sexta-feira, 23 de outubro de 2015

PERDAS GESTACIONAIS



Quando fazemos um teste de gravidez e o resultado dá positivo... quanta emoção! Preparamos uma surpresa pra família e depois saímos contando pra todo mundo! E, a cada etapa da gestação, fazemos novos planos: pensamos no nome pro bebê, idealizamos o enxoval, o quartinho, o parto...

Mas, infelizmente, a realidade não é essa para todas as mães. É claro que esperamos que tudo corra bem, pois uma evolução favorável da gravidez e do parto é o evento mais comum. Porém, algumas mulheres perdem seus bebês em alguma etapa desse processo. Trata-se de um luto doloroso e que, muitas vezes, precisa de ajuda para ser processado.

No dia 15 de outubro, postamos AQUI nossa homenagem às mães que sofreram esse tipo de perda.

Hoje, a psicóloga Renata Duailibi e a médica Ana Maria A. Lana, compartilharam um texto conosco, que se segue:







Por que falar de perda gestacional num blog de maternidade e gestação? Porque perdas existem e são mais comuns do que imaginamos e, justamente, por não ser o tipo de assunto que se conversa nas rodas de gestantes.

A perda gestacional, termo que inclui desde o aborto precoce até o óbito perinatal – ou seja, a morte do bebê pouco antes, durante ou depois do parto – é um evento frequente, que afeta milhões de famílias anualmente em todo o mundo. No entanto, o luto que se segue é comumente experienciado como o chamado “luto não-autorizado”, pouco reconhecido e não-validado, mesmo entre os profissionais da saúde e na própria sociedade. 

O que decorre de um aborto precoce ou de uma perda na qual a experiência não pode ser concretizada (por exemplo, através de funeral ou qualquer ritual que ajude a simbolizá-la), pode se assemelhar ao luto de outras perdas tidas como significativas. 

A perda gestacional não é mais considerada um “não-evento”, como o foi no passado. Entretanto, os casais ainda são muito pouco encorajados a expressar adequadamente a sua dor, tanto pelos profissionais quanto pela sociedade, os quais aceitam e estimulam o estabelecimento precoce do vínculo afetivo durante a gestação, mas, ao mesmo tempo, são insuficientemente preparados para fornecer apoio específico em caso de perda. 

O impacto da perda gestacional pode ter efeitos duradouros na mulher, no casal e na família como um todo. Além de experienciar sentimentos de “vazio”, culpa, raiva e tristeza, a mulher pode tender a se isolar e desenvolver ansiedade, sintomas físicos e até depressão e síndrome de stress pós-traumático. 

A intensidade e a duração do luto mostram algumas diferenças relacionadas a variáveis diversas como a idade materna, grau de fertilidade e perdas anteriores, entre outras.

O suporte emocional à perda gestacional ainda é discutido, havendo estudos – inclusive de metanálise – que mostram resultados inconclusivos quanto à melhor abordagem. Atividades criativas de vários tipos se mostram eficazes na elaboração dessa forma de luto. Trabalhos sobre processo de luto mostram a importância de o aconselhador/terapeuta ser um ouvinte criativo, principalmente na fase aguda, quando a cliente necessita de ajuda para simbolizar a experiência, sem julgamento ou diretividade. 

Na nossa experiência profissional, percebemos claramente a demanda de mães e casais com relação a intervenções que, necessariamente, incluem empatia e consideração incondicional como base do aconselhamento ou da terapia, quando indicada. Atividades criativas de vários tipos também se mostram muito eficazes na elaboração dessa forma de luto. Além disso, redes sociais na internet já existem para abrigar e informar os casais que buscam apoio.

Fazemos parte de um grupo de apoio a perdas gestacionais, e um dos nossos objetivos é dar visibilidade ao tema e voz àquelas que passaram pela experiência. Uma das ações propostas, já iniciada, é a instituição do Dia Nacional de Sensibilização da Perda Gestacional, proposto para o dia 15 de Outubro, como já acontece em alguns países do mundo.




Créditos na imagem



O Visão de Ilitia se solidariza com todos aqueles que já sofreram uma perda dessa natureza. Saibam que vocês não estão sozinhos. Apoiem-se em suas famílias, amigos e pessoas que tiveram experiências semelhantes. E, quando necessário for, procurem ajuda em grupos de apoio e/ou profissionais habilitados. 




Ana Maria A. Lana - Médica, musicoterapeuta com formação em Abordagem Centrada na Pessoa, no Instituto Humanista de Psicoterapia. Professora aposentada da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG


Renata Duailibi - Psicóloga clínica, especialista em Psicologia Hospitalar e Tanatologia. Psicóloga do Núcleo Bem Nascer, Belo Horizonte, MG

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