morte cerebral e que nada mais poderia ser feito. Um dia depois ela não resistiu e morreu, somando-se em 12 dias de vida, lutando bravamente. 


O que fico me perguntando é se ela tivesse me pedido para fazer essa ecografia com doppler antes ou se tivesse me pedido para fazer com o médico amigo dela antes, se o desfecho poderia ter sido diferente... Tantos questionamentos que nunca poderei responder.

 

Após o acontecido vale, ainda, salientar a falta de zelo da equipe comigo, a minha doula não teve a coragem de ir me visitar no hospital após ter voltado de viagem ou ao menos ir ao enterro da minha filha. Eu não tive suporte emocional, elas me abandonaram. Se preocuparam apenas com a reputação delas. Após constatada a morte cerebral, escrevi um pequeno relato por e-mail que chegou até a equipe, o qual a médica, sem se preocupar com o meu emocional, replicou ao grupo se explicando pelo acontecido, voltando a culpa para mim nas entrelinhas.

 

Não existe essa tal violência obstétrica, o que existe é uma estupramento emocional pelo péssimo serviço prestado por profissionais que estão formando verdadeiras máfias de negócios, pois o preço que se paga para tais procedimentos não são nada humanos e as sequelas emocionais na família são irreparáveis. Será que os “HUMANISTAS” são humanistas mesmo? Ou só estão inseridos na máfia do business?

 



A dor de reviver cada detalhe é muito grande, mesmo se passando 1 ano... 



No entanto, a vontade de justiça e de passar isso para frente para que outras gestantes possam tomar conhecimento e, assim, escolher de forma consciente as profissionais e o tipo de parto que terão, é muito maior. Eu acredito ainda no parto humanizado, mas que seja feito de forma correta e de preferência hospitalar.



Nota da Equipe do Visão de Ilitia: A ecografia obstétrica comum não avalia a vitalidade fetal, Para tal, é necessário fazer o perfil biofísico fetal ou, pelo menos, uma cardiotocografia. A ecografia com doppler dá informações valiosas sobre as condições do feto. Apesar de não ser obrigatória na rotina de acompanhamento de gestações de baixo risco, cada vez mais médicos a têm solicitado, para que não haja atraso no diagnóstico de um quadro de sofrimento fetal.


domingo, 20 de setembro de 2015

Quando a via de parto não importa. A fragilidade da vida!


Uma médica seguidora da página nos enviou este relato emocionante. Nele percebemos claramente a fragilidade da vida. Amei o texto como reflexão de domingo. 

O que queremos levar disso tudo? Será que os filhos desta mulher se importam com a via de parto que eles nasceram? Ou simplesmente queriam sua mãe? 

Como médica, estas histórias marcam a minha vida. 

Para refletir ! Bom domingo a todos.


Eu tinha 21 anos quando iniciei o internato.  A divisão da turma pelas áreas era por sorteio e meu grupo caiu logo de cara no pronto-socorro.

Éramos 3 internos responsáveis pelos 18 leitos de internação do PS, mais o box de emergência,  mais o isolamento e mais os que ficassem no corredor. Chegar cedo, sair tarde, tinha dias que eu só percebia que não tinha bebido água já na hora de ir embora, fato que me rendeu uma infecção urinária,  mas essa é outra história.

Um dos 6 leitos destinados para mim era de uma mulher de 35 anos. Eu nunca me esquecerei dessa paciente. Jovem. Triste. Consumida por um câncer de ovário em estágio terminal. Ela estava muito magra, com rosto e braços fininhos. Seu abdome ascítico (cheio de líquido) lembrava uma gestação em fase final. Seu semblante era triste sim, porém, resignado. Ela sabia que tinha muito mais a me oferecer do que eu a ela !

Naquela época eu não sabia direito identificar um paciente que estava próximo de falecer. Apesar da aparência consumida pela doença,  seus sinais vitais estavam bons, me parecia mais estar cansada. Mas logo o residente responsável pelo setor me disse: não se engane, ela internou aqui para morrer.

Era meu segundo dia de internato e o segundo dia de internação da paciente. Naquela manhã,  me senti desconfortável ao examiná-la. Pensava: como pode? Ela está aqui, sabendo que vai morrer e ainda aceita que eu a examine, mesmo eu sendo apenas uma estudante. Mesmo sabendo que eu não sabia nada. Que eu não era a responsável pelo seu tratamento. Que eu não poderia curá-la...

Se aproximava o horário de visita e ela se encaminhou, com o auxílio de uma cadeira de rodas, para a área externa do pronto-socorro.  Eu perguntei para o residente: Por que ela não receberá a visita no leito?  Ele me respondeu: Porque é melhor que as crianças não entrem aqui.

Putz. Crianças! Só naquele momento que eu fui me dar conta que aquela situação toda ainda tinha um contexto! Até então, eu estava pensando somente nela, um indivíduo vivenciando uma doença terminal. Agora, eu percebia a amplitude do problema. Crianças... Ela era mãe.

Fui acompanhando com o olhar, enquanto ela percorria o corredor que dava para a saída do PS. Nesse momento, as crianças passaram pela porta e entraram no setor. Vieram correndo para abraçá-la.  Uma menina e um menino. Não mais do que 5 anos.

Com o coração apertadinho, eu olhei para ela e vi que ela sorria. E com a mesma atitude resignada, continuou em direção à área externa do hospital. O residente, que presenciou a cena ao meu lado, finalizou: eles vieram para se despedir.

Já era noite quando saí do hospital. Entrei no carro e chorei. Chorei de tristeza e de compaixão. Chorei para aliviar toda angústia que se instalou no meu peito e me acompanhou pelo resto daquele plantão.

Era seis e meia da manhã do dia seguinte. Quando eu cheguei, ela já não estava mais lá. E já havia outro paciente no seu leito. Uma nova história, uma nova doença, uma nova vida. Percebi duramente a realidade. Foi naquela madrugada que ela faleceu. 

Hoje eu tenho a mesma idade e um filho a mais que a minha primeira paciente do internato. Talvez tenha sido essa a razão da motivação para escrever esse texto. Talvez seja esse o motivo de ainda me emocionar tanto.

O que eu acho da medicina? A medicina é a melhor profissão do mundo!

Na medicina você aprende todos os dias. Pois cada paciente que entra no seu consultório é uma pessoa diferente, com pensamentos e convicções próprias,  com seus traumas e suas conquistas, com famílias e suas dinâmicas, com as mais diversas manifestações individuais das doenças do livro.

A medicina, ela te ensina um pouco mais a cada dia.  E ela te ensina, não só sobre as doenças, mas, principalmente, em como se tornar uma pessoa melhor. 




Fonte: http://esquentacidade.com/view/saude:22/14158/cientistas-vinculam-cancer-de-ovario-com-o-sobrepeso



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Anemias na Gestação


Com um texto bastante didático e bem explicativo, a Dra. Martha Mariana Arruda explica como acontece, como se diagnostica e qual o tratamento da doença mais comum na gestação: a anemia. 

Mais um texto informativo que o Visão de Ilitia traz para que você, futura mamãe, possa compreender as modificações que ocorrem no seu organismo durante a gestação. Aproveite!



A gestação normal envolve múltiplas alterações orgânicas fisiológicas, ou seja, esperadas para esse contexto. Dentre elas está a expansão do volume de sangue circulante. É sabido que o aumento do volume do plasma, a parte líquida sem células do sangue, é maior que o aumento da massa de células vermelhas (hemácias), responsáveis pela oxigenação dos tecidos. Isso faz com que a concentração destas células caia, o que constitui a anemia fisiológica da gestação.


Fonte: SMART Imagebase


No entanto, num percentual alto das gestantes, somam-se outros fatores que geram uma anemia não-fisiológica, ou seja, doença. Esta complicação é tão comum que constitui a principal doença relacionada à gestação no mundo.


ANEMIA POR DEFICIÊNCIA DE FERRO

O mais frequente destes fatores, responsável por cerca de 90% das anemias na gestação em todo o mundo (variando sua ocorrência diretamente com o estado socioeconômico) é a anemia por deficiência de ferro.

Suas principais causas são:

  • Perda crônica de sangue (como ocorre nas verminoses, na menstruação excessiva e nos pequenos sangramentos ocultos, como os de hemorroidas);
  • Problemas na absorção (em mulheres submetidas à cirurgia de redução de estômago ou com doenças intestinais crônicas, como doença de Crohn e doença celíaca);
  • Sangramento agudo em grandes volumes (hemorragias);
  • Ingestão de ferro em quantidades insuficientes (que só acontece em adultos quando submetidos a dietas muito restritivas, como as dietas veganas).

Nas mulheres em idade fértil, a menstruação excessiva tem um papel importantíssimo, já que muitas delas menstruam muito, perdendo ferro numa quantidade maior do que a dieta é capaz de suprir, e elas não se dão conta disso, por ter sido “sempre assim”, o “normal dela”.





Desta forma, é importante que a mulher seja submetida a investigação e tratamento de quaisquer deficiências antes da gestação, para reposição adequada dos estoques e redução da chance de desenvolvimento de anemia ao longo dos 9 meses. 





Durante a primeira metade da gestação, não há aumento significativo da demanda de ferro e, se os estoques pré-gestacionais forem normais, a alimentação da gestante será suficiente.

Já na segunda metade da gestação, ocorre um aumento considerável da demanda de ferro devido ao aumento de células vermelhas do bebê, assim como, pelo crescimento fetal progressivo, o que torna fundamental a suplementação de ferro para que a deficiência não se instale na gestante (que ocorre mesmo naquelas com estoques pré-concepcionais normais).

O ferro da dieta consiste de ferro heme e ferro não-heme. Ferro heme está presente em alimentos de origem animal e é muito bem absorvido, enquanto o ferro não-heme é encontrado em produtos de origem vegetal e tem baixa biodisponibilidade, ou seja, é absorvido com mais dificuldade.

A dieta, mesmo aquela muito bem balanceada e rica em alimentos de origem animal, NÃO É SUFICIENTE para evitar a deficiência de ferro na mulher gestante, sendo FUNDAMENTAL a suplementação.

Desta forma, não adianta torturar a pobre futura mamãe com sucos de fígado cru com beterraba ou orientá-la a comer feijão, beterraba, brócolis, couve, fígado e carnes vermelhas em quantidades maiores que as aceitáveis, muito menos cozinhar na panela de ferro ou misturar pregos e materiais enferrujados aos alimentos durante seu cozimento (essas duas últimas medidas comprovadamente INEFICAZES tanto na prevenção quanto no tratamento da anemia por falta de ferro).

É claro que uma dieta balanceada é fundamental na gestação. Mas sem a suplementação adequada a gestante invariavelmente desenvolverá deficiência de ferro ao final da gestação – e eventualmente anemia, no momento em que ela mais precisa de quantidades adequadas de células vermelhas para se preparar para o parto.


A recomendação da Organização Mundial de Saúde, do Ministério da Saúde do Brasil e da Febrasgo é que TODAS as gestantes recebam sais de ferro por via oral, numa dose equivalente a 40-60 mg de ferro elementar ao dia a partir do 2semestre (encontrados em 200-300 mg de sulfato ferroso, 300 mg de ferro quelato glicinato e 200 mg de ferro polimaltosado ou ferrocarbonila).

Nem todos os suplementos multivitamínicos geralmente prescritos para gestantes têm ferro nas doses adequadas, e a futura mamãe precisa estar atenta.


É importante lembrar que, exceto em estados de deficiência com anemia muito graves, a natureza materna, sábia como é, prioriza o feto, e ele não fica anêmico. No entanto, a anemia na mulher causa graus variados de hipóxia fetal (falta de oxigenação), gerando consequências nefastas como restrição do crescimento intrauterino, com nascimento de bebês de baixo peso (triplica o risco), trabalho de parto prematuro (dobra o risco) e aumento da mortalidade neonatal por prematuridade.



Fonte: SMART Imagebase


Especificamente na gestação, a suplementação universal em doses adequadas já provou reduzir prematuridade em até 50%, mortalidade neonatal em até 55% e nascituros de baixo peso em mais de 15%. É indiscutível que é melhor prevenir do que remediar!

A anemia também traz problemas para a qualidade de vida e ao desempenho físico da gestante. As queixas costumam ser leves, porque a anemia se instala lentamente ao longo da gestação, e o organismo vai se adaptando. Ela pode desenvolver palidez, piora da fadiga, baixa tolerância ao trabalho e ao exercício físico, palpitações, perversão do apetite, com desejo de ingerir substâncias não-nutritivas como gelo, terra, tijolo, areia, sabão, argila, cabelo, detergente, etc; atrofia das papilas linguais com perda do apetite, emagrecimento, ou ausência de ganho de peso adequado.


Para avaliação do grau de anemia, o obstetra pede trimestralmente o hemograma para a dosagem da hemoglobina, que é a principal proteína das células vermelhas. A hemoglobina normal para mulheres adultas é maior ou igual a 12 g/dL. Segundo a Organização Mundial da Saúde/CDC americano, define-se como anêmica a gestante que apresentar concentração de hemoglobina igual ou inferior a 11 g/dL no 1o e 3o trimestres, e 10.5 g/dL no 2o trimestre.

Quando detectada a anemia, o obstetra solicitará a ferrocinética (dosagem da ferritina e da saturação de transferrina) para confirmar que se trata de anemia por deficiência de ferro. Uma vez com esse diagnóstico, a suplementação deixa de ter caráter profilático (preventivo) e passa a ser terapêutica, com necessidade de aumento da dose diária de ferro elementar para 180 a 200 mg/dia. Esta dose deve ser dividida em 3 a 4 tomadas, preferencialmente com o estômago vazio, ou 30 minutos antes das principais refeições.

É normal e esperada a mudança na cor das fezes para esverdeadas ou enegrecidas. A grande dificuldade para o tratamento é que até 40% das pacientes terão efeitos colaterais em graus variáveis, que costumam melhorar com o tempo mas podem ser bastante incômodos, vindo a se somar a alguns sintomas que já atrapalham a gravidez normal: dor e queimação no estômago, náuseas, vômitos, falta de apetite, dor abdominal em cólica, diarreia e constipação intestinal.

Nestes casos pode-se tentar a ingestão do ferro com alimentos (nunca leite e derivados, pois o cálcio atrapalha a absorção do ferro oral), tomar doses mais altas antes de dormir e menores ao longo do dia, e modificar o sal de ferro, já que há diferença no perfil de efeitos colaterais das várias formulações disponíveis no mercado.

Em casos de ausência de melhora ou de efeitos colaterais incapacitantes, está indicada a reposição venosa de ferro, que é efetiva e segura em gestantes, mas cara, trabalhosa e também não é isenta de efeitos colaterais. Em casos extremos, transfusão de sangue pode ser necessária.


OUTRAS CAUSAS

Até 10% das anemias na gestação não estarão diretamente relacionadas à deficiência de ferro. O obstetra fará no pré-natal de rotina a pesquisa dessas outras causas, solicitando exames adicionais ao hemograma e à ferrocinética.


A deficiência de folato (ácido fólico) é uma delas. As necessidades de folato dobram na gestação, e se a dieta for insuficiente, os estoques serão queimados rapidamente. Hoje em dia, com a orientação de reposição de ácido fólico antes ainda da mulher engravidar para evitar os defeitos do tubo neural no embrião, e a obrigatória suplementação de folato nas farinhas no Brasil, a anemia por deficiência de folatos da gestação teve sua incidência bastante reduzida.


A deficiência de vitamina B12 (cobalamina) é raramente observada na gestação porque, dentre outras complicações, ela é uma das causas de infertilidade. O diagnóstico é feito a partir da dosagem da vitamina B12 no sangue; valores inferiores a 180 pmol/L não são vistos em mulheres saudáveis, mesmo gestantes, e devem ser prontamente investigados e tratados.


Bem mais raramente, podem ocorrer incapacidade da medula em produzir todas células do sangue (anemia aplásica) ou especificamente as células vermelhas (aplasia pura de série vermelha). Pode ocorrer ainda o surgimento ou agravamento de doenças que aumentam a destruição das células sanguíneas (anemia hemolítica auto-imune), espontaneamente ou em associação a alguma doença da imunidade (como o Lúpus, por exemplo).


Além disso, algumas mulheres são portadoras de anemias hereditárias/congênitas, e assim serão por toda a vida. No Brasil, as mais frequentes são anemia falciforme, talassemias e esferocitose hereditária. Todas essas doenças geram uma série de complicações na gravidez e, por isso, é recomendável que as previamente conhecidas estejam bem acompanhadas e bem compensadas do ponto de vista clínico antes do planejamento da gestação. Essas mulheres devem ser seguidas no pré-natal de alto risco e manter o acompanhamento com o hematologista que já fazia o seu seguimento.



por, Martha Mariana Arruda.


A Dra. Martha Mariana Arruda é Médica Hematologista da Secretaria de Saúde do DF, Professora de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da FACIPLAC e Doutora em Medicina (Hematologia) pela Escola Paulista de Medicina, com foco em Anemias. 




quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Parto Ideal x Parto Real pela Visão de uma Psicóloga



Conheci a psicóloga Renata Duailibi há cerca de dez anos, quando trabalhamos juntas num serviço de Medicina Fetal (fetos com malformações). Desde então, acompanho e admiro seu trabalho, pois mostra larga experiência com gestantes, puérperas e perdas gestacionais. 

Mesmo antes do relato de J.,SP, eu já tinha solicitado sua colaboração para o blog. O texto que se segue caiu muito bem nesse momento. 

Eis a visão de uma profissional comprometida e esmerada em informar, orientar e acolher mulheres, dando ouvidos a suas angústias, dúvidas, desilusões, frustrações e luto, seja durante a gestação, o parto ou o puerpério, trabalhando com equipes que se preocupam com respeito e humanização. 


Segue o primeiro texto de outros que virão! 


Parto Ideal x Parto Real
























Como psicóloga, atuando com gestantes e puérperas desde 2001, atendo vários casos onde mães chegam frustradas com o desfecho da gravidez, seja por uma perda gestacional, seja por um parto que não transcorreu como ela desejava, seja  por complicações na gestação e/ou no puerpério.




A gravidez é um período de crise e de expectativas. A ansiedade permeia os meses de gestação e é comum a gestante imaginar como será o parto e idealizá-lo de acordo com os seus anseios.  


A mulher tem que se preparar (com a ajuda do seu médico assistente, sua doula, seu marido, sua enfermeira...) para a imprevisibilidade do parto, pois mesmo com um plano de parto preparado com todo o cuidado e primor, nem tudo pode sair como o planejado.


Mesmo que a gestante tenha se preparado para o parto natural, feito yoga, participado de rodas e grupos de apoio, escolhido uma equipe alinhada com a humanização do parto, no fim, tudo pode terminar com uma cesárea ou outro procedimento não esperado.


Ela é menos mulher por isso? Não é uma mãe competente por não ter tido seu filho de maneira natural? Qual é a maneira natural de parir? Na banheira? Em casa? No hospital? 

Penso que o “ideal” é um conceito particular. O “ideal” é o perfeito para AQUELA MULHER, naquele contexto, naquela situação. Cada gravidez é única. Ninguém vai viver esta experiência da mesma maneira, pois ela pertence somente àquela mulher.  




Fonte: http://www.alobebe.com.br/_images/_files/_cache/resize_270_270_maosdeadultoebebe_rev47.jpg
























E a pergunta que eu me faço, em cada caso que acompanho, é: o que essa mulher em particular deseja? A gravidez? O parto? O bebê?

Um bebê saudável, um parto sem sequelas para ambos, e a certeza de estar levando seu filho para a casa, por si só, já é um belo desfecho!



Renata Duailibi
Para seguir a psicóloga Renata no Facebook clique aqui.





terça-feira, 8 de setembro de 2015

Relato de J., SP. Nem toda história tem um final feliz.


Olá, encontrei esta página por acaso, me identifiquei desde o primeiro momento. Acho que li quase todos os relatos de parto e, enfim, criei coragem para dividir a minha história.


Sempre dizia que, quando ficasse grávida, eu faria uma cesárea, porque parto normal era coisa de louca, seria doloroso, era perigoso, que me deixaria “frouxa” e tal... Bom, foram longos 03 anos de tentativas até o positivo chegar. Surpresa, emoção, uma sensação surreal! Com quase 10 semanas consegui marcar a consulta com a “minha” GO, com quem consulto há anos. Uma gestação dos sonhos, pouco enjoo, disposição a mil.


Por volta das 14 semanas tive meu primeiro contato com relatos de parto humanizado, o que mudou completamente minha visão acerca da cesariana. Lendo os relatos, pensei: “é isso o que eu quero para mim”. Passadas mais algumas semanas, voltei neste assunto, me inscrevi num curso e comecei a ler e pesquisar tudo quanto foi site com informações sobre parto humanizado que eu encontrava. Achei até besteira fazer o curso, porque tudo que ouvi lá eu já havia lido.



Então, convenci meu marido de que isto seria o melhor para nosso bebê, um parto respeitoso e humanizado. Depois de muito insistir e mostrar as vantagens, inclusive que ele poderia estar ao meu lado o tempo inteiro, ele aceitou o parto domiciliar, desde que contratássemos uma doula.


Conversei com a minha médica a respeito do parto, parto normal, cesárea, parto humanizado. Ela sempre foi muito clara comigo e me deu o ponto de vista dela sobre todos os aspectos. Explicou que no hospital que atendia tinha equipe humanizada, mas que alguns procedimentos eram sim necessários para o bem-estar da mãe e do bebê e que era para eu pensar bem, para não comprar uma ilusão. Eu respeito demais a minha médica, mas eu estava tão encantada pelo mundo do parto humanizado, que não dei ouvidos a ela e decidi que, para ser como eu queria, teria que ser o parto domiciliar.


Por volta das 30 semanas encontrei uma equipe para o parto domiciliar. Todas foram muito atenciosas comigo e me senti segura. A gestação prosseguia perfeitamente bem, trabalhei até 38 semanas de gestação, andava, fazia faxina em casa, dirigia, vida perfeitamente normal exceto pela barriga enorme.  


Até que, na data prevista para o parto, levantei para ir ao banheiro e senti um líquido escorrendo pelas minhas pernas. Achei que a bolsa tinha rompido, mas eu não sentia nenhuma dor. Passei uma mensagem para a equipe, troquei de roupa e voltei a dormir. Entraram em contato comigo de manhã, perguntando sobre a “bolsa estourada”, expliquei o que tinha acontecido, que não sentia dor nenhuma, não tinha saído o tampão... Hum, talvez tenha sido só uma ruptura “alta”. E me aconselharam a andar, me movimentar para estimular o trabalho de parto. Passei o dia perdendo líquido. 


Passadas 24 horas, nada de dor. E o líquido saindo ora ou outra.


Pouco mais de 48 horas da primeira perda de líquido, fui ao consultório da enfermeira, ela me examinou, fez toque e neste momento saiu líquido acho que em quantidade de xixi e eu não tinha sinal nem de dilatação e nem de dor. Ela me deu a opção de aguardar o trabalho de parto (TP) ou ir ao hospital e explicou que, seu eu fosse para o hospital, eles provavelmente induziriam o parto ou mesmo fariam uma cesariana, e a doula também falou sobre a indução ou uma possível cesárea. Resolvi, então, ir para casa, afinal meu bebê se mexia normalmente e o coração estava com batimentos normais.


No dia seguinte, com 72 horas perdendo líquido, fomos ao hospital. Fui aconselhada a não dizer sobre a perda de líquido. Pedi para o médico uma guia para fazer um ultrassom, queria saber se estava tudo bem com o meu bebê. Ele disse que não precisava, mesmo assim, passou a guia. Fiz cardiotoco, meu bebe estava ótimo, a enfermeira viu o resultado e disse que estava tudo normal. Batimentos e movimento fetal normal. Nem esperamos para falar com o médico de novo. Fui embora.


Desta vez, fui instruída a usar ocitocina nasal para estimular o trabalho de parto. Passadas 94 horas perdendo líquido, fui à outra maternidade, desta vez decidida até a ficar internada, porque eu estava insegura e preocupada. Os contatos com a equipe se limitavam a ligações e mensagens, e a doula falando das “torturas” hospitalares. Fui direto para sala fazer cardiotoco, tudo normal, a enfermeira do hospital até falou: “nossa mãezinha, seu bebê tem um coração forte”.


Neste dia expliquei detalhadamente para o médico o que estava acontecendo, sobre a perda de líquido e tudo mais e nenhum sinal de dor. Ele me examinou, disse que eu não tinha dilatação e que perder líquido com 40 semanas e 03 dias de gestação era normal, ao que eu rebati: “Dr., mas estou perdendo líquido há três dias!!!” “Isso é normal para sua idade gestacional, o cardiotoco está normal, o bebê está bem. Vamos repetir o exame dia sim dia não e se, até 41 semanas não entrar em trabalho de parto, faremos uma cesariana”.


Fui embora, não sei se feliz ou se mais preocupada. Chegando em casa fiquei deitada do lado esquerdo no sofá naquele cochila e acorda a tarde inteira, quando foi no comecinho da noite me dei conta que meu bebê não havia se mexido ainda, falei para meu marido, perguntei para a equipe se era normal. “Sim, deita de lado”... Já estou e nada! E nessa hora, comecei enfim a ter contrações, então pensei: “acho que está quietinho porque está chegando a hora”.


Fiquei feliz com as primeiras dores, enfim iria conhecer o meu tão esperado bebê. As contrações estavam ritmadas e suportáveis. Um pouco mais de 2 horas depois, ficaram muito fortes e com pouco intervalo, nós já tínhamos ligado para a equipe toda. Creio que umas 4 a 5 horas depois da primeira contração o pessoal da equipe chegou na minha casa.




Dor vai, dor vem, eu me contorcia e sangrava e num determinado momento senti como se algo estourasse. Quando olhei, escorreu um quase nada de um líquido marrom, entrei em desespero e chorei mais ainda, meu bebê não mexia e eu estava preocupada porque não conseguiam ouvir seu coração direito, sabia que aquilo não era um bom sinal. Perguntei se era mecônio, ninguém falou nem que sim, nem que não.


Eu não sentia vontade de gritar, só queria que acabasse logo. Eu queria sair dali e ir para o hospital, chorava e pedia para meu marido me levar para o hospital, nisso a doula já ia falar das “torturas” que fariam comigo no hospital, lembro que virei para ela e falei: médico não é monstro e não quis mais ela do meu lado, me deixava mais nervosa. Cada vez que colocavam o aparelho para ouvir os batimentos, eu não ouvia nada, e isso me deixava desesperada, não dava para ouvir batimentos.


Acho que umas 7 horas depois de começar as contrações eu estava com 8 cm de dilatação, mas o bebê não estava virado na posição certa, ele estava encaixado desde a 32ª semana mas não na posição certa para nascer, então fizeram uma manobra rebozo (não sei se é assim que escreve) foi doloroso e não resolveu.


Ia para ao chuveiro, sentava no banquinho e nada. Andava pela casa, e nada. De repente as contrações pararam, então usamos a ocitocina nasal. Com 10 cm de dilatação comecei a fazer força e nada... força, e nada.


Acredito que 13 horas depois, conversamos com a enfermeira e achamos melhor irmos para o hospital.


Cheguei lá com muitas dores, me passaram na frente, o médico me examinou e disse: “Mãe estou te mandando para uma cesariana de emergência, você está com 7cm de dilatação, com a bolsa rota, seu bebê é enorme e não estou conseguindo ouvir o coração dele. Não vou deixar você sofrendo mais. Quando sua bolsa estourou ?”. “Não sei dizer ao certo doutor, estou perdendo líquido há quase 4 dias e de madrugada senti escorrer um líquido escuro”.




Ele olhou meio estranho neste momento e em menos de 10 minutos estava na sala de cirurgia. A pediatra me perguntou se poderia fazer exame de sangue, perguntou quando a bolsa tinha rompido, porque não tinha ido antes ao hospital. Expliquei que tinha estado ali há menos de 24 horas e o médico me mandou para casa, pois não estaria na hora e que perder líquido na idade gestacional que eu estava era normal. Aparentemente estavam todos tranquilos, me perguntaram como eu estava, disse que só queria meu “pacotinho” logo, brincaram dizendo: “pacotinho, nem nasceu e já tem este apelido feio mãe!”


Quando tiraram meu bebê meu marido viu e neste instante meu anjinho teve uma parada cardio-respiratória. 

Perguntei porque não ele estava chorando, meu marido levantou para ver e disse que estavam limpando ele e falou, olha ele resmungando... “não ele não está resmungando, este barulho é daquele aspiradorzinho.” Então escutei o médio falando: “Tirem o pai da sala enquanto fazem o procedimento no bebê”, e veio uma enfermeira do hospital ficar ao meu lado.


O que está havendo, pelo amor de Deus o que está acontecendo com meu bebê?” “Mãezinha, fique calma, converse com Deus... vai ficar tudo bem.” Ao fundo ouvia: “rápido”, “cadê a tal coisa”, “tenta pelo cordão umbilical”, "faz isso", "pega aquilo, de novo"...


Foi quando eu apaguei... Acordei, vomitei e apaguei de novo... Não sei quanto tempo se passou, até que acordei na sala de recuperação, com meu marido e a enfermeira do hospital ao meu lado: “Amor, nosso bebezinho nasceu com o coração muito fraquinho e infelizmente ele não resistiu. Ele foi morar no céu.” 


Neste momento meu mundo desabou. A enfermeira do hospital deixou eu vê-lo, lindo, perfeito, grande e gordinho. Meu anjo, que escolheu morar no céu... Insuficiência placentária, sofrimento fetal agudo, parada cardio-respiratória.


Uma fatalidade. Nunca culpei ninguém pelo que aconteceu. Nem os médicos, tão pouco a equipe que me atendeu em casa... sempre culpei a mim mesma pelo meu radicalismo, e o fantasma do “e se” me assombrou durante muito tempo...


Lembro que na consulta do pós-parto fui na minha GO e contei o que tinha acontecido, ela chorou comigo e me deu muita força: “... não se sinta culpada, foi uma fatalidade. Vocês cumpriram uma missão. Quem poderia prever que uma gestação tão saudável não terminasse bem...” e me deu muitos exemplos bons e ruins que ela vivenciou ao longo de seus 25 anos de experiência, inclusive me ajudou a vencer o fantasma do “e se”, porque “e se” eu tivesse feito uma cesariana levado meu bebê para casa e num dia qualquer fosse pegá-lo no bercinho e ele estivesse sem vida?!


Respeito muito o trabalho da equipe que me atendeu, a enfermeira foi muito atenciosa comigo, faz um trabalho lindo junto com toda sua equipe. Eu gostaria de na próxima gestação tentar o parto normal hospitalar, mas não tenho escolha. Sei perfeitamente que é possível, mas meu marido já impôs a condição de uma cesariana, disse que não quer voltar a viver o “filme de terror” que ele viveu. E não tenho nem argumentos para convencê-lo do contrário. Por algum motivo eu fui escolhida para este desfecho triste, desfecho este que você nunca lê em nenhuma página porque estão todos preocupados demais julgando e criticando médicos, mães e cesáreas.


Mas que todas as mães saibam que sim, há riscos, assim como qualquer outro, existem as histórias com finais tristes e eu, infelizmente, sou um exemplo destes. Uma fatalidade, talvez para mostrar que ninguém é Deus e que o respeito deve vir sempre em primeiro lugar.


Ofensas, agressões verbais e radicalismo é só o que eu tenho visto. Na minha humilde opinião, parto humanizado é aquele em que mãe e bebê terminam juntos, felizes, saudáveis e vivos. Independente da via de parto.