domingo, 20 de setembro de 2015

Quando a via de parto não importa. A fragilidade da vida!


Uma médica seguidora da página nos enviou este relato emocionante. Nele percebemos claramente a fragilidade da vida. Amei o texto como reflexão de domingo. 

O que queremos levar disso tudo? Será que os filhos desta mulher se importam com a via de parto que eles nasceram? Ou simplesmente queriam sua mãe? 

Como médica, estas histórias marcam a minha vida. 

Para refletir ! Bom domingo a todos.


Eu tinha 21 anos quando iniciei o internato.  A divisão da turma pelas áreas era por sorteio e meu grupo caiu logo de cara no pronto-socorro.

Éramos 3 internos responsáveis pelos 18 leitos de internação do PS, mais o box de emergência,  mais o isolamento e mais os que ficassem no corredor. Chegar cedo, sair tarde, tinha dias que eu só percebia que não tinha bebido água já na hora de ir embora, fato que me rendeu uma infecção urinária,  mas essa é outra história.

Um dos 6 leitos destinados para mim era de uma mulher de 35 anos. Eu nunca me esquecerei dessa paciente. Jovem. Triste. Consumida por um câncer de ovário em estágio terminal. Ela estava muito magra, com rosto e braços fininhos. Seu abdome ascítico (cheio de líquido) lembrava uma gestação em fase final. Seu semblante era triste sim, porém, resignado. Ela sabia que tinha muito mais a me oferecer do que eu a ela !

Naquela época eu não sabia direito identificar um paciente que estava próximo de falecer. Apesar da aparência consumida pela doença,  seus sinais vitais estavam bons, me parecia mais estar cansada. Mas logo o residente responsável pelo setor me disse: não se engane, ela internou aqui para morrer.

Era meu segundo dia de internato e o segundo dia de internação da paciente. Naquela manhã,  me senti desconfortável ao examiná-la. Pensava: como pode? Ela está aqui, sabendo que vai morrer e ainda aceita que eu a examine, mesmo eu sendo apenas uma estudante. Mesmo sabendo que eu não sabia nada. Que eu não era a responsável pelo seu tratamento. Que eu não poderia curá-la...

Se aproximava o horário de visita e ela se encaminhou, com o auxílio de uma cadeira de rodas, para a área externa do pronto-socorro.  Eu perguntei para o residente: Por que ela não receberá a visita no leito?  Ele me respondeu: Porque é melhor que as crianças não entrem aqui.

Putz. Crianças! Só naquele momento que eu fui me dar conta que aquela situação toda ainda tinha um contexto! Até então, eu estava pensando somente nela, um indivíduo vivenciando uma doença terminal. Agora, eu percebia a amplitude do problema. Crianças... Ela era mãe.

Fui acompanhando com o olhar, enquanto ela percorria o corredor que dava para a saída do PS. Nesse momento, as crianças passaram pela porta e entraram no setor. Vieram correndo para abraçá-la.  Uma menina e um menino. Não mais do que 5 anos.

Com o coração apertadinho, eu olhei para ela e vi que ela sorria. E com a mesma atitude resignada, continuou em direção à área externa do hospital. O residente, que presenciou a cena ao meu lado, finalizou: eles vieram para se despedir.

Já era noite quando saí do hospital. Entrei no carro e chorei. Chorei de tristeza e de compaixão. Chorei para aliviar toda angústia que se instalou no meu peito e me acompanhou pelo resto daquele plantão.

Era seis e meia da manhã do dia seguinte. Quando eu cheguei, ela já não estava mais lá. E já havia outro paciente no seu leito. Uma nova história, uma nova doença, uma nova vida. Percebi duramente a realidade. Foi naquela madrugada que ela faleceu. 

Hoje eu tenho a mesma idade e um filho a mais que a minha primeira paciente do internato. Talvez tenha sido essa a razão da motivação para escrever esse texto. Talvez seja esse o motivo de ainda me emocionar tanto.

O que eu acho da medicina? A medicina é a melhor profissão do mundo!

Na medicina você aprende todos os dias. Pois cada paciente que entra no seu consultório é uma pessoa diferente, com pensamentos e convicções próprias,  com seus traumas e suas conquistas, com famílias e suas dinâmicas, com as mais diversas manifestações individuais das doenças do livro.

A medicina, ela te ensina um pouco mais a cada dia.  E ela te ensina, não só sobre as doenças, mas, principalmente, em como se tornar uma pessoa melhor. 




Fonte: http://esquentacidade.com/view/saude:22/14158/cientistas-vinculam-cancer-de-ovario-com-o-sobrepeso



2 comentários:

  1. Ser médico é um dom e você foi abençoada por Deus para cumprir sua missão e ainda se tornar uma pessoa melhor através da sua nobre profissão! Parabéns por cuidar com afeto seus pacientes!

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  2. Hoje em dia vemos muitos médicos que mal olham no olho do paciente ao realizar atendimento. Fico feliz de ler a sua história e perceber que vc escolheu a profissão certa pois a realiza com carinho e enxerga em cada paciente a possibilidade de aprender algo novo. É bonito ver que ainda se lembra de uma das suas primeiras pacientes. Parabéns!!

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