sábado, 3 de outubro de 2015

Humanização x Violência Obstétrica: Desconstruindo Conceitos (parte II)


Dando seguimento ao primeiro texto (se você ainda não leu, clique aqui),essa publicação também tem o objetivo de descontruir certos conceitos que têm sido usados de forma equivocada. Não sabemos dizer se isso ocorre por falta de conhecimento, má interpretação ou outros interesses. Fato é que os termos "humanização" e "violência obstétrica" têm sido propagados de forma leviana, sem um real entendimento e esclarecimento à população.

Fonte: http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/23593-violencia-obstetrica#foto-373069

De agora em diante, falarei sobre questões específicas da assistência ao parto. Começarei com o local do nascimento.


O texto cita alguns estudos a favor do parto domiciliar, porém, não cita nenhum dos riscos associados, nem expõe nenhum argumento contra, apesar de afirmar que todos os riscos e benefícios devem ser informados. Na nossa fanpage, já citamos algumas estatísticas em relação ao parto domiciliar. Essa cartilha deixa claro que "as preferências e visões do assistente também devem ser levadas em consideração". 

Um dos parágrafos me chamou a atenção, pois entra em divergência com alguns dos relatos que publicamos anteriormente no nosso blog:



Também comenta sobre os centros de parto, ou casas de parto, que são opções intermediárias entre o parto em domicílio e o hospitalar, criando uma experiência semelhante àquela vivenciada em casa. Porém, é categórico em afirmar:


Em relação ao parto hospitalar, sugere-se a adaptação do ambiente para maior conforto da parturiente, colocando as unidades PPP (pré-parto, parto e puérpério) como a melhor opção. Também estimula-se a mudança de posição da gestante, dentre outras práticas que falaremos na sequência.



Como se pode perceber, apresentação pélvica e gemelaridade são situações de risco e, portanto, para esse caso, o "velho centro cirúrgico e obstétrico" é necessário. Além disso, menciona a necessidade do uso do fórceps em determinados casos, o que reforça a ideia de que o hospital é o ambiente que fornece maior segurança para realização de um parto. 

Na sequência, há considerações sobre a assistência na primeira fase do trabalho de parto: jejum, enema (lavagem intestinal), tricotomia (raspagem de pêlos pubianos), práticas, há muito, abandonadas. 

Temas como posição e alívio da dor também são discutidos. Preconiza-se a posição mais confortável pra gestante, a movimentação durante o trabalho de parto e a verticalização no período expulsivo. 

Quanto ao alívio da dor, é recomendado o uso de técnicas não farmacológicas (alternativas, sem uso de medicamentos), mas ressalta-se:


Cita o parto dentro d’água como uma opção,apesar de afirmar que não existem estudos randomizados controlados comparando o parto na água com o parto convencional, ressaltando, ainda, que requer alguns cuidados e exige um protocolo para lidar com complicações não esperadas.

Em relação à episiotomia, refuta-se a sua prática rotineira, mas aconselha-se o uso em situações em que o procedimento possa ser necessário.



Quanto à assistência ao recém-nascido, é recomendado o clampeamento tardio do cordão umbilical, o contato pele a pele e o estímulo à amamentação. 

A cartilha estimula o envolvimento do pai desde o pré-natal, parto, até os cuidados com o bebê, garantindo seus direitos.

Também incentiva o trabalho em equipe, com a participação de enfermeiras e doulas no acompanhamento da parturiente.





Por várias vezes, a narrativa expõe a necessidade de humanizar o médico, no que tange o diálogo com a gestante, a informação e o respeito às suas expectativas, temores e necessidades, tornando a gestação e o parto como eventos únicos e de extrema importância para o indivíduo, de forma muito semelhante àquela que expusemos nesse post: Humaniza, SUS. E conclui: 


Cabem, agora, algumas observações: baseado em tudo o que foi dito, a gestante pode, sim, fazer um plano de parto, informando ao profissional de saúde os seus desejos, conforme o parto que idealizaram. E cabe ao assistente tentar realizar ao máximo seus anseios. Porém, a evolução do trabalho de parto é imprevisível e, numa situação que configure risco para a mãe, bebê, ou ambos, uma intervenção - não prevista no plano de parto - pode se fazer necessária para garantir um bom resultado. Diante disso, não se deve imputar ao profissional o termo "violência obstétrica" e, muito menos, a gestante deve se sentir frustrada ou "menos mãe" por não ter realizado o seu sonho de parto ideal. 

Certa vez, um experiente obstetra disse: "Parto não tem prognóstico, tem diagnósticos sucessivos". Exatamente: a obstetrícia é uma caixinha de surpresas, em que eventos inesperados podem acontecer e cada segundo pode fazer toda a diferença na sobrevivência e qualidade de vida da mãe e do bebê. 

Então, façamos escolhas conscientes, baseadas na ciência e não em falácias, e sejamos menos radicais. Pois, no fim das contas, o que importa é a vida, não é mesmo? 

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