sábado, 16 de janeiro de 2016

Relato de F.: Uma História de Dor e Superação.


Desde que engravidamos, já somos mães. Passamos a ler e nos informar sobre aquilo que de melhor existe para o nosso filho. Lemos o termo "gestante de baixo risco" e ficamos felizes quando entramos neste critério. Preparamo-nos, assim, para o parto normal. Mas, será que estamos preparadas para as intercorrências? Foi assim que "F" percebeu que "uma gravidez só pode ser considerada de baixo risco após o nascimento".

No ano passado, falamos aqui sobre trombofilia, pré-eclampsia, anemias e diabetes. E, também, sobre o luto. Pregar que "toda mãe sabe parir e todo bebê sabe nascer" não cabe mais. Isso não é significado de empoderamento, mas, sim, um desrespeito às mães que passaram por cesarianas e, principalmente, com aquelas que perderam seus bebês. Segue o relato de “F”, que nos procurou para contar sua história.


“Já é a terceira ou quarta vez que eu tento escrever esse relato, não que seja difícil recontar ou reviver essa experiência, difícil mesmo é traduzir em palavras o que ela significou. 


Em novembro de 2013 descobri que estava grávida, todo o encanto desde o positivo, felicidade sem tamanho, meu bebe planejado e desejado. A primeira sensação indescritível de descobrir uma vida crescendo dentro de mim, ver o rostinho na USG, as mãos, os pés, sentir o primeiro chute, ver a barriga crescendo a cada dia, o dia incrível que eu descobri que era um menino e escolhemos o seu nome, meu Thiago estava a caminho. Minha gestação foi evoluindo sem intercorrências, segui fazendo pré natal de baixo risco, não havia histórico de perda anteriores, nem mesmo minha mãe ou minha irmã tinham tido perdas gestacionais. Ganhei pouco peso, me matriculei na hidroginástica, li tudo que podia e não podia sobre parto normal, amamentação e maternagem. 

O tempo ia passando, a barriga crescendo e bebe se desenvolvendo dentro do esperado, estávamos chegando bem perto, quando com 33 semanas tudo mudou. Me lembro que era feriado de Corpus Christi e todos estavam a todo vapor com as festividades envolvendo a copa do mundo no Brasil. Acordei pela manha daquele 19 de junho com a sensação que meu bebe mexia menos do que eu estava acostumada a sentir. Aguardei pelo dia todo, às vezes podia ser só uma mudança de padrão, talvez tivesse mexido de madrugada e eu nem senti. Todos diziam que o bebe ia ficando grande e eu ia sentir cada vez menos ele mexer, mas minha luz amarela estava ligada, algo estava errado. Convenci o marido a me levar para o Pronto Atendimento naquela noite. Ao toque do sonar lá estava ele e o som da minha melodia favorita, o som das batidas do seu coração me levaram as lágrimas. Fiz um ultra que segundo a médica estava tudo normal, mas no meu coração de mãe ainda mantinha acesa a luz amarela, por isso no dia seguinte entrei em contato com o meu médico, que respondeu minha mensagem dizendo que se no doppler estava tudo bem não teria nada para a gente se preocupar (hoje eu posso dizer que eu não tenho ideia se aquele ultra foi com doppler ou não, de qualquer forma nunca voltei para pegar o resultado, ele não mudaria o que aconteceu a seguir). Mantive contato com meu médico no fim de semana e continuei insistindo que eu havia percebido a diminuição dos movimentos fetais. Então ele sugeriu que eu fosse para a sua clinica logo cedo na segunda feira dia 23 de junho para fazer uma cardiotocografia, mal sabia eu que ali começava o meu desespero. 

Cheguei por volta das 8:30 para o exame e realmente foi diagnosticado que meu bebe se mexia menos do que deveria, o que o médico me explicou que se tratava de uma centralização. Pediu que eu fizesse outro (ou um) ultra com doppler em uma clinica especializada em medicina fetal, pois no caso de ter que fazer uma cesareana de urgência estaríamos certos de que essa era a nossa única opção. Eu ainda tinha esperança de que nada de errado iria acontecer, mas no exame fomos surpreendidos por uma diminuição do fluxo sanguíneo no cordão umbilical (diástole 0) que estava levando o meu pequeno Thiago a um sofrimento fetal. Voltamos à clínica do meu médico e ele nos explicou que não tínhamos mesmo outra opção, deixar o bebe dentro da minha barriga o levaria a óbito por falta de oxigênio e por isso faríamos o parto naquele dia mesmo e o mais rápido possível. Me lembro que ele segurou em nossas mãos e disse: precisamos ter fé!! Não tínhamos tempo para as injeções de corticóide fazerem efeito e seu pulmão as 33 semanas ainda não estava pronto para vir ao mundo. 


O parto foi difícil, Thiago estava sentado e ainda não estava pronto para sair, senti meu corpo balançar por várias vezes na maca até que ouvi: Nasceu! Mas Thiago não chorou, foi reanimado ali mesmo na sala de parto, enquanto a gente clamava pela vida dele, me lembro da gente, marido e eu, dizendo: Vamos Thiago!! Vamos filho!! Como se a gente pudesse pelos gritos, que ele não deu, reanima-lo. Consegui ouvir os seus resmungos, mas Thiago não chorou...choramos nós, choramos durante suas sete horas de vida e choramos até hoje a sua ausência nas nossas... Como o parto foi cesariana eu não pude sair da cama para ir visita-lo na UTI enquanto ele ainda estava vivo, meu marido ficou com ele e minha família ficou comigo. Amo demais todos eles, mas é incrível como ninguém soube lidar com aquele momento difícil. A notícia de sua partida veio pelo próprio obstetra. Ele já havia se despedido de mim, e eu apesar de estar perdida no tempo sabia que havia se passado algum tempo desde que ele havia deixado o hospital. Quando eu o vi atravessando a porta do quarto, seguido pelo meu marido e uma comitiva familiar eu não tive duvidas. Pedi que ele não dissesse, pedi e fechei os olhos, pois não queria ouvir. Mesmo assim ele disse: “Nosso bebezinho não resistiu”. O mundo havia desabado, eu só queria que todos fossem embora, eu queria ficar sozinha com meu marido. Me ofereceram um calmante que eu a priori me neguei a tomar, ainda achava que ele estava vivo e queria ficar bem para ir ve-lo, depois que ele se foi eu aceitei. Queria dormir, apagar a luz e dormir e quem sabe acordar do pesadelo. Mas Thiago ainda precisava que cuidássemos dele. 

Meu marido aos poucos foi me introduzindo a necessidade de tomar decisões, que roupa escolheríamos para enterra-lo e aonde iriamos faze-lo. Dessas decisões tomadas no olho do furação, apenas uma me causa arrependimento, decidi não ir vê-lo na UTI depois que ele já havia partido. Tinha medo de fechar os olhos e só ver sua imagem sem vida. Ele viveu dentro de mim, fizemos muitas coisas juntos, eu sentia seus movimentos me mostrando que ele estava vivo, eu não poderia conhecê-lo sem vida. Eu havia pedido para vê-lo na sala de parto, eles me mostraram meu bebe na incubadora, com um braço de distancia entre ele e eu, meu pequeno estava entubado, enrolado num plástico e de toquinha, não consegui ver seu rostinho direito, só deu tempo de dizer, “vai filho, que eu já estou indo ficar com você”. Hoje tento não me culpar da minha decisão, foi o que eu pude fazer ali, naquele momento. Foi muito difícil sair da maternidade de braços vazios, chegar em casa e encontrar tudo pronto para recebe-lo, mas ele não estava lá e não chegaria. Foram os dias mais difíceis da minha vida. Mas uma coisa era certa, eu não iria desistir da maternidade. Meu obstetra me acompanhou mais um pouco após a perda, tirei os pontos, fiz alguns exames de prevenção e me recuperava pensando que um dia, em breve, eu poderia tentar de novo. 

Nesse período, conheci outras mães, vi outros relatos e entendi que uma gravidez só pode ser considerada de baixo risco após o nascimento do bebe, mulheres que perderam seus bebes pelo mesmo motivo que eu (e por outros) com 38, 39, 40 semanas ou mais. Você começa perceber que alguém conhece outro alguém que passou por este tipo de perda, essa que coloca a morte e a vida uma do lado da outra, com uma diferença de horas ou de dias. Ou mais difícil ainda, mulheres que pariram seus filhos já sem vida. Foi conhecendo essas histórias que eu decidi procurar um médico que investigasse toda a possibilidade de eu ter trombofilia, que foi uma das suspeitas após minha perda, depois de colher 16 tubos de sangue no laboratório, descobrimos que sim, um tipo de trombofilia especifica da gravidez. 


Dez meses depois da perda do meu pequeno Thi, descobri que estava grávida, desta vez com atendimento especializado no meu caso, acompanhando no pré natal de alto risco, com injeções diárias na barriga, medicações para garantir a integridade da placenta, corticoide para prevenção em caso de parto prematuro, ultrassonografia com doppler a cada 15 dias, além de medicação para controlar a hipertensão, e enfim meu pequeno Dudu veio ao mundo, aos berros (mostrando que tem muita vontade de viver nesse mundo) no dia 2 de dezembro de 2015. 

Ter um filho após a perda não preenche o vazio, ninguém substitui ninguém, mas Dudu enche os meus dias de doçura e me faz continuar investindo na vida. Sou grata ao Universo que trouxe meus filhos para mim, cada um com a sua história, sou grata aos avanços da Medicina que me permitiram com cuidados necessários ter meu Dudu aqui comigo."




Nós, do Visão de IIlitia, pregamos o respeito pela vida, gestação e parto. Que, em 2016, mais gestantes se informem e tenham finais felizes.


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