quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Rafael, um pai Tigre e sua luta. Trombose na gestação.

Está cada vez mais comum a participação ativa dos homens no pré-natal. E eles são curiosos, cuidadosos e preocupados. E em algumas situações vemos a transformação de meninos em verdadeiros pais de família. Se as mães são chamadas de leoas, eles são os verdadeiros pais tigres. Aqui vamos contar a história do casal Rafael e Renata na visão do Rafael, nosso pai tigre de hoje.


“Era dia 04 de agosto de 2012, mamãe Renata estava em casa enquanto eu trabalhava. Por telefone, ela me disse que iria ao Centro da Cidade comprar algumas coisinhas. Cerca de 40 minutos depois, a Rê me ligou e disse, chorando, que sua perna estava incomodando muito e que ela não conseguia  nem continuar em pé. Pedi encarecidamente que ela repousasse, que ficasse deitada o tempo todo, até que eu pudesse chegar em casa.


Havia um semana que a Rê já vinha apresentando um inchaço grande nas pernas. Esta situação causava um incômodo que foi piorando ao longo dos dias. Inchaço na gravidez é super normal, não é mesmo? Mais ou menos...


Quando saí do trabalho, já no táxi, pedi que a Rê fosse se arrumando. Nós tínhamos um show marcado para aquele dia. Estávamos atrasados! Assim que cheguei em casa, antes de qualquer coisa, pedi para que ela me mostrasse como estavam suas pernas. Levei um susto quando percebi que o inchaço estava bem maior que no dia anterior. Aquela situação não me parecia normal. 


Decidimos, então, ligar para a médica obstetra (e anja - que acompanhou o pré-natal do nosso bebê). Comentamos que o inchaço era em apenas uma das pernas e ela nos mandou procurar IMEDIATAMENTE a maternidade. Me lembro como se fosse hoje... ela dizendo: “É unilateral? Vá agora pra maternidade para examiná-la”.




Chegamos à maternidade: ultrassonografia de emergência. Tensão. Mãos dadas aguardando a médica que, rapidamente, chegou. O exame mostrou um neném mexendo muito e saudável. Coraçãozinho batendo normalmente. Pronto, foi só um susto. Me senti aliviado. No entanto, a médica que nos recebeu, nos orientou a procurar alguma clínica, pois havia a possibilidade daquele inchaço significar uma trombose.



Tensos novamente, voamos para a emergência de um hospital reconhecido aqui no Rio de Janeiro. Ao chegarmos,  a Rê foi examinada pelo médico de plantão, que solicitou um doppler da perna esquerda. Aguardamos mais um pouquinho, doppler feito, e a só tensão aumentava.


Já passava de 1h da manhã quando a médica obstetra chegou, também grávida, para nos dar assistência. O exame havia detectado uma trombose venosa profunda na veia ilíaca-femural da perna esquerda. Confesso que a discussão entre os médicos do hospital e a obstetra, sobre os riscos para o bebê e para a Renata, me assustaram e me deixaram um pouco sem ação. Ambos precisariam ficar internados... no CTI! 


O tratamento da doença, por meio de uma medicação subcutânea, foi iniciado imediatamente. Eu nem acreditava no que estava acontecendo. Deixei mamãe, grávida, frágil e triste, sozinha no hospital. Meu coração doía e eu não sabia o que pensar. Voltei pra casa.


A mamãe e nosso filho ficaram no CTI sozinhos por apenas algumas horas. De manhã cedo, lá estava eu mais uma vez, perturbando médicos e enfermeiras pra ficar do ladinho dos meus amores. Eu poderia ficar por lá, somente até às 22h. Depois disto, teria que abandonar o barco e voltar pra casa. 



Só que eu não me conformei (rs). Me escondia no ladinho da cama dela, e só aparecia depois das 23h. Quem é que teria a coragem de me mandar embora àquela hora? Então, acabei conseguindo dormir do ladinho dela, deitado numa dessas cadeiras nada confortáveis.


Os dias foram passando e já estávamos no CTI há 5 dias. Com o tempo, a medicação foi fazendo efeito e os médicos autorizaram a transferência para o quarto. Passaram-se 2 semanas desde o ocorrido e ficamos mais felizes e tranquilos. Aos poucos, mamãe foi autorizada a voltar a caminhar pequenas distâncias e, segundo os doutores, já estaria em condições de alta. 




Daí se seguiu uma nova batalha.


O tratamento que a Rê precisava cumprir, mesmo estando em casa, envolvia tomar uma medicação subcutânea 2 vezes ao dia. O medicamento tem efeito anticoagulante e chama-se Enoxaparina Sódica, na dosagem de 80 mg. Esse tratamento deveria permanecer até o momento do parto.


Considerando que ainda faltavam 3 meses de gestação, minha preocupação imediata foi adquirir o tal medicamento para que eles pudessem voltar pra nossa casinha. Rápido! Comecei a tentar identificar o preço da medicação e me assustei: R$ 300,00 a cada 2 doses. Putz... São 2 doses por dia. Nem fiz as contas e já me desesperei. Mamãe e Rafinha nem imaginavam da preocupação do papai naquele momento. Algumas pessoas me falaram da possibilidade de conseguir o fornecimento do tratamento pelo plano de saúde. Tentei fazer isso através da minha empresa e, nada! Procurei um advogado. Os custos dos horários advocatícios: R$ 5.000,00. Estava ficando difícil. 


Já eram alguns dias de busca, quando decidi ir até o plantão judiciário, que começa às 18h no Fórum. Trabalho sério! Defensores e Juízes de plantão para resolver casos urgentes. Infelizmente, não era o nosso caso. E por isso, não consegui resolver muita coisa... 


No dia seguinte, procurei a Defensoria Pública para tentar alguma ação contra o Governo do Estado ou Município (é direito de todo cidadão, segundo eles). Colocamos uma ação nestes moldes. A médica obstetra juntamente com um grande médico e especialista em Gravidez de Risco Dr. Guilherme de Jesus pesquisaram e disponibilizaram vários artigos com embasamento médico-científico comprovando o risco da não utilização do medicamento mencionado ou substituição do mesmo por um de via oral. Orçamentos comprovaram o valor do remédio, a quantidade que ela deveria usar e o laudo da estimativa de alta do hospital.  


O veredito deveria sair em 5 dias. Porém, ao dar uma olhada no site do TJ, vimos que o prazo  havia sido postergado para 15 dias. Quinze dias?!! Não era possível!


A alta estava programada para o dia seguinte e nada dos remédios. Nossos amigos se reuniram e conseguiram parte da medicação. Fui novamente a Defensoria Pública para tentar descobrir o que havia acontecido. Eu não poderia desistir!



Os problemas iam surgindo, mas eu só conseguia pensar na felicidade e no bem estar da minha família. Isso me dava uma força incrível!  Hoje, olhando para trás, vejo que eu nunca havia me sentido assim! E olha que eu nem tinha visto a carinha dele ainda! Um amor que eu não havia experimentado antes! Era só saber que ele já existia e esse sentimento preenchia o meu coração.

 

Continuamos a batalha: terceiro dia de Defensoria Pública, foi também o dia mais cansativo. Cheguei lá para reclamar dos tais 15 dias de prazo. Não era possível que aquele pessoal não tenha visto a data de alta! Nosso processo estava na 10a Vara de Fazenda Pública, e o atendimento por lá só aconteceria às 13h. Por que ninguém me avisou isso antes?! Resignado, fiz a minha fichinha e voltei para o hospital, para continuar tentando de alguma outra forma a medicação.


Liguei para várias pessoas, tentei comprar algumas ampolas, mas não havia estoque, e eu não consegui nenhum vidrinho sequer. Justo no dia que ela receberia alta...


Mas deu às 13h e eu voltei ao centro da cidade, para enfrentar aquela fila de novo. Nessa fila pude ver a quantidade de pessoas que necessitam de medicação e precisam recorrer à justiça! Gente, vocês não sabem o que é aquilo! Tem muita gente que precisa meeeesmo de medicamento... É criança, é deficiente, são idosos com listas e mais listas de processos reclamando por medicação. Eu, precavido, levei uma revista e fiquei quietinho, no meu canto, só esperando. Esperar era a única coisa que eu poderia fazer naquele momento. Até que chegou a minha vez.


Fui chamado pelo estagiário responsável pelo meu caso. Descobrimos que eu precisaria trazer outro laudo médico pra confirmar informações que já haviam sido enviadas anteriormente - a data da alta e o risco de não se tomar o medicamento. Questionei sobre a documentação que eu já havia enviado e foi, então, que ele me disse que só para buscar essa documentação, o processo já atrasaria mais um dia. 


Não pensei duas vezes. Peguei o metrô e voltei para o hospital onde estava a médica obstetra da Rê. Ela prontamente preparou a documentação e eu voltei para a Defensoria. Fui direto no meu estagiário preferido, assinei o que tinha que assinar e descemos juntos pra enviar o processo direto para o juiz. O pedido era, basicamente, uma Antecipação Tutelar do medicamento para o curto prazo, e depois o processo seguiria normalmente com o tal prazo dos 15 dias. 


Ufa!!! Tive a sensação de que demos uma grande passo para conseguirmos a medicação. Faltava agora o deferimento do juiz que deveria ser acompanhado pela internet. Poucos minutos após saiu o deferimento real do juiz. Ótimo! A Secretaria de Saúde (réu) teria 7 dias pra nos fornecer o remédio ou o valor, em grana, para que a gente pudesse comprá-lo. Agora era só esperar e rezar para que não demorasse esse tempo todo! De todo jeito, fiquei muito agradecido pelo esforço do Estagiário!!!! Estagiário com "e" maiúsculo!


Ficamos no hospital até a liberação dos medicamentos, que eram retirados diretamente no Ministério da Saúde na quantidade exata a ser utilizada durante aquele determinado período. Tudo deu certo graças a Deus! Agora era só esperar pelo parto.



O PARTO


O parto foi um momento de muita tensão para todos nós. A Renata precisava parar de utilizar o anticoagulante um período antes do parto, para reduzir o efeito e o risco de sangramento. A data do parto foi, então, agendada.  





Apesar de toda tensão, tudo transcorreu da melhor maneira possível e o nosso maior medo, que era o risco de hemorragia, graças a Deus não aconteceu! 





Passado um tempo, a Renata voltou a tomar o anticoagulante, só que agora em comprimido oral. O Rafinha vai fazer 3 anos e nós consideramos um grande milagre nada ter acontecido com ele. Muitas famílias só descobrem a trombofilia após a ocorrência de alguns abortos. 



Hoje a mamãe faz exames regularmente, toma medicação diária e acompanha o INR (tempo de atividade da protrombina), um exame que indica a tendência de coagulação do sangue. Eles permanecem estáveis e logo quem sabe poderemos começar a planejar um irmãozinho pro Rafinha. Será mais uma grande luta, eu sei. Mas valerá muito a pena!”


Nota do Visão de Ilitia: Quer saber mais sobre Trombose na gestação ? Convidamos o Dr. Guilherme de Jesus, Professor de Obstetrícia da Universidade do Rio de Janeiro e Médico Obstetra do Instituto Fernandes Figueira - FIOCRUZ, para falar sobre o assunto no próximo post. Aguardem !

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