quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O QUE TORNA UM MÉDICO UM BOM MÉDICO?



Um médico e professor de Harvard chamado Ashish K. Jha fez uma postagem em seu blog, An Ounce of  Evidence, que foi bastante compartilhada nas redes sociais recentemente. O título do post foi: What makes a good doctor, and can we measure it?, o que em português significaria algo como: o que torna o médico um bom médico e podemos quantificar isso?

Na última década, os indicadores de qualidade foram se aperfeiçoando e ganhando espaço na área da saúde. Há alguns anos atrás, se você perguntasse a um "expert" em determinado assunto da medicina como definir um bom médico, provavelmente, ele descreveria habilidades técnicas, conhecimentos científicos e resultados, todos baseados nas evidências científicas mais atuais sobre o tema.

Mas será que, pela visão dos pacientes, a resposta seria a mesma?

Ashish Jha, então, lançou a seguinte pergunta em seu twitter: "Em apenas uma palavra: o que torna um médico um bom médico?"





E recebeu mais de 200 respostas. Veja o resultado obtido no gráfico abaixo:



Obviamente que esse tipo de pesquisa não possui nenhum valor científico, mas o resultado foi bem interessante: competência/eficiência apareceram apenas em 5° lugar ficando atrás de valores como empatia (1° lugar) e saber escutar (2° lugar).

Ashish Jha suspeita que, apesar de ter realizado uma consulta no twitter, esse resultado pode refletir o que a população em geral deseja. Ele acompanhou as discussões desencadeadas a partir da sua pergunta e pôde perceber que a maioria daquelas pessoas acredita que os médicos possuem um limite de inteligência, de conhecimento e de julgamento e, portanto, o que diferencia os bons médicos dos médicos medíocres são os detalhes.
 
E pra você? Em apenas uma palavra, o que torna um médico um bom médico?

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PARTO HUMANIZADO - ENTREVISTA COM A DRA. ANA CRISTINA RUSSO


O QUE VOCÊ CONSIDERA UM PARTO SEGURO E TRANQUILO?

O parto seguro e tranquilo é o parto com respeito, acompanhado por profiss
ional capacitado e em ambiente com estrutura.

O parto com respeito exclui qualquer tipo de violência física ou verbal e inclui a autonomia da gestante para fazer escolhas, como o ambiente, a melhor posição durante o trabalho de parto e o parto, se deseja acompanhante ou doula para suporte emocional; se quer anestesia ou medidas não medicamentosas para alívio da dor, se quer parto vaginal ou cesariana.


Existe gestação de baixo risco, mas não existe parto de baixo risco. Qualquer parto, mesmo de gestação saudável, pode apresentar complicações imprevisíveis, algumas revertidas por procedimentos cirúrgicos.

A segurança do parto inclui o acompanhamento adequado por equipe capaz de diagnosticar e reverter imediatamente eventuais complicações.
 

O profissional mais capacitado para diagnosticar e o único capacitado para reverter todas as complicações do parto é o médico. Logo, a segurança no parto requer médicos na equipe e ambiente hospitalar (centro cirúrgico, laboratório, medicamentos, banco de sangue).


O QUE É HUMANIZAÇÃO?

A assistência ao parto precisa associar técnica e apoio emocional. Toda assistência que tem o foco apenas na técnica, distancia o médico da gestante e gera insegurança emocional, assim como, a assistência que tem o foco apenas emocional, minimiza os riscos e aumenta a chance de morte ou sequelas. 

No passado, visando aumentar o controle e segurança do parto, muitas intervenções eram feitas. Um exemplo era manter a gestante no soro, para deixar uma veia pega para eventual hemorragia com necessidade de infusão rápida de soro. Outro era manter em jejum para evitar broncoaspiração no caso de necessidade de cirurgia de urgência. Outra era fazer um corte no períneo para evitar lacerações durante a passagem do bebê. 


Com o estudo do parto, e a evolução de técnicas e recursos, o parto então passou a ser um evento mais seguro, porém mais distante do fisiológico.


Há algum tempo, novos estudos mostraram que muitas dessas intervenções eram desnecessárias e algumas até prejudiciais quando feitas de rotina.


Essa foi a principal mudança nesse processo de humanização. O parto voltou a ser visto como um evento fisiológico, onde as intervenções devem ser feitas para tratar e não para prevenir complicações.
Isso não significa que intervenções nunca devam ser feitas, significa apenas que não devem ser feitas de rotina. 

No parto humanizado, a gestante pode fazer escolhas de ações que não interfiram na segurança. Essa autonomia não inclui interferir em decisões médicas quando existe um risco iminente de vida. 


Precisa ficar claro que, humanização não depende apenas do médico. Toda a equipe e o ambiente precisam ser preparados. É fundamental um pré-parto ideal e uma equipe multiprofissional onde todos tenham o objetivo da assistência ideal e respeitem seus limites de ação. 


É preciso ainda ficar claro que, humanização não é sinônimo de parto primitivo, de retrocesso, de desafiar condutas estabelecidas, de parto em lugar sem segurança.







"O parto é tanto da mãe,

quanto do pai e do bebê.
Todos devem ser valorizados."



QUAL A DIFERENÇA DE PARTO NORMAL E HUMANIZADO?

O parto normal se refere à via vaginal. O parto humanizado se refere ao parto onde os recursos estão disponíveis, mas a intervenção só acontece quando necessária ou desejada pela gestante . Pode ser vaginal ou cesariana. 

Na humanização medidas para garantir o conforto e autonomia da gestante são respeitadas e o vínculo precoce da mãe com o bebê é estimulado.



QUAIS SERIAM AS VANTAGENS DO PARTO NORMAL?

O parto vaginal é fisiológico, o vínculo da mãe com o bebê e a amamentação são facilitados. Tem menor risco de hemorragia e infecção. Tem menor risco de eventos trombóticos, pela deambulação mais precoce. Acarreta riscos menores que a cesariana para gestações futuras, de complicações como placenta prévia, acretismo placentário e rotura uterina. Tem menor associação com dor pélvica crônica que a cesariana. 

Assim como a cesariana, não é isento de riscos. Mas os desfechos de morte e sequela em ambas as vias são raros e na maioria das vezes associados à negligência na assistência.



EM QUE SITUAÇÕES O PARTO CESÁREA É MAIS INDICADO?

Existe uma indicação absoluta de cesariana que é a placenta prévia total (placenta baixa que cobre o colo do útero). O parto vaginal neste caso é fatal para mãe e bebê.
A cesariana é ainda indicada no caso de desproporção entre a cabeça do bebê e a pelve da mãe (não tem passagem).


As demais indicações de cesariana são chamadas relativas, onde os estudos mostram risco de sequelas ou morte aumentados no parto vaginal, justificando a cesariana para a segurança da mãe ou bebê. São exemplos a apresentação pélvica (bebê sentado), o herpes genital ativo, a infecção não tratada por HIV e gestantes com mais de duas cesarianas.


A cesariana também é frequentemente indicada em casos de complicações do trabalho de parto, que levam ao sofrimento fetal (falta de oxigenação do bebê).


Importante observar que quase sempre vai nascer sem a cesariana, mas não é apenas isso que importa, mas sim o nascimento de um bebê saudável, sem sequelas e sem prejuízo à saúde materna. 


A cesariana pode ainda ser indicada por escolha da gestante, após informada dos riscos e benefícios de cada via de parto.




"Não idealize um tipo único

de parto. Aceite que o parto
é imprevisível e o seu
objetivo maior é
a saúde da mãe e do bebê."



QUAL A EQUIPE DE ESPECIALISTAS NECESSÁRIA PARA GARANTIR A SEGURANÇA E TRANQUILIDADE DE UM PARTO?

O ideal é uma equipe multiprofissional. O parto de gestantes de baixo risco pode ser acompanhado por enfermeiro. Mas é fundamental a presença do médico na equipe, visto que é o único profissional capacitado para reverter todas as possíveis complicações. O parto seguro requer obstetra, anestesista e pediatra na equipe.




HOJE EM DIA HÁ UMA TENDÊNCIA SOBRE TER O FILHO EM CASA, NA BANHEIRA e etc.. ESSAS SITUAÇÕES COLOCAM MÃE E BEBÊ EM RISCO?

O parto domiciliar apresenta risco aumentado de morte principalmente para o bebê. Estudos mostram risco 3 a 7 vezes maior de morte. O parto pode apresentar complicações imprevisíveis, algumas que precisam ser imediatamente diagnosticadas e revertidas. Em casos como prolapso de cordão e sofrimento fetal agudo, a oxigenação do bebê é interrompida e temos poucos minutos para a extração fetal. Logo, é necessária equipe médica e centro cirúrgico para evitar a morte do bebê. Nem os médicos mais capacitados são capazes de reverter tais complicações em ambiente domiciliar. 

Para a mãe o maior risco de morte é por hemorragia. Esta complicação precisa ser rapidamente revertida com medicamentos ou cirurgia. E no caso de demora na assistência, a paciente pode evoluir com choque hipovolêmico ou consumo de fatores de coagulação, condições que apresentam alta mortalidade.


A banheira, assim como outras medidas não medicamentosas, são capazes de amenizar a dor. Porém, o único recurso capaz de abolir a dor do trabalho de parto é a anestesia. A dor é subjetiva e algumas mulheres acreditam no benefício da dor para questões pessoais. Muitas falam em empoderamento para suportar a dor. Porém, a dor no trabalho de parto é desnecessária do ponto de vista da saúde, deve ser opcional e não imposta. A ciência evoluiu para que o parto seja cada vez mais seguro e confortável. Mesmo o parto vaginal pode ser sem dor. A gestante pode optar por estas medidas não medicamentosas também no hospital ou substituir estas medidas pela anestesia no trabalho de parto. 


O parto ideal é em ambiente hospitalar seguro, em pré-parto adaptado para o conforto e as escolhas. A escolha individual deve ser respeitada, mas o parto domiciliar não é seguro.



AS DOULAS PODEM AJUDAR?

As doulas têm papel importante no apoio emocional. Para mulheres que desejam o parto mais natural, sem anestesia, o apoio emocional, feito por doula, acompanhante ou profissionais de saúde tem grande importância.


QUANDO UMA PESSOA NÃO TEVE DILATAÇÃO NAS DUAS PRIMEIRAS GESTAÇÕES, PROVAVELMENTE ELA NÃO TERÁ TAMBÉM NA TERCEIRA?

Não. A progressão do parto depende da contração uterina. É a contração que dilata o colo do útero e empurra o bebê pelo canal do parto. A contração pode ser ineficaz por falta de quantidade ou por falta de qualidade. Ambas podem ser corrigidas durante o trabalho de parto. Logo é uma complicação que não necessariamente vai repetir na próxima gestação.




"O parto voltou a ser visto
como um evento fisiológico (...)
Isso não significa que intervenções
nunca devam ser feitas,
significa apenas que
não devem ser feitas de rotina."


HÁ ALGO QUE A GESTANTE POSSA FAZER PARA AUMENTAR AS CHANCES DO PARTO NORMAL? SE SIM, O QUE?

O mais importante para aumentar a chance de parto normal é o acompanhamento adequado da gestação, trabalho de parto e parto. No pré-natal são detectados riscos, diagnosticadas e revertidas algumas complicações da gestação que limitariam o parto normal.


A detecção precoce de complicações no trabalho de parto e correção antes de levarem ao sofrimento fetal, evita cesarianas desnecessárias. O parto realizado por profissional capacitado para realização de manobras específicas, que podem ser necessárias, também evita a cesariana. 

 Além disso, se o parto normal for a escolha, a gestante deve se preparar, conhecer o processo do trabalho de parto e as medidas para conforto e segurança. Deve ser assistida por equipe que incentive e ofereça os recursos disponíveis.



QUAL A IMPORTÂNCIA DO PAI PARTICIPAR DO PRÉ NATAL?

A gestação é uma condição que requer apoio técnico, mas também emocional. O vínculo da gestante com o pai é capaz de reduzir a ansiedade, medo e até mesmo condições patológicas como o parto prematuro. Participar do processo da gestação facilita o apoio e o entendimento de mudanças físicas e emocionais da gestante.


Muito se discute o "empoderamento" da mulher, mas o "empoderamento" do pai é fundamental para ajudar inclusive nas decisões, algumas que acarretam até riscos em escolhas individuais. O parto é tanto da mãe, quanto do pai e do bebê. Todos devem ser valorizados.


QUAIS AS SUAS DICAS PARA A MULHER REALIZAR UM PARTO SEGURO E TRANQUILO?

1) O pré-natal é fundamental. Tem como um dos objetivos, detectar riscos potenciais ou presentes a cada consulta. Mesmo gestantes previamente saudáveis podem ter complicações clínicas ou obstétricas que, se negligenciadas, aumentam os desfechos desfavoráveis;


2)Se informe sempre com especialistas sobre os riscos e benefícios de cada via de parto. Muitos leigos, mesmo bem intencionados, fazem recomendações sem fundamento. A experiência individual de alguém não é garantia do melhor pra você;


3) Escolha sempre que possível um profissional capacitado para o acompanhamento da gestação, do trabalho de parto, do parto e pós-parto. As mortes e sequelas no ciclo gravídico puerperal são na maioria das vezes evitáveis, relacionadas à qualidade da assistência;


4) Não abra mão dos recursos que garantem a segurança ou conforto no parto. O apelo do parto alternativo é grande mas, muitas vezes, ignora os riscos. O parto visto como um evento de saúde, em ambiente hospitalar, não inclui violência ou exclui humanização. Apenas garante a segurança em caso de complicação;


5) Não idealize um tipo único de parto. Aceite que o parto é imprevisível e o seu objetivo maior é a saúde da mãe e do bebê. Tenha autonomia para fazer escolhas, mas reconheça, com a ajuda de profissionais, os limites e o momento de abrir mão dessas escolhas para garantir a vida.






Ana Cristina Russo, 46, é médica obstetra da UERJ e do Hospital dos Servidores, no Rio. É também professora-adjunta de Ginecologia e Obstetrícia da Unigranrio.


Essa entrevista foi retirada do Facebook da autora, com prévia autorização .

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CESÁREA PRÉVIA - QUAL A MELHOR VIA DE PARTO?

Este texto foi produzido pelo Colegiado de Ginecologistas e Obstetras do Reino Unido (The Royal College of Obstetricians e Gynaecologists) e publicado em julho deste ano, tendo como foco as mulheres que foram submetidas à cesárea e gostariam de obter mais informações sobre as possíveis vias de parto em gestações futuras.

O Visão de Ilitia traz a tradução de trechos dessas informações para mulheres com histórico de cesariana(s) prévia(s).


Quais são as minhas opções de via de parto?

Se você já teve alguma cesárea anterior, existem duas opções de via de parto, com diferentes riscos e benefícios: Parto Vaginal Após Cesárea (VBAC - Vaginal Birth After Cesarean) e Cesariana Eletiva de Repetição (ERCS - Elective Repeat Cesarean Section). Alguns fatores são importantes e devem ser levados em consideração na sua escolha como:

- seu histórico médico e de suas gestações anteriores;
- a indicação da sua cesariana prévia;
- se você já teve ou não parto vaginal anterior;
- se você apresentou alguma complicação durante o parto ou na recuperação;
- o tipo da sua cicatriz uterina;
- como você se sentiu em relação aos partos anteriores;
- se a sua gestação atual apresentou alguma complicação; e
- quantas gestações futuras você planeja ter.


O que é VBAC?

VBAC é a sigla em inglês para Vaginal Birth After Cesarean, o que significa Parto Vaginal Após Cesárea. É o termo utilizado quando a mulher tem um parto vaginal com histórico de cesariana no passado. Parto vaginal inclui o parto normal e o instrumental (fórceps e vácuo-extração).


O que é ERCS?

ERCS é a sigla em inglês para Elective Repeat Cesarean Section, o que significa Cesariana Eletiva de Repetição. O procedimento é realizado geralmente após as 39 semanas de gestação, pois bebês nascidos de cesariana antes dessa data têm maiores chances de apresentar desconforto respiratório e de serem internados em UTI.


Quais são as minhas chances de sucesso de ter um VBAC?

Das mulheres que não apresentam intercorrências na gestação e que entram em trabalho de parto espontaneamente, cerca de 3 em cada 4 conseguem ter o parto vaginal (75%). Existem alguns fatores que aumentam a chances de ter um parto vaginal, como:

- se você já teve um parto vaginal antes ou depois de uma cesárea, as chances de ter outro parto vaginal aumentam para 80 a 90%;
- se o seu trabalho de parto se iniciar espontaneamente;
- se o seu Índice de Massa Corporal (IMC) for menor que 30.


Quais são as vantagens do VBAC?

- As mulheres que conseguem ter o VBAC apresentam menos complicações em comparação com a cesariana eletiva;
- Após um VBAC, aumentam-se as chances de sucesso em possíveis partos vaginais futuros;
- Sua recuperação será mais rápida, bem como o retorno às atividades do cotidiano;
- O tempo de internação hospitalar é menor;
- Maior possibilidade para o contato pele-a-pele e amamentação imediatos;
- Evita os riscos inerentes ao procedimento cirúrgico;
- Menor chance de problemas respiratórios iniciais no bebê.


Quais são as desvantagens do VBAC?

- Possibilidade de necessitar de cesariana de urgência durante o trabalho de parto. Este risco é de 1 em cada 4 mulheres (25%), sendo um pouco maior do que o risco de insucesso de tentativa de parto vaginal de primeiro filho que é de cerca de 1 em cada 5 mulheres (20%). Uma cesariana de emergência eleva em 3 vezes os riscos em comparação com a cesárea eletiva. As causas mais comuns de cesariana de emergência são o prolongamento do trabalho de parto e alterações do bem-estar fetal;
- Discreto aumento do risco de necessidade de transfusão de sangue comparado com o da cesárea eletiva;
- Risco de ruptura uterina é de 1 em cada 200 mulheres. Esse risco é aumentado de 2 a 3 vezes em caso de indução do trabalho de parto; Em caso de sinais de alerta, haverá a necessidade de realização de uma cesárea de emergência;
- Consequências mais sérias para a mãe e o bebê são raras, mas os riscos de injúria cerebral e morte neonatal são maiores no VBAC do que na cesárea eletiva, e são os mesmos do parto vaginal do primeiro filho;
- Possibilidade de evoluir para parto instrumental com o uso de fórceps ou ventosa;
- Possibilidade de laceração envolvendo os músculos do esfíncter anal e reto (lacerações de terceiro e quarto grau).


Quais gestantes podem tentar o VBAC?

O parto vaginal pode ser oferecido para a maioria das mulheres com histórico de cesariana anterior que apresentam gestação de feto único, cefálico e com mais de 37 semanas. Em caso de tentativa de VBAC, o trabalho de parto deve ser monitorado continuamente e conduzido em um centro de expertise que ofereça recursos cirúrgicos imediatos e assistência avançada de ressuscitação neonatal.


O que é VBAC2?

É o parto vaginal em mulheres que apresentam 2 cesarianas anteriores. As mulheres que desejam ter um parto vaginal após duas cesáreas devem ser orientadas pelo médico obstetra dos riscos aumentados de ruptura uterina e morbidade materna.


Quando o VBAC é formalmente contra-indicado?

- No caso de 3 ou mais cesáreas prévias;
- Em caso de cicatriz uterina vertical; 
- Na presença de outras complicações que indiquem a necessidade de realizar cesariana.


Quais são as vantagens da Cesariana Eletiva de Repetição (ERCS)?

- Menor risco de ruptura uterina (1 em 1000);
- Evita os riscos inerentes ao trabalho de parto e os riscos para o bebê são raros (2 em 1000);
- Você poderá planejar a data do nascimento. No entanto, 1 em cada 10 mulheres entram em trabalho de parto antes da data marcada;


Quais são as desvantagens da Cesárea de Repetição?

- Maior tempo operatório devido aos tecidos cicatriciais da cesárea anterior, o que pode levar a danos de intestino ou de bexiga durante a cirurgia;
- Possibilidade de infecção;
- Maior risco de trombose nos membros inferiores e embolia pulmonar;
- Maior tempo de recuperação;
- Impossibilidade de dirigir por 6 semanas após a cirurgia;
- Maior probabilidade de necessitar de novas cesarianas em gestações futuras;
- Aumento do risco de inserção anômala da placenta, o que pode resultar em sangramento e até histerectomia;
- Aumento do risco de desconforto respiratório ao nascer. Isso ocorre em 4 a 5 bebês de cada 100 nascimentos por cesárea eletiva após as 39 semanas; No caso de VBAC, o risco é de 2 a 3 em cada 100 nascimentos e para cesarianas com 38 semanas, é de 6 em 100.


Quero ter um VBAC, como devo proceder se eu entrar em trabalho de parto?

Entre em contato com seu médico assim que você achar que entrou em trabalho de parto ou se a sua bolsa romper. Você deverá ser aconselhada a se dirigir para o hospital, pela possibilidade da necessidade da cesárea de emergência em 25% dos casos. Os batimentos cardíacos deverão ser monitorizados continuamente durante o trabalho de parto. Essas medidas são para detectar precocemente sinais de complicações e assegurar o bem-estar fetal.


Em Resumo:

- Se você é saudável, teve uma gestação sem intercorrências e está dentro do peso recomendável, ambos VBAC e ERCS são opções seguras e de baixo risco;
- 3 em cada 4 mulheres com histórico de cesariana anterior e que apresentam uma gestação sem intercorrências entram em trabalho de parto espontaneamente e ganham o bebê por via vaginal;
- 25% das mulheres com cesárea prévia serão submetidas a uma cesariana de urgência, por complicações durante o trabalho de parto;
- 9 em cada 10 mulheres com passado de parto vaginal, terão sucesso no VBAC;
- Cesarianas de repetição aumentam o risco de complicações em gestações futuras;
- O VBAC de sucesso (75%) apresenta menos riscos de complicações;
- Cesáreas de emergência apresentam 3x mais riscos que as eletivas.



Fontes:

https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/patients/patient-information-leaflets/pregnancy/pi-birth-options-after-previous-caesarean-section.pdf

https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/guidelines/gtg_45.pdf

domingo, 18 de setembro de 2016

COMER PLACENTA?


Na última semana, Bela Gil movimentou as redes sociais ao revelar que ingeriu a placenta do seu filho, Nino. Ela misturou numa vitamina de banana e, inclusive, deu pra sua filha, Flor, pra comemorar a chegada do irmão.


AFINAL, O QUE É PLACENTA E PARA QUE SERVE?
A placenta é um órgão exclusivo da gestação.  É formada por um misto de tecidos da mãe e do feto e contém numerosos vasos sanguíneos. É o local onde ocorrem as trocas gasosas, de nutrientes e anticorpos entre mãe e feto. Funciona como um sistema de transporte dessas substâncias: nutrientes e oxigênio passam pela placenta da mãe para o feto; enquanto que o dióxido de carbono e excretas passam do feto para a mãe. Também é responsável pela produção de alguns hormônios que sustentam a gravidez.
A placenta funciona como um filtro, bloqueando e retendo alguns potenciais agentes danosos para o feto, desde medicamentos até agentes infecciosos. É a chamada “barreira hemato-placentária”. Ela impede que o feto tenha contato com algumas substâncias e organismos que possam lhe causar mal. Infelizmente, essa barreira não é perfeita. Álcool, cigarro, medicamentos, drogas e microorganismos podem passar por ela e atingir o bebê, podendo, em menor ou maior grau, causar danos e malformações.

A PLACENTA É ANALISADA DURANTE E/OU DEPOIS DA GESTAÇÃO?
Sim, o estudo da placenta faz parte da rotina do ultrassom durante o pré-natal. São avaliadas sua posição, espessura, calcificações, fluxo sanguíneo, dentre outras características que trazem informações valiosas para o pré-natalista.
Após o nascimento, em geral, a placenta é descartada. Entretanto, em alguns casos, pode se tornar um instrumento valioso para o estudo anátomo-patológico, ou seja, análise laboratorial, que tem como objetivo detectar anomalias vasculares, infecções congênitas e defeitos genéticos. Os resultados podem ser determinantes para diagnosticar complicações na gestação atual e/ou prevenir danos em gestações futuras.

HÁ ALGUM BENEFÍCIO EM INGERIR PLACENTA?

Não há evidências sobre o benefício de ingerir placenta. Não há nenhum estudo científico ou teste que comprove o valor nutritivo da placenta a não ser para o be, dentro do corpo da mãe. Nenhum laboratório destaca o benefício da ingestão da placenta ou de seus derivados, seja no âmbito nutricional, imunológico, no estímulo à amamentação ou na prevenção de depressão pós-parto. Simplesmente, porque não existem estudos suficientes. Analisemos: um produto que é, via de regra, descartado, se tivesse tantos benefícios comprovados, seria uma mina de ouro para a indústria farmacêutica, certo?


SE NÃO HÁ BENEFÍCIO, QUE MAL FAZ?
Não se sabe. Mais uma vez, não há estudos ou testes que reiterem ou refutem essa prática. Porém, é preciso destacar alguns pontos:
- a placenta, assim como qualquer órgão humano/animal, se decompõe e fica sujeita a necrose (apodrecimento) e contaminação por parasitas.
- como a placenta é armazenada e conservada?
- como é feito seu processamento? É higiênico? Pasteurizado? Existe alguma instituição que regule ou fiscalize essa prática?

NOTA DO VISÃO DE ILITIA
Toda mulher é livre. Nosso papel é trazer informação para que as escolhas sejam feitas de forma consciente. O impacto da declaração de uma celebridade pode causar efeitos positivos ou grandes danos. Cabe a nós, assim como deveria ser responsabilidade da grande mídia, trazer fatos e divergências para o debate. 


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quarta-feira, 14 de setembro de 2016


Esta foto de uma médica grávida, com uma criança de 3 anos amarrada às suas costas, cuidando de um jogador de futebol americano, tornou-se viral desde que foi publicada. Foi compartilhada no mundo todo.

"Eis o que acontece quando você está grávida de 35 semanas, o marido está fora da cidade, não tem quem cuide de uma criança de 3 anos e tem que trabalhar!"

Megan Meier é médica do esporte e trabalha dando assistência a vários atletas e dançarinos eOklahoma. 

Ela disse que postou em consideração a outras mães médicas, sobre “o que fazemos todos os dias”. Embora o post tenha sido, originalmente, voltado para tal grupo, Meier disse ao ABC News: “É por todas nós”. "Nós, mães e pais que trabalham, frequentemente temos que executar multitarefas. Nós não damos desculpas; encontramos soluções."

Meier disse estar surpresa que a foto tenha tocado tantas pessoas, de diversas formas. “Há tantas pessoas me abordando, dizendo o quão inspiradora é a foto, por uma série de razões. Tenho me conectado a tantas pessoas interessantes, fortes, as quais compartilham suas histórias, lutas e vitórias. É bem impressionante”

Veja o post original aqui.












terça-feira, 2 de agosto de 2016

Parto Domiciliar Planejado - Novas Recomendações

Recentemente, foi publicado um consenso com novas recomendações sobre o parto domiciliar planejado. Trata-se de um Committee Opinion do ACOG (Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas). Nós fizemos a tradução do resumo do artigo e trouxemos para o blog. No final do texto, faremos algumas considerações. 


Nos Estados Unidos, aproximadamente 35.000 nascimentos por ano acontecem em domicílio, o que representa 0,9% de todos os partos. Aproximadamente 1/4 desses partos não são planejados ou assistidos. 

Embora o ACOG (Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas) acredite que hospitais e centros de referência sejam as estruturas mais seguras para o nascimento, cada mulher tem o direito de fazer sua opção, desde que devidamente informada. 

Vários fatores são essenciais para reduzir a mortalidade perinatal e alcançar bons resultados num parto domiciliar. Seguem as recomendações:

 - Deve haver uma apropriada seleção das candidatas: apenas gestantes de baixo risco, cuidadosamente selecionadas, devem optar pelo parto domiciliar. Os critérios de seleção incluem gestação única, apresentação cefálica, idade gestacional entre 37 e 42 semanas incompletas e trabalho de parto espontâneo ou induzido ambulatorialmente

- O parto deve ser assistido por um profissional qualificado, treinado e certificado pelas entidades e conselhos profissionais competentes  

- É fundamental a garantia de um transporte seguro e em tempo hábil até um hospital próximo e pronto acesso a uma avaliação e acolhimento hospitalar.   

- O Comitê de Práticas Obstétricas considera como contra-indicações absolutas ao parto domiciliar planejado: apresentações anômalas do feto (pélvico, de face, transverso), gestações múltiplas ou gestante com cesariana prévia.
  
Mulheres interessadas em parto domiciliar planejado devem ser informadas sobre riscos e benefícios, com base nas evidências científicas atuais. Especificamente, devem estar cientes de que, embora o parto domiciliar represente menos intervenções maternas que num parto hospitalar, está associado a um risco 2,4 vezes maior de morte perinatal e três vezes maior de convulsões e graves disfunções neurológicas para o bebê. 


Considerações do Visão de Ilitia:  Se você estiver planejando um parto domiciliar, leve em consideração que é necessário trazer esse consenso para a nossa realidade. Portanto, analise bem cada recomendação e certifique-se de que seja viável fazer isso dentro das nossas possibilidades. Pese riscos e benefícios. Pense na sua segurança e do seu bebê. Informe-se e faça uma escolha consciente.


domingo, 26 de junho de 2016

CESARIANA SÓ COM 39 SEMANAS?

 Na última semana, foi publicada, no Diário Oficial da União, uma resolução do CFM sobre a realização de cesarianas. A notícia foi amplamente divulgada pela mídia e gerou muita confusão entre as gestantes. Nosso texto tem a intenção de esclarecer o impacto dessa normativa sobre a assistência pré-natal e a via de parto.





O QUE SIGNIFICA ESTA RESOLUÇÃO DO CFM?

Significa que, cesarianas eletivas e a pedido, em gestantes de risco habitual, só podem ser realizadas a partir de 39 semanas de gestação, a menos que exista uma recomendação médica para tal.

QUAL A RAZÃO DISSO?

O CFM adotou o marco de 39 semanas por ser o período em que se inicia a gestação a termo. Pesquisas apontaram a incidência recorrente de problemas específicos em grupos de bebês com idade gestacional inferior a 39 semanas.
De acordo com o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, bebês que nascem antes do tempo têm maior possibilidade de apresentar problemas respiratórios, dificuldades para manter a temperatura corporal e para se alimentar. Além disso, têm tendência a icterícia que, em casos severos, pode gerar danos cerebrais; assim como problemas de visão e audição. Entre 37 e 39 semanas, o bebê atravessa uma fase crítica de desenvolvimento do cérebro, dos pulmões e do fígado, segundo alerta o Instituto Nacional (norte-americano) de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano (NICHD).

O QUE DEFINE GESTAÇÃO DE RISCO HABITUAL E DE ALTO RISCO?

Já falamos sobre isso aqui , mas vale a pena repetir, de forma resumida. Gestação de risco habitual é aquela que transcorre tranquilamente, sem que haja um fator complicador para a mãe, para o feto, ou para ambos. Alto risco se define por desvios de uma gestação normal, em que, alguma doença materna prévia ou em curso, ou algum problema com o bebê é identificado. Porém, devemos ficar atentos pois, gestações de risco habitual podem complicar no final, ou mesmo durante o trabalho de parto.

CESARIANA ELETIVA... O QUE É ISSO?


É aquela cesariana com data marcada, por diferentes motivos. É diferente da cesariana intra-parto, que acontece quando a mulher entra em trabalho de parto, mas, por uma razão qualquer, precisa ser submetida a uma cesária.

QUAIS AS INDICAÇÕES DE CESARIANA INTRA-PARTO?

As mais comuns, são:

- desproporção céfalo-pélvica, ou seja, quando não há passagem.

- distócias, em geral. Distócias são dificuldades encontradas na evolução de um trabalho de parto, tornando uma função difícil, impossível ou perigosa para a mãe e para o feto. Ou o bebê não desce adequadamente pelo canal de parto, ou o colo não dilata, ou as contrações são ineficazes, ou a posição do bebê é anômala, etc, etc... Enfim: depende da avaliação de um profissional treinado e capacitado para diagnosticar, tentar reverter com manobras e medicamentos e, em último caso, indicar uma cesariana.

- sofrimento fetal agudo: é quando o bebê está sob risco iminente de ter falta de oxigênio. Suas reservas e/ou o suprimento sanguíneo estão comprometidos e a quantidade de oxigênio que chega ao cérebro não é suficiente. O prolongamento do trabalho de parto e a insistência em conduzir o parto normal podem significar lesões cerebrais e sequelas por toda a vida (paralisia cerebral).

- emergências obstétricas, como descolamento prematuro da placenta (nos casos de pré-eclâmpsia grave), prolapso de cordão, rotura uterina, entre outras.

Prolapso de cordão

QUAIS AS INDICAÇÕES DE CESARIANA ELETIVA ANTES DAS 39 SEMANAS?

Vamos citar as principais, ou mais comuns:

- gestação gemelar monocoriônica (gêmeos com a mesma placenta). Nos casos em que os gêmeos compartilham também a mesma bolsa de líquido, a cesariana deve ser realizada até 32 semanas de gestação.

 - vasa prévia: quando um vaso sanguíneo do cordão umbilical é frágil e está obstruindo o canal de parto*

- placenta prévia: quando a placenta é baixa e obstrui o canal de parto*

- inserção velamentosa de cordão: é quando a porção do cordão umbilical, que está junto à placenta, é frágil e desprotegida, devido à falta da geléia que cobre os vasos sanguíneos. Desta forma, os vasos ficam expostos e susceptíveis a uma rotura

- algumas malformações fetais, nas quais o nascimento precoce e programado é recomendável e necessário para que haja intervenções imediatas sobre o bebê

* nestes casos, é recomendável que a gestante não entre em trabalho de parto


Ultrassom endovaginal mostrando placenta prévia

HÁ OUTRAS SITUAÇÕES EM QUE A CESARIANA ELETIVA PODE SER INDICADA ANTES DAS 39 SEMANAS?

Sim. Há certas complicações maternas ou fetais que não são indicações absolutas de cesariana. Porém, esta via de parto deve ser considerada e discutida, confrontando com a indução do parto, de acordo com o quadro clínico e o benefício para o binômio mãe-feto, entre elas:

- diabetes gestacional descompensado, de difícil controle ou com repercussões para o feto

- crescimento intra-uterino restrito grave, com falta de líquido amniótico e alteração do fluxo sanguíneo do bebê (doppler alterado)

- doenças maternas com repercussões clínicas graves, nas quais o término da gestação pode representar uma melhora significativa para a saúde da mãe

- algumas malformações fetais, nas quais o benefício do nascimento e tratamento imediato das complicações são superiores à manutenção do feto dentro do útero

QUAIS AS INDICAÇÕES DA CESARIANA ELETIVA APÓS 39 SEMANAS DE GESTAÇÃO?

Exemplos:

- cesarianas sucessivas (duas ou mais cesarianas prévias). Quanto ao parto normal após cesariana, escrevemos um texto muito bem embasado aqui.

- feto em apresentação pélvica: apesar de não ser indicação absoluta, esta possibilidade deve ser considerada. Já falamos sobre parto pélvico nesse post.

- qualquer malformação fetal que necessite de intervenção agendada (ex: colocação de marcapasso cardíaco), cuja programação do procedimento e presença de uma equipe específica na sala de parto, se tornem necessários.

A CESARIANA A PEDIDO ESTÁ PROIBIDA?
Trecho da resolução do CFM

Não. A cesariana a pedido pode ser feita, desde que cumpridas as determinações do CFM, que são:

- parto agendado após as 39 semanas de gestação 

-  É direito da gestante, nas situações eletivas, optar pela realização de cesariana, garantida por sua autonomia, desde que tenha recebido todas as informações de forma pormenorizada sobre o parto vaginal e cesariana, seus respectivos benefícios e riscos. A decisão deve ser registrada em termo de consentimento, livre e esclarecido, elaborado em linguagem de fácil compreensão e o médico deve esclarecê-la e orientá-la tanto sobre a cesariana, quanto sobre o parto normal. 

NOTA DO VISÃO DE ILITIA

A decisão da via e da época do parto deve ser amplamente discutida com o pré-natalista, desde as primeiras consultas. Embasamento científico, informação, bom-senso, acolhimento e respeito devem estar presentes. E também deve se levar em conta o cálculo correto da idade gestacional. Converse com seu médico e faça a melhor escolha: O parto seguro!



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domingo, 19 de junho de 2016

PROCEDIMENTOS INVASIVOS

Já ouviu falar de amniocentese? Ou biópsia de vilo corial? Pois bem, este texto tenta explicar, de forma didática, o que são e para que servem os procedimentos invasivos em Obstetrícia.

O QUE É UM PROCEDIMENTO INVASIVO?

Na obstetrícia, em sua grande maioria, os procedimentos invasivos são feitos através da introdução de uma agulha longa e fina dentro do útero, com o objetivo de coletar amostras de material ou introduzir algum fluido. O exame é guiado por ultrassom, para que a agulha seja direcionada de maneira correta. Não precisa ser feito num Bloco Cirúrgico, pois se trata de um procedimento ambulatorial. Utiliza-se anestesia local, sem necessidade de preparo ou jejum. Após o procedimento, é indicado repouso de até 24 horas.


Técnica da amniocentese

É DOLOROSO?

Apesar do uso da anestesia local, há uma fina membrana (peritônio) pela qual a agulha passa, que não fica anestesiada. Então, nesse momento, a mulher pode sentir dor ou desconforto passageiro.

EXISTEM RISCOS?

Sim. Os riscos são variáveis e geralmente surgem na primeira semana após o procedimento, mas podem ocorrer até quinze dias depois. As principais são: rotura da bolsa de líquido amniótico, trabalho de parto prematuro, infecção, sangramento e óbito fetal. A frequência em que ocorrem também é variável, mas, para os procedimentos mais comuns, como amniocentese e biópsia de vilo corial, estima-se que esteja em torno de 1 para 200 (0,5%). Outro risco é a sensibilização de gestantes Rh negativo (incompatibilidade com o tipo de sangue do bebê), que pode ser facilmente evitado com o uso de imunoglobulina anti-Rh (uma espécie de vacina) até 72 horas após o procedimento.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE AMNIOCENTESE E BIÓPSIA DE VILO CORIAL?

A amniocentese coleta líquido amniótico (cerca de 20 ml) e pode ser realizada a partir da 15ª semana gestacional, dependendo da indicação. A biópsia de vilo corial coleta fragmentos da placenta primitiva (trofoblasto) e deve ser realizada no primeiro trimestre de gestação.

Amniocentese guiada por ultrassom 

PARA QUE SERVEM?

Os procedimentos invasivos podem ser diagnósticos ou terapêuticos, ou seja, para descobrir algum problema ou para tratá-lo.

QUAIS SÃO OS PROCEDIMENTOS DIAGNÓSTICOS?

Bem, vamos nos guiar pelas indicações.

Estudo genético

É possível diagnosticar algumas doenças do bebê, mesmo antes do nascimento. Dentre elas, as doenças cromossômicas (ex: Síndrome de Down) e alguns problemas genéticos (ex: Fibrose Cística, Anemia Falciforme, Talassemias).  No Brasil, o aborto não é permitido nesses casos. Mas o diagnóstico intra-útero pode ser oferecido e discutido com casais que apresentem algum fator de risco, dentre eles:
- idade materna igual ou superior a 35 anos
- história familiar de doenças genéticas ou cromossômicas
- exame de translucência nucal alterado
- achado de malformações fetais ao ultrassom
Anteriormente, nós mostramos a importância do ultrassom na gestação.

O exame também pode ser feito para teste de paternidade. Porém, vale a pena ressaltar que o risco pode não compensar o benefício, uma vez que, para questões jurídicas, novos testes serão solicitados após o nascimento.

Estudo de infecções congênitas

Através de uma técnica denominada PCR, o exame do líquido amniótico, coletado a partir da 18ª semana de gravidez, pode mostrar se o feto foi ou não infectado por alguma doença. Pesando riscos e benefícios, essa análise se torna especialmente importante nos casos de toxoplasmose congênita, pois o diagnóstico pode mudar o tratamento.

Estudo da maturidade pulmonar do feto

Em alguns casos específicos, especialmente em gestações de alto risco (ex: diabetes gestacional) e, pesando riscos e benefícios, se torna necessário avaliar a maturidade pulmonar do bebê para decidir a melhor época do parto. Através de uma análise de substâncias no líquido amniótico, é possível saber se há maturidade pulmonar e programar o nascimento.

Há outras indicações diagnósticas, mas são mais raras e específicas e não vamos nos ater a isso neste texto.

EXISTE ALGUM EXAME ALTERNATIVO?

Para diagnóstico das cromossomopatias mais comuns, sim. O NIPT (Teste Pré-Natal Não-Invasivo em Sangue Materno) é feito com uma amostra de sangue materno e não tem riscos. Um resultado negativo é tranquilizador. Porém, um resultado positivo precisa ser confirmado através de procedimentos invasivos.

Coleta de sangue para NIPT

QUAIS SÃO OS PROCEDIMENTOS TERAPÊUTICOS?

Vamos por partes.
 
Isoimunização Rh

Este problema ocorre por causa de um tipo de incompatibilidade sanguínea, quando a mãe (Rh negativo) começa a produzir anticorpos contra o sangue do bebê (Rh positivo), causando anemia e outras graves complicações. Na atualidade, vários tipos de exames de ultrassom permitem avaliar a presença e o grau de anemia no feto. Quando indicada, a transfusão de sangue fetal pode ser necessária e é realizada através de um procedimento invasivo.  

Punção de órgãos e cavidades

Algumas vezes, a presença de cistos (coleção de líquido) em órgãos ou compartimentos do bebê podem comprometer a formação normal de suas estruturas. Desta forma, pode ser necessário retirar o líquido e esvaziar os cistos, para que o desenvolvimento ocorra normalmente.

Há outros procedimentos, como derivações e cirurgias intra-útero, que podem curar o bebê ou, pelo menos, minimizar as consequências de uma malformação congênita.

DEVO FAZER UM PROCEDIMENTO INVASIVO?

Depende. Converse com seu obstetra. Questione sobre os riscos e benefícios da realização de tal procedimento. Busque todas as informações possíveis. Se necessário, procure a assistência de um especialista em Medicina Fetal. Pense de que forma isso vai fazer diferença na sua vida e do seu filho. Não existe fórmula, nem regra. Este texto visa esclarecer e orientar. Mas a discussão fica a cargo da família e do médico assistente. 


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