segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Uma História Real

Era uma vez, uma menina de seis anos. Magrinha, joelhos pontudos, canelas finas, olhos de jabuticaba, cabelos cacheados. Inteligente. Aprendera a ler muito cedo. Adorava estudar.

Ela morava numa vila, às margens da BR, junto à favela. Ali tinha de tudo: esgoto a céu aberto, tráfico, prostituição. Um cenário propício para que ela se tornasse alguém igual aos que a cercavam.

Créditos na imagem


Mas seus pais tinham outra visão. Eles abriram mão de uma casa melhor e de outros bens para investir em sua educação e da sua irmã. Seu pai praticamente a prendia dentro de casa, para que ela não pudesse ter contato com o submundo das drogas e da prostituição.

Sua mãe a inscreveu num teste de um famoso e conceituado colégio da cidade, que tinha como objetivo dar bolsas de estudo para os mais bem classificados. E não é que a pequenina conseguiu? Bolsa integral! Mas a mãe nunca contara pra ela que era gratuito. Dizia que era bolsa parcial, para que a menina desse mais valor, para que se esforçasse mais, achando que os pais estavam pagando por esse privilégio.

Porém, havia outros gastos. Material escolar, transporte, uniforme, merenda. Muito sacrifício para os pais pobres. Eles mal tinham dinheiro pra comprar mochila. A menina levava seus livros dentro de uma sacola de feira. Sua merenda era simples. Seus calçados, farrapos.

Num colégio frequentado pela elite da cidade, é fácil imaginar que essa pequena sofreu muito bullying. Os coleguinhas apontavam pra ela na hora do recreio, rindo e cochichando. As mães a dirigiam olhares tortos e críticos, julgando-a.

No primeiro contato, nas aulas de Ciências, com lições sobre o corpo humano, a menina descobriu sua vocação: Quero ser médica, ela disse. E se esmerou pra isso. Sempre estava entre os três primeiros alunos da escola. Na época de prestar vestibular, seus pais disseram: “Minha filha, você precisa passar na Universidade Federal. Não temos condições de pagar uma particular. E tem que ser aqui, pois não podemos te sustentar em outra cidade.”

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-sistema-cardiovascular/imagens/anatomia-do-coracao.jpg


A mocinha, agora com seus 16 anos, estudou com afinco. Abriu mão de noites de sono, de finais de semana e feriados, de momentos com amigos e família. E conquistou uma vaga na Universidade Federal! Daí em diante, foram seis duros anos de estudo e dedicação. Aulas em tempo integral. Nem tinha como trabalhar para ajudar a família. Mais sacrifícios...

No quinto ano da Faculdade, a moça se encantou por uma das disciplinas: a obstetrícia. Que coisa mais linda poder participar do momento mais importante de uma família! Cuidar da gestação e do parto de um novo ser!

E assim foi. A nossa protagonista iniciou a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia. Como agora ela ganhava bolsa do MEC e seus pais tinham uma renda melhor, eles resolveram financiar uma casa num bairro mais decente. Ufa!

E, depois de mais três anos, ela terminou sua residência, com especialização em Medicina Fetal. E é preceptora, há 12 anos, no hospital da mesma Universidade que a formou. Ensinando e propagando ciência, conhecimento e ética. Além de amor e respeito ao próximo.

http://www.venelogia.com/uploads/2010/obstetricia_opt1.jpg


Essa história é real. A menina sou eu, uma médica desse blog. Esse é o meu relato. Cada um que ler vai interpretar de uma forma e tirar dele a lição que mais lhe convier.

No que diz respeito à proposta desse blog, vejo uma coisa muito clara, aqui: informar, conscientizar, amparar e não julgar. A menina não foi influenciada por aquilo que era comum e sedutor à sua volta. Ela foi guiada pela razão. Apoio, consciência e informação foram fundamentais. E também não temeu ser julgada, pois estava amparada. Reflitamos e até o próximo post!



2 comentários:

  1. Raquelzinha, perfeito. Parabéns! Pela força, luta, pelo blog, pelas vitórias (e pelas derrotas, elas fazem de nós pessoas melhores), pelo exemplo, pela alegria de ser médica e de ser gente com "g" maiúsculo!

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  2. "Não foi influenciada pelo que era comum e sedutor à sua volta.Ela foi guiada plea razão." PERFEITO!!!

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