domingo, 1 de novembro de 2015

Denúncia!

Criamos este blog pela necessidade de falar, da forma mais adequada e imparcial possível, para gestantes, sem nos posicionarmos no meio da guerra de parto normal X cesariana.
Dar voz às mulheres que não tinham espaço para contar seus relatos.
Então, nos deparamos com uma denúncia que se encaixa no nosso sentimento pela busca para o melhor atendimento às mulheres: a falta de actinomicina-D no Brasil. Uma droga usada para tratamento de Neoplasia Trofoblástica Gestacional. Uma denúncia grave, feita por um médico que mais estuda, entende e trata mola no país: o Dr Antônio Rodrigues Braga Neto.

A doença trofoblástica gestacional é um termo aplicado a um espectro de doenças originadas do sítio trofoblástico (placenta), que inclui as molas completas, parciais e invasivas, além do coriocarcinoma. As molas são, na maioria das vezes, decorrentes de um produto geneticamente anormal da fecundação, gerando um feto malformado e uma placenta anômala (mola parcial), ou nem chega a formar um feto, somente a placenta defeituosa (mola completa). Cerca de 80% das molas são benignas, mas podem se comportar como um tumor maligno, invadindo órgãos e causando metástases (câncer/neoplasia).

http://slideplayer.com.br/slide/1269550/

"Só quem vive e passa por isso sabe o quanto é sofrido desde o diagnóstico confirmado até o fim do tratamento. Só quem luta diariamente contra o câncer sabe exatamente o quanto é desesperador você não poder ter um tratamento digno por falta de medicamentos.." 
Então, iremos colocar a denúncia na íntegra e pedimos aos nossos leitores que compartilhem mais este absurdo no Brasil!

"Denúncia! Não posso mais me calar!

Tenho que dividir com vocês, minhas flores trofoblásticas, as angústias que temos passado há um ano – afinal de contas, vocês são as maiores interessadas nesse assunto.
Há um ano, recebemos a péssima notícia de que o único laboratório que importava a matéria prima para fazer um dos mais importantes quimioterápicos para o tratamento da neoplasia trofoblástica gestacional iria descontinuar sua comercialização no Brasil.
Como todos sabem, as pacientes que tem gravidez molar cursam com um risco de evoluir para neoplasia trofoblástica gestacional – o câncer da placenta. 

Nesses casos, a quimioterapia apresenta excepcionais índices de cura, quando empregada de modo correto e por médico experiente no tratamento desses tumores.
 O primeiro quimioterápico a ser utilizado em quase todas as pacientes é o Methotrexate. Trata-se de um medicamento utilizado há mais de 50 anos, com mínimos efeitos colaterais, e, principalmente, sem provocar queda de cabelo (alopecia) – um grande temor de nossas flores. 
O Methotrexate é capaz de curar cerce de 80% das pacientes. As demais vão apresentar resistência ou toxicidade e deverão ser tratadas com outro quimioterápico.
 É aqui que começam os nossos problemas. O medicamento de escolha para essas pacientes, adotado em todo o mundo, é a Actinomicina-D – justamente o medicamento que um único laboratório comercializa no Brasil, e que decidiu suspender sua produção e venda.

O que alega esse laboratório? Que o medicamento é ultrapassado e que existem alternativas mais modernas para as pacientes.

A verdade meus amigos é que esse medicamento é muito barato e infelizmente insubstituível para alguns cânceres, principalmente um tipo de câncer infantil chamado rabdomiossarcoma e nefroblastoma (tumor de Wilms) e para vocês, minhas flores trofoblásticas.
Assim que descobrimos isso, a Sociedade Brasileira de Doença Trofoblástica Gestacional – órgão médico oficial que representa todos os Centros de Referência brasileiros que tratam mulheres com essa doença, procurou o Ministério Público Federal (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica, a Associação Médica Brasileira, e diversas outras instituições a fim de denunciar essa infâmia.

Tentamos contato também como esse laboratório, que ainda
teve a audácia de dizer que possui responsabilidade social... Mas, como vivemos em uma economia capitalista de marcado, apenas a lógica do lucro vale. Isso mesmo em detrimento do sofrimento das pessoas.
Após muitas discussões, inclusive sobre responsabilidades público-privada, o fato é que não há mais Actinomicina-D no Brasil, a despeito do compromisso do Ministério da Saúde de comprar remessas do medicamento em laboratórios estrangeiros para suprir a demanda a partir de agosto de 2015, até que outro laboratório nacional possa produzir o medicamento. Mas, como todos sabemos, as contas públicas estão em colapso: hospitais fechando, demissões, inflação... Com tanto dinheiro roubado, parece sobrar pouco para a Saúde... E há um silêncio nauseante sobre o tema... Eu não aguento mais: vou vomitar!!!  

http://amb.org.br/noticias/sobope-nota-oficial-possivel-falta-de-dactinomicina/
Esse medicamento custava cerca de 20 reais/ampola. Tenho uma paciente que está comprando 4 ciclos/16 ampolas (que no Brasil custaria 400 reais) na Argentina por 20 mil reais, 50 vezes mais caro!!! 
E outra paciente de São Paulo estava tentando importar dos Estados Unidos, a mesma quantidade de 16 ampolas, pelo valor de 150 mil reais... Desistiu, e parece que vai partir para a Argentina...
Não bastasse o diagnóstico de câncer, nossas pacientes ainda estão tendo que passar por esse problema. 
Qual a alternativa? Estamos utilizando um medicamento eficaz, mas com maiores efeitos colaterais, chamado Etoposide. Nesses casos, é muito comum a queda de cabelo, sem contar o risco futuro de desenvolver leucemia, a depender da dose total acumulada do Etoposide.
 E por que nossas mulheres estão passando por isso? Por dinheiro, ganância e insensibilidade...

O problema não para por ai... 
Nos casos mais graves dessa doença, os principais regimes

quimioterápicos com múltiplos agentes (como o EMA-CO e o
EP/EMA), utilizados no mundo inteiro, contem em sua composição a Actinomicina-D. 

Ou seja, esse medicamento é fundamental para os casos mais graves da neoplasia trofoblástica gestacional.


Em 15 dias, a diretoria da Sociedade Brasileira de Doença
Trofoblástica Gestacional voltará a Brasília para tratar com as “autoridades” sobre essa grave questão.

Enquanto isso, somente no Rio de Janeiro, tenho nesse
momento 5 mulheres e famílias sofrendo com isso. No país todo, são inúmeras... Isso sem contar as cerca de 700 crianças com câncer que estão precisando desse
medicamento e não tem...

E isso é apenas a ponta do iceberg que me pertence, pois eu me sinto responsável pelas mulheres brasileiras com doença trofoblástica. 

Mas esse problema se repete na Medicina como um todo. Falta penicilina para tratar a sífilis, e nunca tivemos tantos casos de bebês que morrem de sífilis em gestantes... E vai tentar comprar espiramicina para tratar toxoplasmose?... Não vai achar... 

Qual o denominador comum desses medicamentos: o preço baixo e seu emprego em doenças negligenciadas – pelo geral acometendo mulheres simples, muitas desvalidas – que só tem a nós para cuidar e gritar por elas.
 Eu grito! “Ouvi o grito, que sai do chão, do oprimido em oração”... O meu sentimento: tristeza, revolta, indignação e nojo! Não vamos desistir! Vamos lutar! 

Sabemos que estamos em desvantagem frente aos pesados interesses econômicos aqui envolvidos. Mas quero externar minha solidariedade a vocês, mulheres com Neoplasia Trofoblástica Gestacional, que estão recebendo Etoposide no lugar da Actinomicina-D porque pessoas querem aumentar o lucro de empresas.
Rogo ainda, e por fim, ao Deus da Justiça, “um Deus com rosto de Mãe”, que toque esses corações insensíveis e conforte nossas mulheres e crianças que sofrem com os efeitos dessa quimioterapia mais forte.

Será que o compartilhamento desse post causaria algum constrangimento às autoridades (políticas e econômicas) envolvidas nessa questão? Ou na lama em que vivemos, vergonha na cara é algo fora de moda?"
 



Dr. Antônio Rodrigues Braga Neto

Professor de Obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Professor de Obstetrícia da Universidade Federal Fluminense
Pós-Doutor pela Harvard Medical School (Boston, USA)
Pós-Doutor pelo Imperial College of London (Londres, UK)
Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Obstetrícia pela Universidade Estadual Paulista
Diretor da Sociedade Brasileira de Doença Trofoblástica Gestacional


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