terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sensibilidade e Humanização: Entrevista com Rodrigo Pederneiras - Grupo Corpo

A Arte (do latim Ars, significa técnica, habilidade) é o conceito que engloba todas as criações realizadas pelo ser humano para expressar uma visão/abordagem sensível do mundo. Através de vários recursos, a arte permite expressar idéias, emoções, percepções e sensações. Cria-se um vínculo emocional entre a expressão do artista e o admirador.

Trazendo a analogia para o campo de assistência à saúde, o conceito de “cuidar” deve envolver técnica e habilidade, requer sensibilidade e exige o vínculo de confiança entre o assistente e o paciente.

Infelizmente, há profissionais sem ética ou formação adequada, que disseminam informações distorcidas, muitas vezes atacando e criticando outros colegas da área de saúde.

Na obstetrícia, uma enxurrada de informações inunda a cabeça das gestantes, que ficam desorientadas, mas acabam se deixando seduzir pela idéia da glamourização, protagonismo e romantismo do parto, algumas vezes em detrimento da sua segurança e do bebê.

Tendo isso em vista, tivemos a oportunidade de entrevistar Rodrigo Pederneiras, diretor uma das mais respeitadas companhias de dança do mundo, o Grupo Corpo, cujos espetáculos invariavelmente são descritos, tanto pela crítica especializada, quanto pelo público em geral, como extremamente sensíveis, inesquecíveis e profundamente emocionantes, tal como supomos que todas as gestantes gostariam que fossem seus partos.


  
VISÃO DE ILITIA: Para induzir determinadas reações emocionais no público, muitos artistas costumam explorar técnicas bem conhecidas, basicamente as mesmas usualmente utilizadas em comícios e propagandas. O trabalho do Grupo Corpo, no entanto, prima pela pureza artística e, portanto, pelo caráter genuíno da emoção transmitida ao público. Esse tipo de emoção atinge o expectador em sua intimidade, assim desencadeando sensações individuais, e não em massa. Isso também acontece com os bailarinos e demais profissionais envolvidos, ao longo do processo de criação dos espetáculos?

RODRIGO PEDERNEIRAS: Todo trabalho que fazemos depende de como as idéias serão estruturadas dentro do processo criativo. Existem momentos em que a estrutura imaginada não chega a um resultado esperado, seja ele estético ou emocional, o que nos leva a uma busca incessante até que se chegue a um termo que nos agrade. Nesses momentos de tentativa existe uma grande colaboração por parte dos bailarinos e quando chegamos a um ponto satisfatório a sensação geral é de grande alegria. Por outro lado, quando as idéias acontecem como foram idealizadas, é possível sentir uma boa dose de emoção tanto nos intérpretes que participam da cena, quanto nos que apenas assistem. Sempre existem cenas que tocam mais algumas pessoas que outras. É algo muito individual.




VISÃO DE ILITIA: Quem busca atendimento em uma unidade de saúde, geralmente deposita todas as expectativas na atuação do médico. Médicos trabalham na linha de frente, ou seja, eles são aquilo que os pacientes vêem. Da mesma forma, quem vai ao teatro costuma focar toda a atenção somente nos artistas que estão no palco. Você poderia nos contar um pouco sobre a atuação dos demais profissionais envolvidos na produção, e sobre a estrutura necessária para o sucesso de um espetáculo?

RODRIGO PEDERNEIRAS: Todo bom espetáculo depende da atuação de uma equipe técnica qualificada além da utilização de equipamentos de qualidade como iluminação, som, cenografia, piso adequado e também uma sala de espetáculos bem projetada. Normalmente o expectador não faz idéia da estrutura que existe por trás de um espetáculo do Grupo Corpo. Temos uma equipe técnica de 6 pessoas altamente treinadas e capacitadas que é responsável pela montagem de toda a cena, juntamente com a equipe técnica de cada teatro. São de 10 a 12 profissionais que trabalham durante 2 dias, de 12 a 14 horas por dia, para que a estréia aconteça. Além do mais, como grande parte de nossos espetáculos são feitos no exterior, todos falam inglês e alguns, além do inglês, francês, espanhol e alemão. Só nos apresentamos em teatros que possuam requisitos técnicos aceitáveis.





VISÃO DE ILITIA: Os médicos brasileiros têm sofrido com a falta de estrutura dos hospitais públicos, bem como com a demanda excessiva do SUS, o que muitas vezes os obriga a agilizarem os atendimentos. Por consequência, a relação médico-paciente tem se deteriorado. O número de ameaças e agressões a médicos tem aumentado assustadoramente, gerando nestes um comportamento algo defensivo, além de um sentimento bastante pessimista em relação aos rumos da medicina no Brasil. Os pacientes, por sua vez, tendem a procurar outras  alternativas, ditas mais "humanizadas", de assistência à saúde, para suprir suas expectativas emocionais, não raro ignorando os riscos inerentes a estas escolhas. O espetáculo "Dança Sinfônica" nos chamou a atenção pela clara representação artística da humanização, perceptível no acolhimento de uma das bailarinas pelos demais, que a carregam e a acalentam durante toda a evolução da coreografia. Na visão de um artista, qual é o real sentido da humanização?

RODRIGO PEDERNEIRAS: Tenho dito em minhas últimas entrevistas acreditar fortemente que a arte contemporânea precisa ser humanizada. O grande poeta Ferreira Gullar disse uma vez que "a arte existe porque a vida não é suficiente". Precisamos da arte para nos completar, nos entender melhor e creio que esse processo passa pela humanização do que criamos. O que realmente importa são as pessoas. Humanizar é finalmente a utilização de todo conhecimento e todos os recursos disponíveis para a melhoria da vida.

VISÃO DE ILITIA: Você considera mais importante definir um protagonista específico para cada espetáculo ou trabalhar o protagonismo individual de cada bailarino, para atingir o resultado final?

RODRIGO PEDERNEIRAS: O protagonismo às vezes acontece por situações ou temas que são abordados e que tenham maior proximidade com este ou aquele intérprete, mas são situações relativamente raras nos trabalhos do Grupo Corpo. Costumamos dizer que todos são primeiros bailarinos.



VISÃO DE ILITIA: A maioria das gestantes sonha intensamente com o momento de dar à luz. É natural que idealizem a cena. No entanto, os profissionais envolvidos devem sempre evitar que tal idealização atinja níveis fantasiosos, justamente para que a realidade não as decepcione. O objetivo de um obstetra responsável não consiste em substituir a emoção pela técnica, tampouco em roubar a cena das gestantes, mas sim em promover a saúde, para que todas possam sair da sala de parto prontas para exercer a sublime experiência da maternidade. Gostaria que você nos falasse sobre a importância da técnica na dança. Suponho que um espetáculo artístico também dependa disso, certo?

RODRIGO PEDERNEIRAS: A técnica na dança e em qualquer forma de arte como música, teatro , pintura , escultura, etc. é fundamental para se atingir a emoção , criar novas sensações, beleza; para confundir, arrebatar, abrir novas janelas e criar novas perspectivas. Sem a técnica, acredito fortemente, nada se desenvolve de forma consistente. Conhecimento é fundamental.


A equipe do blog Visão de Ilitia gostaria de agradecer imensamente ao Rodrigo Pederneiras pela boa vontade em nos ceder esta entrevista. Esperamos que, através de suas palavras, os profissionais da saúde desenvolvam e valorizem técnica, conhecimento e trabalho em equipe. E que muitas gestantes possam compreender que a essência da maternidade não se resume em uma única cena (vejam o texto Parto Ideal x Parto Real, aqui no blog), bem como perceber em seu depoimento o amor genuinamente maternal com o qual ele tem conduzido o Grupo Corpo ao longo desses 40 anos, emocionando o mundo inteiro com seus espetáculos. Nossos sinceros aplausos pelo seu magnífico trabalho. Um grande abraço, saúde e sucesso!

Nota: o espetáculo "Dança Sinfônica", mencionado nesta entrevista, tem como cenário um belíssimo painel reunindo mais de mil fotos de todos os profissionais que trabalham ou já trabalharam na companhia. Embora a platéia não possa distinguir cada um destes personagens, acreditamos que o simbolismo deste cenário traduz a emoção dos próprios artistas e, por consequência, a beleza do espetáculo. A união e o profundo respeito entre todos os envolvidos em um determinado evento constituem, sem dúvidas, a base de uma equipe humanizada. Vale a reflexão.


3 comentários:

  1. Belíssima entrevista. Parabéns!
    Eliana Caminada

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  2. Parabéns,pela entrevista e por tudo q faz!Foi um prazer muito grande ter te conhecido,e ter participado cantando em Onqotô.

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  3. Esqueci de por meu nome Greice Carvalho.

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