domingo, 6 de setembro de 2015

Quando a via de parto não importa. Radicalismos que são apenas uma gota no oceano da vida.


A assistência da mulher, para mim como médica, não inclui somente rotina ginecológica, ou pré-natal, parto e puerpério. Inclui suporte emocional, parceria e, por que não, amizade.

Estamos ali diariamente sentados e entram e saem milhares de mulheres com suas histórias. Absorvemos situações e estamos sempre mudando com as nossas vivências e  as das nossas mulheres. E assim foi, uma semana intensa que queria dividir com vocês.

Vou começar contando sobre a Patricia (nome mudado para preservação da sua história).  Nova, da área da saúde, alegre,  carinhosa com todos.  Fiz seu pré-natal e parto há quase 1 ano.  No pós-parto imediato, os mesmos questionamentos de toda mãe. Esforços para a amamentação acontecer plenamente, sono acumulado. Mas isso tudo com a certeza que estava no caminho certo e sorriso no rosto. Voltou a trabalhar e adaptou-se novamente a rotina: trabalho, amamentação e sono. Retornou na consulta há 3 semanas para uma consulta e conversamos sobre anticoncepcional. Ela me falou que a pequena, que faria 1 ano, ainda mamava quando ela chegava do trabalho. E que as vezes ela ficava muito cansada, mas sabia que era importante manter a amamentação. Então optamos por continuar o uso do anticoncepcional só de progesterona que ela já estava utilizando para não atrapalhar. Quando ela resolvesse parar, era só me procurar.

Então, ela me mandou uma mensagem na segunda de manhã pedindo alguma medicação para secar o leite e um encaixe no consultório. E antes que eu perguntasse, mandou a frase:" Minha bebê está com o papai do céu". Meu chão sumiu... senti uma pontada. Como assim?! Pedi para ela ir no final do dia que eu a atenderia.

Patricia chegou e pacientemente esperou a sua vez. Deixei-a por último, não por ser encaixe, mas para ter mais tempo para ela. Não queria uma consulta corrida. Por fim, ela entrou no meu consultório e eu preferi sentar ao seu lado. Não do lado oposto da mesa como habitual. E aí ela começou a me contar. Sua pequena iniciou com uma febre, mas estava tudo bem. Após 2 dias levou-a na emergência e não existia nenhum foco de infecção. Retornou para casa. Dois dias depois, achou que a pequena teve uma queda do estado geral e levou-a novamente na emergência. Foi tudo muito rápido. Suspeitaram de meningite e ao fazer a punção lombar, ela teve uma parada cardiorrespiratória. Lutou um pouco pela sua vida, mas não deu... Assim. Simples assim.

E eu ao escutar a história não aguentei. Se ela queria uma força, encontrou um trapo. Chorei, chorei, chorei.... de soluçar. Ela então me abraçou e pediu: "Não fique assim doutora".
E aí ela chorou. E eu me controlei. E ela chorava e dizia dos dias que ela chegava cansada e pensava que era um saco amamentar. Dos dias que ela cansada, à noite, rezava para a pequena dormir. Do grude que as vezes estamos irritados e queremos um pouco de paz. Do seu sentimento de culpa... Me mostrou um vídeo do dia anterior do acontecido, da pequena dançando ao som de uma música cantada por ela.

Me coloquei no seu lugar e chorei novamente. Ficamos ali, uma dando apoio para outra. E por fim, ao ir embora, ela me disse: "Eu não falei para ela que a amava todos os dias. Fale isso para a sua filha e seu filho".

Foi assim que começou a minha semana. Trabalhando no consultório e nos tempos vagos (que são raros), trabalhando aqui no blog, no relato da Fabrina.



Minha filhota que tem dermatite atópica, na terça -feira começou a chorar com de ardência nos braços. Intensificamos a hidratação, que seria o tratamento adequado. Mas quinta-feira à noite piorou muito e aumentaram as feridas no seu bracinho. Ela chorava de dor e eu entrei em pânico. Passamos a madrugada juntas. Ela acordada até as 4 h da manhã.


Na sexta feira, no consultório, eu estava um bagaço. No fim do dia, horário apertado para buscar meu filho no colégio, me liga uma paciente gestante que estava atrasada para a consulta. Como vinha feriado, preferi esperar. Pedi para uma mãe de um amiguinho do meu filho levar ele para casa que depois eu o buscaria lá.


Chega a paciente atrasada com seu marido. Um dos muitos casais que eu tenho prazer de atender. Fofos, educados, gentis. Idade gestacional de 30 semanas. Me mostra uma ultra do dia que evidenciava um bebê pequeno, mas com a vitalidade preservada. Incisura bilateral (que mostra um possível risco para pré-eclampsia). E na hora de fazer o exame.... PA 160x100 mmHg.  Encaminho o casal para o Hospital e comunico a necessidade de internação. Imagino o susto que eles levaram, afinal estavam em uma consulta de rotina antes de um feriado e saíram dali para internar sem previsão. E mais uma vez eu tive vontade de chorar. Foi confirmada a pré-eclâmpsia e ela foi para o CTI materno para ser monitorada e estabilizada, para conseguir levar a gestação ao máximo possível, dentro de uma segurança. E agradeci a Deus por ter me feito esperar por ela para consulta, mesmo com todo o caos que estava a minha vida pessoal.

Peguei meu filho na casa do amiguinho e ele se queixou de dor de cabeça. Chegamos em casa e resolvi que íamos dormir todos agarradinhos na minha cama. Queria os meus filhos bem pertinho. Quando, às 4h da manhã, fui acordada por um líquido quente nas minhas costas e na minha cama e cheiro de chocolate. Meu filho vomitou em mim todo o todinho que tinha tomado. Só me faltava esta para o fim de semana prolongado, não é ? Levantamos, tomamos banho, trocamos a roupa de cama. Enfim, às 6 h voltamos a dormir.

Sábado meu filho apresentou mais sintomas de rotavírus. A minha filha seguiu a mesma linha e vomitou também. E eu? Também fiquei com rotavírus, claro. Passamos sábado de molho e aproveitei para dizer o quanto eu os amava.

E hoje, no domingo, junto com o sol, veio um novo dia. Estamos todos juntos e melhorando.  E fui lá no hospital ver a minha paciente que não estava precisando de mim para conduta médica, pois está bem cuidada no CTI materno. Fui porque eu me importo !


Por que eu resolvi escrever tudo isso?  Apenas para dizer que a vida é única e que a via de parto é apenas uma gota no oceano. O que importa é estar do lado de quem você ama, fazer o bem e querer o bem.  Bom domingo para todos!


5 comentários:

  1. Me emocionei. Força e melhoras pra vcs...
    Me sinto segura como sua paciente e orgulhosa por esse texto belíssimo ter sido escrito pela médica que escolhi para me acompanhar no momento mais sensível da minha vida. Obrigada. Sucesso! Bjos!

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  2. Oi Júlia, obrigado pelo carinho e palavras doces. Eu tenho mais do que tudo sorte, porque é fácil e prazeroso realizar meu trabalho quando tenho pacientes como vocês. Bj

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  3. Como me orgulho em saber que existem tantos profissionais maravilhosos sendo condenados por condutas corretas e exercendo a profissão com amor.
    Obrigada Dra. por compartilhar conosco histórias tão emocionantes. Um grande beijo!

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  4. Emocionada! Li com lágrimas nos olhos e o coração apertado. Que Deus console o coração dessa mãezinha. Te abençoe e cuide de vc também para que continue sendo essa médica carinhosa e cuidadosa com suas pacientes

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  5. Ao ler esse texto fiquei lembrando do meu bebê no berço e o quanto a vida é frágil. Realmente precisamos aproveitar cada minuto que Deus nos dá ao lado de nossos filhos pois são momentos mágicos que não voltam mais. Parabéns doutora por tamanha sensibilidade. Que Deus conforte o coração dessa mamãe que se viu afastada do seu anjinho

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