quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O nascimento da anjinha Maria Isabel #pré-natal adequado #pararefletir



Com a chegada do termo “parto humanizado” veio também a teoria do natural. Alguns profissionais se auto denominam referências para este novo modelo de atendimento. 


Toques vaginais e exame físico muitas vezes são deixados de lado. E evitam ao máximo o apoio de médicos dos serviços de emergência. Ecografias também são realizadas seguindo o protocolo enxuto do SUS que considera o mínimo necessário. Será que eles têm tamanha convicção sobre a complexidade da vida humana ? 


Porém, na gestação nem sempre isso dá certo. Cada vez mais frequentemente, vemos tragédias que poderiam ser evitadas, ou pelo menos diagnosticadas ainda em tempo de busca socorro. Como sempre, o radicalismo se choca com a realidade da vida. Parto com respeito e pré-natal adequado devem ser conduta de todo profissional.

 
Aqui, segue o relato da C., que pela primeira vez teve a coragem de contar a sua experiencia negativa do pré-natal humanizado. 



O Nascimento da Anjinha Maria Isabel


Como começar a falar do momento mais triste da minha vida?


Desde o nascimento do meu primeiro filho há 5 anos atrás eu sonhava em tê-lo da forma mais natural possível e de preferência que fosse normal. Na época, não tinha condições para pagar o parto dos meus sonhos, humanizado, e acabei indo para um cesarista que me disse que faria, sim, meu parto normal. 


No entanto, no final da minha gestação, ele me levou à cesárea, pois meu filho estava com duas voltas de cordão umbilical no pescoço e, segundo ele, apenas tocando na minha barriga, meu líquido estaria diminuindo.


Meu filho, hoje com 5 anos e meio, nasceu bem. Foi aspirado, colocaram o colírio nos olhos dele e todos aqueles procedimentos normais que dizem ser violências contra os bebês. Após eu retornar da anestesia, ele foi para o quarto comigo e após dois dias, tivemos alta. 


Na época, lembro-me de ter ficado chateada com o médico. Me pareceu que ele havia induzido a cesárea, pois já havia visto bebês nascendo com o cordão enrolado no pescoço e pensava que a minha próxima gravidez seria da forma que eu queria: a mais natural possível, no hospital, na banheira de preferência, e normal. 



Em novembro de 2013 descobri que estava grávida de novo e logo fui em busca da melhor equipe que pudesse me atender e que faria o parto como eu queria, afinal já tinha uma cesariana. Então, através de indicações de gestantes e colegas de médicos humanizados da minha cidade, cheguei a uma das médicas mais bem conceituadas na humanização de partos. 





Na minha primeira consulta gostei muito dela e a mesma tirou todas as minhas duvidas, inclusive salientou que, se minha gestação fosse de baixo risco, o melhor parto seria domiciliar, que eu poderia fazê-lo em casa onde eu seria respeitada e não sofreria nenhuma intervenção. Ainda estava com medo, mas ela me assegurava que se precisasse de remoção para o hospital, os primeiros procedimentos seriam feitos em casa sem problema nenhum. Fiquei muito segura e aí começou o que hoje eu chamo de “lavagem cerebral”.

 

Para que eu fizesse o parto domiciliar precisava do consentimento do meu esposo, pois não o faria sem que ele quisesse. Então, minha doula me indicou um documentário para que nós assistíssemos e, assim, tirássemos conclusões juntos. Por sorte, o documentário seria exibido no cinema e ela nos chamou para assistir. Após o filme, haveria um debate. O nome do documentário é “O renascimento do parto”. 


Após assistirmos, incrível!, nós não queríamos ter outro tipo de parto se não em casa, onde nossa filha nasceria no tempo dela e eu poderia ficar à vontade. Decidido! Fomos a várias palestras elucidativas, onde mostravam que todas as mulheres sabiam parir e partos humanizados domiciliares que deram certo, ou seja, só a parte bonita. Fiz todas as consultas e o pré-natal, tudo perfeito. Não tive nada. Estava dentro do baixo risco. Estava calma, decidida e segura que conseguiria parir minha filha.

 

Quando completei 36 semanas, minha doula foi lá em casa para ver como seria feito no dia do parto e tirar todas as dúvidas que tínhamos sobre o trabalho de parto. A mesma nos disse que não estaria aqui na semana do dia 12 de junho e isso nos deixou um pouco inseguros, pois se minha filha não nascesse até a data provável que era dia 7 de junho não poderia contar com ela e, sim, com as backups. A minha médica me solicitou uma ecografia simples que fiz com 38 semanas e estava tudo normal.

 

Chegou dia 7 e nada de sentir algo. No dia seguinte, dia 8, no domingo, meu tampão saiu. Nossa! Senti uma alegria muito grande, pois sabia que estava perto da minha filha nascer. Então, comuniquei a dra pelo whatsap, mesmo a doula dizendo que a saída do tampão não necessariamente significava que iniciaria o trabalho de parto. No meu caso não significou, apenas senti uma contração e mais nada. 


A médica pediu que eu relaxasse. Na quarta, após a saída do tampão tive consulta com a dra e ela me questionou se queria acelerar o parto para que desse tempo para minha doula participar. No entanto, a doula viajaria no dia seguinte e não necessariamente daria certo dela estar presente, então optei por aguardar o tempo da minha filha. 


Nessa mesma consulta minha idade gestacional era de 40 semanas e 4 dias e a médica pediu que eu realizasse a última ecografia simples quando completasse 41 semanas (estranhei pois normalmente é feita com doppler) e se não entrasse em trabalho de parto, decidiríamos o que iria ser feito. 






E aí começou o meu pesadelo.

 

Segunda dia 16 fui fazer a ecografia simples e o médico que o fez ficou assustado com a idade gestacional que eu estava (41 semanas e 2 dias) e com o tamanho da minha filha e ainda constatou que meu líquido estava baixo e me orientou a ligar para minha médica o mais rápido possível. 





Fiquei assustada e entrei em contato com a médica pelo zap e a mesma me pediu que eu aumentasse a ingestão de água e me orientou a fazer a ecografia com doppler, sem demonstrar que era com urgência e que eu poderia fazer em emergência. No entanto, já era tarde e eu não conseguiria realizá-lo no mesmo dia.


Já estava com algumas contrações, porém muito irregulares ainda. No dia seguinte, acordei cedo e tentei marcar a ecografia com urgência, mas não deu certo, pois estava em cima da hora e era jogo do Brasil, o expediente acabava às 11 horas. Logo contactei a médica que me falou que se entrasse em trabalho de parto não teria problema nenhum. Fiquei tranquila. No final da tarde do mesmo dia, ainda com contrações, saiu um muco esverdeado e achei muito estranho, logo mandei um novo zap para a dra perguntando se esse muco esverdeado era  tampão e ela me respondeu por mensagem, sem ao menos me examinar, que sim, e assim fiquei muito tranquila. 


De madrugada comecei a sentir muitas contrações fortes e sentia que minha filha estava por vir, ligamos para a doula backup como combinado e ela estava com outra parturiente e pediu que ligássemos para outra doula que era backup. Ligamos para ela e ela passou lá em casa e disse para meu esposo que eu não estava em trabalho de parto ativo, que eu viraria um bicho quando estivesse, e falou para eu tomar um buscopam, um chá de camomila, colocar uma bolsa de água quente na minha lombar e, por fim, tentar dormir.

 

Bom, das 4 horas da manhã até às 9 horas do dia 18/06/2014 consegui dormir e acordei no susto com um líquido esverdeado saindo. Mandei uma mensagem para a médica falando que estava em dúvida se o que estava saindo desde o dia anterior era líquido ou muco. Então, a dra me pediu que colocasse um absorvente e verificasse se iria enchê-lo. Na hora que coloquei, encheu com liquido verde constatando que não era tampão e sim mecônio. Com isso, ela começou a se preocupar e falou que iria passar lá em casa para me examinar. 


A médica chegou por volta das 11:30h e fez o exame de toque, deixando-a preocupada, pois não estava saindo líquido. Ela ficou sem saber se eu estava sem líquido nenhum na barriga ou se o que estava saindo era corrimento. Após conversa com a enfermeira da sua equipe, perguntou se eu me importava de fazer a ecografia com doppler (a que eu não tinha conseguido fazer e que ela falou que não havia problema se não tivesse feito) com um colega dela para fechar o prognóstico, se iria ser feito uma cesárea de emergência ou parto normal induzido, e nós falamos que não havia problema algum. 


Fomos correndo ao consultório do tal dr., porém só fomos atendidos às 13 horas atrasando mais ainda o diagnóstico. O médico constatou que meu líquido tinha diminuído mais e minha filha já estava em sofrimento fetal e ainda falou que a médica deveria ser muito prudente na escolha e pediu que ligássemos o mais rápido possível para ela. Quando liguei, o médico já havia falado com ela e ela disse que iria ser uma cesárea e que, quando eu estivesse pronta, fosse para o hospital.

 

Então pegamos nossas coisas em casa e fomos para o hospital. Às 15:43h, minha filha nasceu, desacordada. Meu útero estava cheio de mecônio, pois o tal muco que a médica confirmou por mensagem que era tampão, na verdade, era mecônio. Logo, fiquei um dia e meio com mecônio na barriga, o que agravou mais ainda o quadro da minha filha e, com a falta de oxigênio, ela aspirou o mecônio dentro da barriga causando uma hipertensão pulmonar e lesão no cérebro. 


Eu não pude nem beijá-la, pois tiveram que correr para aspirá-la, que foi o que, por sinal, salvou-a naquele momento, a tal aspiração que tanto dizem ser desnecessária. Minha pequena chorou e correram para a UTI, iniciando aí, a luta pela vida dela. Pela falta de oxigenação, foi constatada, após 11 dias, que havia morte cerebral e que nada mais poderia ser feito. Um dia depois ela não resistiu e morreu, somando-se em 12 dias de vida, lutando bravamente. 


O que fico me perguntando é se ela tivesse me pedido para fazer essa ecografia com doppler antes ou se tivesse me pedido para fazer com o médico amigo dela antes, se o desfecho poderia ter sido diferente... Tantos questionamentos que nunca poderei responder.

 

Após o acontecido vale, ainda, salientar a falta de zelo da equipe comigo, a minha doula não teve a coragem de ir me visitar no hospital após ter voltado de viagem ou ao menos ir ao enterro da minha filha. Eu não tive suporte emocional, elas me abandonaram. Se preocuparam apenas com a reputação delas. Após constatada a morte cerebral, escrevi um pequeno relato por e-mail que chegou até a equipe, o qual a médica, sem se preocupar com o meu emocional, replicou ao grupo se explicando pelo acontecido, voltando a culpa para mim nas entrelinhas.

 

Não existe essa tal violência obstétrica, o que existe é uma estupramento emocional pelo péssimo serviço prestado por profissionais que estão formando verdadeiras máfias de negócios, pois o preço que se paga para tais procedimentos não são nada humanos e as sequelas emocionais na família são irreparáveis. Será que os “HUMANISTAS” são humanistas mesmo? Ou só estão inseridos na máfia do business?

 



A dor de reviver cada detalhe é muito grande, mesmo se passando 1 ano... 



No entanto, a vontade de justiça e de passar isso para frente para que outras gestantes possam tomar conhecimento e, assim, escolher de forma consciente as profissionais e o tipo de parto que terão, é muito maior. Eu acredito ainda no parto humanizado, mas que seja feito de forma correta e de preferência hospitalar.



Nota da Equipe do Visão de Ilitia: A ecografia obstétrica comum não avalia a vitalidade fetal, Para tal, é necessário fazer o perfil biofísico fetal ou, pelo menos, uma cardiotocografia. A ecografia com doppler dá informações valiosas sobre as condições do feto. Apesar de não ser obrigatória na rotina de acompanhamento de gestações de baixo risco, cada vez mais médicos a têm solicitado, para que não haja atraso no diagnóstico de um quadro de sofrimento fetal.


9 comentários:

  1. Muito triste saber que estes abusos destroiem vidas em nome dos sonhos alheios! Minha admiraçāo a esta Māe que conseguiu relatar este acontecimento para alertar a outras gestantes.Nāo deve ser fácil reviver estes detahes! Boa sorte e que Deus conforte aos seus coraçôes.

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  2. Muito triste saber que estes abusos destroiem vidas em nome dos sonhos alheios! Minha admiraçāo a esta Māe que conseguiu relatar este acontecimento para alertar a outras gestantes.Nāo deve ser fácil reviver estes detahes! Boa sorte e que Deus conforte aos seus coraçôes.

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  3. Parabéns pela coragem !!!
    Através desse gesto irá orientar e alertar às mães que tbm tem esse sonho , a não se entorpecerem pelo desejo e realmente se munirem de cuidados na hora da escolha dos profissionais de saúde !!!

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  4. Vc, mamãe da anjinha Maria Isabel, será solenemente ignorada pelas "empoderadas", porque você estragou a estatística delas. Ou então vão colocar a culpa em você! Quanto à morte da sua bebê? Não estão nem aí!

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  5. Que horror Lia. Sou super a favor do parto humanizado. E fico muito triste quando isso acontece. É muito importante esse tipo de relato, para nos manter informados. Todo cuidado é pouco quando se trata de uma vida. Meus sentimentos a família. E que sirva de exemplo. Parto humanizado sempre.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Eu acredito no parto natural, assistido de forma íntegra, humana, humanizado... Acredito que a taxa de cesáreas no Brasil é absurdamente alta e tem que diminuir. Acredito que um conjunto de providências deve ser tomado para que o modelo de assistência ao parto seja mais justo e menos violento e cheio de interferências desnecessárias.
    O que eu não acredito é fazer desse novo olhar e dessa nova forma de atender ao parto, um negócio tão sujo, inescrupuloso e capitalista, como é o comércio das cesáreas.
    Espero que esses relatos, que mostram histórias tristes, consequentes de atendimentos irresponsáveis, possam fazer os maus profissionais que estão atendendo em nome do parto humanizado, pararem.
    Esse relato refere-se a mesma profissional que, em Brasília, atendeu uma amiga minha. Ela também viveu uma tragédia em seu parto por conta do atendimento irresponsável , inconseqüente, violento e desrespeitoso dessa equipe.
    Pior q sofrer violência no hospital é sofrer em sua própria casa...
    Parto domiciliar tem risco, parto hospitalar tem risco, mas arriscar vidas por atendimento indevido é outra coisa.

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  8. Nossa KAMILA....Não tenho palavras para expressar minha perplexidade....como comentei com vc seu caso não é o primeiro que conheço ...mad ler cada momento cafa detalhe é realmente chocante e tocante ao mesmo tempo...Sua coragem, sinceridade e força me comovem.BJS WALESCA

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  9. Nossa KAMILA....Não tenho palavras para expressar minha perplexidade....como comentei com vc seu caso não é o primeiro que conheço ...mad ler cada momento cafa detalhe é realmente chocante e tocante ao mesmo tempo...Sua coragem, sinceridade e força me comovem.BJS WALESCA

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