sábado, 3 de outubro de 2015

Humanização x Violência Obstétrica: Desconstruindo Conceitos (parte I)

Essa publicação tem o objetivo de desconstruir certos conceitos que têm sido usados de forma equivocada. Não sabemos dizer se isso ocorre por ignorância ou por interesses escusos, mas "humanização" e "violência obstétrica" têm sido propagados de forma leviana, sem um real entendimento e esclarecimento à população.

Oi, pessoal! Lembram de mim? Sou uma obstetra que trabalha no SUS e  já conversei com vocês aqui: no post  Humanização, um conceito para se pensar, falei sobre o tema - principalmente aquele focado no profissional da área de saúde - pelo meu ponto de vista, e prometi uma nova publicação mais abrangente. 

Diante da imensa veiculação dos termos "humanização" e "violência obstétrica", me senti na obrigação de entendê-los melhor. Por que a humanização tem sido vinculada exclusivamente ao parto natural? Por que só se fala da violência supostamente cometida pelo médico, como se ele fosse um torturador sádico que deseja cortar e costurar as mulheres? Será que é isso mesmo? 


Estudei várias fontes bibliográficas e acabei me atendo àquelas que considero mais importantes no nosso cenário de assistência: "Cadernos Humaniza SUS", do Ministério da Saúde. 



A PORTARIA Nº. 1.067, DE 4 DE JULHO DE 2005, já instituía a Política Nacional de Atenção Obstétrica e Neonatal, colocando algumas regulamentações acerca da assistência à gestação e parto:


 




Em 2010, foi lançado o Programa HUMANIZA SUS, uma abordagem geral do atendimento na saúde pública brasileira, norteada pelo conceito de humanização:


Dessa forma, a humanização do SUS não diz respeito somente à assistência dos profissionais de saúde, mas inclui a participação dos gestores  (diretores de hospitais, gerentes de postos de saúde, políticos, etc) e dos próprios usuários. O texto aponta algumas das dificuldades em implantar o processo:










Em 2014, o Ministério da Saúde publicou uma cartilha específica para o processo de humanização do parto. Destacarei alguns parágrafos que explicam o modelo defendido pela cartilha.
  







Prestem bastante atenção a essas colocações: "MANTER SUA SAÚDE FÍSICA"/"PREVENIR COMPLICAÇÕES"/"RESPONDER ÀS EMERGÊNCIAS"/"DESDE QUE NÃO REDUNDEM EM RISCOS PARA SI OU SEU FILHO".
  
A Política Nacional de Humanização (PNH) conceitua o termo e prevê um modelo a ser adotado, o qual vamos explicar ao longo do texto:










Em primeiro lugar, o que seria "ambiência"? É o espaço, arquitetonicamente organizado e preparado para o exercício de atividades humanas. Dessa forma, é desejável que os espaços físicos das maternidades estejam adequados para:  
Porém, por mais que as maternidades se adequem ao modelo proposto, sabemos que, infelizmente, a nossa realidade não permite proporcionar conforto a todas as parturientes. Quantas não conseguem leitos e acabam ficando em macas improvisadas, colchões no chão, cadeiras espalhadas pelos corredores! Seria ótimo se o ideal fosse real...
  
Outros quesitos colocados pelo PNH seriam vinculação e acolhimento.







A proposta seria estabelecer um vínculo da gestante com uma rede de assistência desde o pré-natal, passando pelo parto e chegando ao puerpério.

Bem, mais uma vez é difícil imaginar tal cenário dentro da nossa assistência atual. Se o acesso ao pré-natal já é complicado, seria quase impossível garantir vaga numa maternidade de referência. E o seguimento no puerpério ficaria prejudicado também. Já expomos um pouco da dura realidade das gestantes que dependem do SUS nesse POST.

Vou falar agora de violência obstétrica. O texto fala, primeiramente, da violência em geral, que nos assombra, no dia a dia, para depois entrar na questão da assistência obstétrica em si. Vou destacar alguns trechos que achei interessantes:

  




Assim sendo, o termo "violência obstétrica" é muito mais amplo e envolve TODOS aqueles ligados ao acolhimento da mulher, seja porteiro, recepcionista, pré-natalista, médico, enfermeiro, doula, instituição e, até mesmo, o Estado. 

Em breve, publicaremos a segunda parte desse texto, que é focada na assistência ao parto, propriamente dita, e voltaremos a abordar os temas humanização e violência no que diz respeito às escolhas da gestante, procedimentos médicos, presença de acompanhante e/ou doula, etc.

Concluindo, vale o que temos pregado desde a criação desse blog: respeito, tolerância e acolhimento. Colocar-se no lugar do outro, ouvir, amparar. E informar, sempre. Para que as escolhas sejam conscientes e isentas de modismos ou tendências, livres de profissionais despreparados ou mal intencionados. Humanizem-se!

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