terça-feira, 8 de setembro de 2015

Relato de J., SP. Nem toda história tem um final feliz.


Olá, encontrei esta página por acaso, me identifiquei desde o primeiro momento. Acho que li quase todos os relatos de parto e, enfim, criei coragem para dividir a minha história.


Sempre dizia que, quando ficasse grávida, eu faria uma cesárea, porque parto normal era coisa de louca, seria doloroso, era perigoso, que me deixaria “frouxa” e tal... Bom, foram longos 03 anos de tentativas até o positivo chegar. Surpresa, emoção, uma sensação surreal! Com quase 10 semanas consegui marcar a consulta com a “minha” GO, com quem consulto há anos. Uma gestação dos sonhos, pouco enjoo, disposição a mil.


Por volta das 14 semanas tive meu primeiro contato com relatos de parto humanizado, o que mudou completamente minha visão acerca da cesariana. Lendo os relatos, pensei: “é isso o que eu quero para mim”. Passadas mais algumas semanas, voltei neste assunto, me inscrevi num curso e comecei a ler e pesquisar tudo quanto foi site com informações sobre parto humanizado que eu encontrava. Achei até besteira fazer o curso, porque tudo que ouvi lá eu já havia lido.



Então, convenci meu marido de que isto seria o melhor para nosso bebê, um parto respeitoso e humanizado. Depois de muito insistir e mostrar as vantagens, inclusive que ele poderia estar ao meu lado o tempo inteiro, ele aceitou o parto domiciliar, desde que contratássemos uma doula.


Conversei com a minha médica a respeito do parto, parto normal, cesárea, parto humanizado. Ela sempre foi muito clara comigo e me deu o ponto de vista dela sobre todos os aspectos. Explicou que no hospital que atendia tinha equipe humanizada, mas que alguns procedimentos eram sim necessários para o bem-estar da mãe e do bebê e que era para eu pensar bem, para não comprar uma ilusão. Eu respeito demais a minha médica, mas eu estava tão encantada pelo mundo do parto humanizado, que não dei ouvidos a ela e decidi que, para ser como eu queria, teria que ser o parto domiciliar.


Por volta das 30 semanas encontrei uma equipe para o parto domiciliar. Todas foram muito atenciosas comigo e me senti segura. A gestação prosseguia perfeitamente bem, trabalhei até 38 semanas de gestação, andava, fazia faxina em casa, dirigia, vida perfeitamente normal exceto pela barriga enorme.  


Até que, na data prevista para o parto, levantei para ir ao banheiro e senti um líquido escorrendo pelas minhas pernas. Achei que a bolsa tinha rompido, mas eu não sentia nenhuma dor. Passei uma mensagem para a equipe, troquei de roupa e voltei a dormir. Entraram em contato comigo de manhã, perguntando sobre a “bolsa estourada”, expliquei o que tinha acontecido, que não sentia dor nenhuma, não tinha saído o tampão... Hum, talvez tenha sido só uma ruptura “alta”. E me aconselharam a andar, me movimentar para estimular o trabalho de parto. Passei o dia perdendo líquido. 


Passadas 24 horas, nada de dor. E o líquido saindo ora ou outra.


Pouco mais de 48 horas da primeira perda de líquido, fui ao consultório da enfermeira, ela me examinou, fez toque e neste momento saiu líquido acho que em quantidade de xixi e eu não tinha sinal nem de dilatação e nem de dor. Ela me deu a opção de aguardar o trabalho de parto (TP) ou ir ao hospital e explicou que, seu eu fosse para o hospital, eles provavelmente induziriam o parto ou mesmo fariam uma cesariana, e a doula também falou sobre a indução ou uma possível cesárea. Resolvi, então, ir para casa, afinal meu bebê se mexia normalmente e o coração estava com batimentos normais.


No dia seguinte, com 72 horas perdendo líquido, fomos ao hospital. Fui aconselhada a não dizer sobre a perda de líquido. Pedi para o médico uma guia para fazer um ultrassom, queria saber se estava tudo bem com o meu bebê. Ele disse que não precisava, mesmo assim, passou a guia. Fiz cardiotoco, meu bebe estava ótimo, a enfermeira viu o resultado e disse que estava tudo normal. Batimentos e movimento fetal normal. Nem esperamos para falar com o médico de novo. Fui embora.


Desta vez, fui instruída a usar ocitocina nasal para estimular o trabalho de parto. Passadas 94 horas perdendo líquido, fui à outra maternidade, desta vez decidida até a ficar internada, porque eu estava insegura e preocupada. Os contatos com a equipe se limitavam a ligações e mensagens, e a doula falando das “torturas” hospitalares. Fui direto para sala fazer cardiotoco, tudo normal, a enfermeira do hospital até falou: “nossa mãezinha, seu bebê tem um coração forte”.


Neste dia expliquei detalhadamente para o médico o que estava acontecendo, sobre a perda de líquido e tudo mais e nenhum sinal de dor. Ele me examinou, disse que eu não tinha dilatação e que perder líquido com 40 semanas e 03 dias de gestação era normal, ao que eu rebati: “Dr., mas estou perdendo líquido há três dias!!!” “Isso é normal para sua idade gestacional, o cardiotoco está normal, o bebê está bem. Vamos repetir o exame dia sim dia não e se, até 41 semanas não entrar em trabalho de parto, faremos uma cesariana”.


Fui embora, não sei se feliz ou se mais preocupada. Chegando em casa fiquei deitada do lado esquerdo no sofá naquele cochila e acorda a tarde inteira, quando foi no comecinho da noite me dei conta que meu bebê não havia se mexido ainda, falei para meu marido, perguntei para a equipe se era normal. “Sim, deita de lado”... Já estou e nada! E nessa hora, comecei enfim a ter contrações, então pensei: “acho que está quietinho porque está chegando a hora”.


Fiquei feliz com as primeiras dores, enfim iria conhecer o meu tão esperado bebê. As contrações estavam ritmadas e suportáveis. Um pouco mais de 2 horas depois, ficaram muito fortes e com pouco intervalo, nós já tínhamos ligado para a equipe toda. Creio que umas 4 a 5 horas depois da primeira contração o pessoal da equipe chegou na minha casa.




Dor vai, dor vem, eu me contorcia e sangrava e num determinado momento senti como se algo estourasse. Quando olhei, escorreu um quase nada de um líquido marrom, entrei em desespero e chorei mais ainda, meu bebê não mexia e eu estava preocupada porque não conseguiam ouvir seu coração direito, sabia que aquilo não era um bom sinal. Perguntei se era mecônio, ninguém falou nem que sim, nem que não.


Eu não sentia vontade de gritar, só queria que acabasse logo. Eu queria sair dali e ir para o hospital, chorava e pedia para meu marido me levar para o hospital, nisso a doula já ia falar das “torturas” que fariam comigo no hospital, lembro que virei para ela e falei: médico não é monstro e não quis mais ela do meu lado, me deixava mais nervosa. Cada vez que colocavam o aparelho para ouvir os batimentos, eu não ouvia nada, e isso me deixava desesperada, não dava para ouvir batimentos.


Acho que umas 7 horas depois de começar as contrações eu estava com 8 cm de dilatação, mas o bebê não estava virado na posição certa, ele estava encaixado desde a 32ª semana mas não na posição certa para nascer, então fizeram uma manobra rebozo (não sei se é assim que escreve) foi doloroso e não resolveu.


Ia para ao chuveiro, sentava no banquinho e nada. Andava pela casa, e nada. De repente as contrações pararam, então usamos a ocitocina nasal. Com 10 cm de dilatação comecei a fazer força e nada... força, e nada.


Acredito que 13 horas depois, conversamos com a enfermeira e achamos melhor irmos para o hospital.


Cheguei lá com muitas dores, me passaram na frente, o médico me examinou e disse: “Mãe estou te mandando para uma cesariana de emergência, você está com 7cm de dilatação, com a bolsa rota, seu bebê é enorme e não estou conseguindo ouvir o coração dele. Não vou deixar você sofrendo mais. Quando sua bolsa estourou ?”. “Não sei dizer ao certo doutor, estou perdendo líquido há quase 4 dias e de madrugada senti escorrer um líquido escuro”.




Ele olhou meio estranho neste momento e em menos de 10 minutos estava na sala de cirurgia. A pediatra me perguntou se poderia fazer exame de sangue, perguntou quando a bolsa tinha rompido, porque não tinha ido antes ao hospital. Expliquei que tinha estado ali há menos de 24 horas e o médico me mandou para casa, pois não estaria na hora e que perder líquido na idade gestacional que eu estava era normal. Aparentemente estavam todos tranquilos, me perguntaram como eu estava, disse que só queria meu “pacotinho” logo, brincaram dizendo: “pacotinho, nem nasceu e já tem este apelido feio mãe!”


Quando tiraram meu bebê meu marido viu e neste instante meu anjinho teve uma parada cardio-respiratória. 

Perguntei porque não ele estava chorando, meu marido levantou para ver e disse que estavam limpando ele e falou, olha ele resmungando... “não ele não está resmungando, este barulho é daquele aspiradorzinho.” Então escutei o médio falando: “Tirem o pai da sala enquanto fazem o procedimento no bebê”, e veio uma enfermeira do hospital ficar ao meu lado.


O que está havendo, pelo amor de Deus o que está acontecendo com meu bebê?” “Mãezinha, fique calma, converse com Deus... vai ficar tudo bem.” Ao fundo ouvia: “rápido”, “cadê a tal coisa”, “tenta pelo cordão umbilical”, "faz isso", "pega aquilo, de novo"...


Foi quando eu apaguei... Acordei, vomitei e apaguei de novo... Não sei quanto tempo se passou, até que acordei na sala de recuperação, com meu marido e a enfermeira do hospital ao meu lado: “Amor, nosso bebezinho nasceu com o coração muito fraquinho e infelizmente ele não resistiu. Ele foi morar no céu.” 


Neste momento meu mundo desabou. A enfermeira do hospital deixou eu vê-lo, lindo, perfeito, grande e gordinho. Meu anjo, que escolheu morar no céu... Insuficiência placentária, sofrimento fetal agudo, parada cardio-respiratória.


Uma fatalidade. Nunca culpei ninguém pelo que aconteceu. Nem os médicos, tão pouco a equipe que me atendeu em casa... sempre culpei a mim mesma pelo meu radicalismo, e o fantasma do “e se” me assombrou durante muito tempo...


Lembro que na consulta do pós-parto fui na minha GO e contei o que tinha acontecido, ela chorou comigo e me deu muita força: “... não se sinta culpada, foi uma fatalidade. Vocês cumpriram uma missão. Quem poderia prever que uma gestação tão saudável não terminasse bem...” e me deu muitos exemplos bons e ruins que ela vivenciou ao longo de seus 25 anos de experiência, inclusive me ajudou a vencer o fantasma do “e se”, porque “e se” eu tivesse feito uma cesariana levado meu bebê para casa e num dia qualquer fosse pegá-lo no bercinho e ele estivesse sem vida?!


Respeito muito o trabalho da equipe que me atendeu, a enfermeira foi muito atenciosa comigo, faz um trabalho lindo junto com toda sua equipe. Eu gostaria de na próxima gestação tentar o parto normal hospitalar, mas não tenho escolha. Sei perfeitamente que é possível, mas meu marido já impôs a condição de uma cesariana, disse que não quer voltar a viver o “filme de terror” que ele viveu. E não tenho nem argumentos para convencê-lo do contrário. Por algum motivo eu fui escolhida para este desfecho triste, desfecho este que você nunca lê em nenhuma página porque estão todos preocupados demais julgando e criticando médicos, mães e cesáreas.


Mas que todas as mães saibam que sim, há riscos, assim como qualquer outro, existem as histórias com finais tristes e eu, infelizmente, sou um exemplo destes. Uma fatalidade, talvez para mostrar que ninguém é Deus e que o respeito deve vir sempre em primeiro lugar.


Ofensas, agressões verbais e radicalismo é só o que eu tenho visto. Na minha humilde opinião, parto humanizado é aquele em que mãe e bebê terminam juntos, felizes, saudáveis e vivos. Independente da via de parto.








8 comentários:

  1. Um relato sofrido, e como não poderia ser diante do desfecho... É preciso tempo... Tempo pra entender e quem sabe enterrar o "se"...

    Um abraço.

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  2. Querida, só posso te dizer: D'us te console. E quando o seu próximo bebezinho chegar, escuta a sua médica de confiança e escuta o seu marido e tenha um lindo e seguro parto. Vc ainda vai sair de um HOSPITAL com o seu filhotinho no colo.

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  3. Concordo 100%: "Na minha humilde opinião, parto humanizado é aquele em que mãe e bebê terminam juntos, felizes, saudáveis e vivos. Independente da via de parto."
    Ouvi críticas duras pela escolha que fiz (cesarea eletiva, após uma gestação sem problemas e bebê em posição cefálica), mas não me arrependo um minuto. Esta foi a opção que trouxe paz para meu coração. Vejo a cesarea como um desafio para a recuperação do corpo da mãe, mas que proporciona ao bebê um nascimento rápido e tranquilo.

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  4. Infelizmente, como médico, este é um cenário de terror. Nem preciso ser obstetra para enxergar a barbaridade que foi este atendimento. Uma pena que existem colegas assim e outros profissionais de saúde que se propõe a fazer o que não entendem.

    Este óbito está na conta de todos eles e de todos que incentivam a irresponsabilidade que é o parto domiciliar.

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  5. Só uma louca não culpa essa equipe...como não tem culpa? Eles fazem terror em relação ao q acontece no hospital, mas é o que fizeram? Só sendo demente para querer tentar um parto "humanizado" como esse mais uma vez...

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  6. Eu não sou a favor de parto normal, eu quase morri com meu segundo filho, passou da hora de parto normal foi tirado a ferros, graças a Deus meu bb nasceu sem sequelas , o pediatra disse na época q poderia haver. Eu fiquei 9 meses com problemas p andar, o osso da bacia ( pente) abriu e levou meses p voltar, poderia não voltar ao normal. Foi um terror . Antes de decidirem sobre parto normal pensem bem, minutos podem fazer a DIFERENÇA!

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  7. Sinto muito por sua experiência,algo muito forte.
    As poucas mães que conheci que vivenciaram o luto, ainda na gestação ou pouco tempo depois, as que conseguiram ressignificar após algum tempo, encontraram suporte na espiritualidade.
    Mais uma vez sinto muito, foi bom ler seu relato, em algumas cidades existem grupos de apoio para pais que estão de luto.
    Grande abraço...

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