quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Nem Todo Bebê Sabe Nascer. A história do Blog Cartas para Beatriz.




Quando Camila engravidou da Beatriz, iniciou-se um mundo de sonhos e expectativas. Durante toda a sua gestação, seus sonhos e expectativas foram alimentados de todos os lados. Nada mais natural.

Camila estudou, fez plano de parto e contratou uma equipe humanizada. Camila teve um trabalho de parto normal e não foi vítima de violência.

Mas, infelizmente, Beatriz não nasceu bem. E Camila agora transforma sua dor numa bela missão: a de informar outras gestantes  que nem sempre a natureza é perfeita; nem todo bebê sabe nascer; nem sempre existe um culpado; e toda mulher tem o direito de saber que, apesar de raros, desfechos negativos podem acontecer. 

Emocione-se com o relato de Camila e siga: Cartas para Beatriz.



"Há pouco mais de três meses perdi minha filha recém-nascida antes mesmo de completar dois dias de vida. Uns meses antes, eu ganhei em seu chá de bebê dois livros lindos em branco: um para as convidadas escreverem palavras de boas-vindas e outro para eu registrar meu amor por ela, as expectativas da espera, como foi a chegada, as emoções de nosso primeiro encontro e nossa vida a duas. Agora que ela se foi, resolvi falar, através do blog Cartas para Beatriz (estrelinhabeatriz.blogspot.com), sobre o parto, o luto e como ajudar outras mães que também voltaram para casa sem  seus bebês no colo.





Se há um aprendizado que tirei disso tudo é que nossos planos (de parto, de vida, de morte) estão nas mãos de Deus. Mesmo quando tudo parece transcorrer perfeitamente a cada semana de gestação, a cada exame realizado, cada consulta ao obstetra até o início do trabalho de parto, a primeira contração e o nascimento. Mas, como dizem por aí, para morrer basta estar vivo e foi assim com a minha Beatriz. Agora, eu percebo a necessidade de abrir espaço para mães e pais que vivenciam o luto partilharem suas experiências e situações não esperadas ou programadas no seu plano de parto. É lógico que, graças a Deus, estamos falando de uma minoria e eu não faço parte da média. Porém, essas coisas acontecem e ninguém nos conta os desfechos ruins.

Ao longo desta jornada, descobri que muitas mães pouco sabem ou desconhecem sobre várias ocorrências ligadas à gravidez, ao trabalho de parto e ao pós-parto. Termos como "vérnix", "cavalinho", "períneo" e até "plano de parto" tem pouco entendimento entre as mulheres. Porém, eu queria ser uma mãe diferente. Além de curiosa, dispunha de tempo e interesse para compreender tudo pelo qual passava e que me esperava. Não queria intervenções desnecessárias ou orientações que favorecessem mais aos médicos do que a mim e à minha filha. Então fui estudar. Aliás, fomos, pois meu marido me acompanhou firme nesta empreitada. 

Fizemos cursos de gestantes, exercícios, leituras especializadas, consultas e até a obstetra eu troquei com 35 semanas para me sentir mais segura e acolhida. Tudo com a única preocupação de melhor bem-estar para nós duas.

E confesso que, depois de tudo que me aconteceu, fiquei preocupada em como são passadas estas informações do “parto perfeito”. Doulas, GO’s humanizadas, facilitadoras e focalizadoras de grupos femininos (entre outras) tem um papel muito importante quando falam para gestantes e futuras mães, pois são formadoras de opinião e estas mulheres estão ali para aprender algo. Confiam nelas. E junto com isso, vem uma responsabilidade muito maior sobre o que é dito e verdades como “toda mulher sabe parir, todo o bebê sabe nascer” são entoadas como mantras e em nenhum momento somos preparadas para a morte de um bebê. Nem como enfrentar uma UTI. Então, penso que deve haver mais informações sobre o “nascer” e os riscos que corremos, independente da forma deste nascimento (cesariana ou parto normal, com ou sem anestesia, fórcepes e doula, no hospital ou em casa, com obstetra ou parteira) antes de levantar bandeiras a favor ou contra. 

Particularmente, sou contra qualquer bandeira, apenas quero ajudar outras mães em luto a entenderem que, sim, seus bebês morrem. É duro, é difícil, é de enlouquecer, mas a gente sobrevive. Arranja forças viscerais para seguir adiante. Recebe acolhimento. Amor. Compaixão. A gente se aproxima de Deus. A gente vive. E nosso filho estará sendo honrado e amado pela nossa história de dor e superação.

Não tive a oportunidade de retornar a estes cursos que frequentei para falar da minha perda, mas pude conversar individualmente com algumas facilitadoras destes grupos e doulas e percebi que já houve uma mudança de comportamento na condução deste assunto em alguns grupos. A minha GO também me questionou como ela poderia ter me ajudado e abordado este assunto durante o meu pré-natal após ler uma publicação minha na qual eu afirmava que não éramos preparadas para a morte de nossos filhos. Enfim, percebo uma reflexão profunda por parte dos profissionais envolvidos com gestantes e só isso já me deixa aliviada em saber que a partir da minha dor pode estar havendo um movimento favorável de compartilhamento de experiências com desfechos bons e ruins, mais precauções, menos radicalismos e discursos mais amenos.




Um dos motivos que troquei de obstetra com 35 semanas foi a necessidade de estar sendo acompanhada por uma profissional mais amorosa, compreensiva e sensível e que estivesse em linha com o parto humanizado, então cheguei à minha médica, uma pessoa sem igual. Tive muita sorte, pois ela me atendeu pelo plano de saúde (no meu caso semi-privativo), não me cobrou disponibilidade de parto nem qualquer outro tipo de taxa. Sempre foi doce, cuidadosa e preocupada em me informar tudo sobre os procedimentos do parto e me deixar à vontade. E, apesar de buscar uma médica humanizada, evitei aqueles GO’s radicais ou que tivessem algum histórico de desfechos negativos. Pelo contrário, sempre tive muito claro que “parto humanizado” para mim significava um parto com carinho, amor e respeito e que isso não significava que eu não utilizaria os recursos necessários para salvar a minha vida ou a de meu bebê.

Sempre quis um parto hospitalar por me sentir mais segura neste ambiente, rodeada de todos os recursos médicos e equipe especializada. Escolhi o hospital para parir pelo seu histórico em lidar de maneira afetuosa com o parto, oferecendo privacidade e um ambiente acolhedor. Também não vi necessidade de ter uma doula, pois já havia escolhido uma médica que me oferecia a segurança e cuidados que eu buscava, o resto ficaria a cargo do meu marido que me acompanhou em todos os momentos, dando apoio, suporte emocional e amor. Além disso, os valores cobrados deste serviço ficavam fora do meu orçamento, sendo que eu já me sentia muito bem assistida até então.

Desde que descobri a gravidez, com pouco mais de 6 semanas, realizei todos os exames necessários e regulares que um bom pré-natal exige: acompanhamento médico e realização de ecografias mensalmente, análise sanguínea e realização de exames específicos, como streptococcus, translucência nucal, morfologia e ecocardiograma fetal, todos com resultados excelentes. Após as 36 semanas, eu já consultava semanalmente e passamos a monitorar os batimentos cardíacos fetal (bcf) a cada 3 dias quando completei 40 semanas, sempre apresentando 140bpm e boa movimentação fetal. 

Quando completei 41 semanas, conversamos sobre induzir o parto antes de completar 42 semanas e resolvemos aguardar minha filha dar os seus primeiros sinais após fazer descolamento de membrana já que tudo transcorria bem e eu seguiria fazendo os exames necessários, ecografias, MAPI e escuta dos batimentos. Um dia antes de fechar 42 semanas, entrei em trabalho de parto e 1h após a primeira contração, estourou a bolsa com líquido bem claro, só com um pouquinho de sangue.  Fui para o banho e lá fiquei por quase 1h, relaxando e contando as contrações até que elas ficaram mais ritmadas e nos encaminhamos para o hospital, junto com a minha médica. Lá, realizamos mais um MAPI e tudo estava normal conosco e o trabalho de parto evoluiu muito bem, sempre monitorado, sem sinal de sofrimento, mecônio ou desaceleração do bcf.

Quando eu já estava com 6cm de dilatação, recebi a primeira analgesia que amenizou as minhas dores e conseguimos dormir um pouco para recuperar o fôlego das contrações. Após 12h de trabalho de parto, nascia a minha Beatriz com 2,740kg e 49cm.





No meu plano de parto, eu escrevi que gostaria que ela viesse direto para o meu colo e ficasse comigo por mais ou menos uma hora, que ela pegasse meu peito e eu a estimulasse a mamar, criando a conexão necessária nestes primeiros momentos tão importantes da vida dela. E que eu a namorasse por horas. Não queria que a levassem de mim e pedia, se possível, que os primeiros procedimentos pediátricos fossem realizados com ela ainda no meu colo. Também não queria que a aspirassem se não houvesse necessidade. Nada de procedimentos invasivos. Queria que seu cordão umbilical fosse cortado após parar de pulsar e que meu marido, pai dela, o fizesse. Gostaria que fossem realizados nela somente os procedimentos realmente necessários e que ela fosse tratada com muito carinho e delicadeza, pois era nosso bebezinho frágil que acabara de nascer.

Não queria que dessem banho nela nas primeiras 24h para que permanecesse com o vérnix para sua proteção. E o seu primeiro banho seria dado por mim e pelo Rodrigo. Queria que o pai indicasse a primeira roupinha de nossa filhinha e que fosse levada para ser apresentada aos familiares e amigos. Queria que ela fosse alimentada apenas pelo meu leite, sem nenhuma oferta de outro alimento ou chupeta. Queria que ela ficasse o tempo todo comigo e com o pai dela. E queria, acima de tudo, que ela viesse com toda a saúde possível. Nada disso aconteceu. Nada.

Ela quase não ficou no meu colo após seu nascimento. Ela foi aspirada, seu cordão foi cortado às pressas e não teve tempo de parar de pulsar. Inúmeros procedimentos invasivos foram feitos nela, todos necessários, lógico, mas tão grandiosos diante daquela recém-nascida que chegara em meus braços, pequenina e frágil. Ela ficou por muito pouco tempo comigo, sempre quietinha, não chorava, mas seu coraçãozinho batia forte à espera de muitas outras batidas que viriam. Só que não.

Ela não ficou todo o tempo comigo nem com o pai dela, eu mal a tive nos braços, eu mal pude beijá-la. O Rodrigo não indicou sua primeira roupinha, não a vestiu, não a levou ao vidro. Ninguém a levou ao vidro. E isso é uma das coisas que mais me dói. Ninguém a viu com vida, ninguém tirou foto com ela, ninguém a viu do jeito que eu tinha sonhado e planejado.  Nem os avós maternos, nem a sua dinda, nem as amigas da sua mãe. Todos estavam ali, bem pertinho à sua espera, mas sem poderem vê-la. Naquele instante, me dei conta de que iniciávamos uma nova jornada que não havia plano, treinamento ou curso que nos preparasse para o que enfrentaríamos. Ninguém nos disse o que fazer se minha filha tivesse dificuldade de respirar. Ninguém explicou como é ter um filho na UTI. Nunca foi dito como seria se perdêssemos o bebê. Eu não sabia nada. Eu estava sozinha. Eu era só vazio, espera e oração.

Depois que ela faleceu, minha família, meus amigos e eu ficamos em choque. Nunca tínhamos escutado que algo assim poderia acontecer com uma gestação bem acompanhada e assistida, num parto sem intercorrências e sem problemas de saúde ou má formação detectados antes e após o óbito. O hospital investigou, consultei outros médicos, ninguém identificou uma causa determinada. Sabe-se que 2% dos óbitos neonatais não possuem uma causa especificada. Caí na estatística. Por isso é tão chocante, revoltante e incompreensível porque você não tem uma resposta definitiva para levar para casa.


A maioria das mães que conheci nesta jornada perderam seus filhos de parto normal. Eu tive parto normal, pois minha gestação foi perfeita, trabalho de parto perfeito, tudo certo. Fomos até 42 semanas, gestação a termo, mas minha filha não conseguiu respirar. E quero deixar claro que investigamos a fundo e esta fatalidade poderia ter acontecido numa cesariana, com 40 semanas ou sem mecônio terminal. Sei de outras mães que vivem situações mais graves e tristes por negligência ou descuido, mas não foi o meu caso. Não tem culpados na minha história. Graças a Deus!"







Se você tem uma história tocante como essa da Camila e quiser compartilhá-la , escreva pra gente! :)


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