domingo, 24 de janeiro de 2016

TUDO QUE POSSO FAZER É ENVIAR UM CARTÃO


Fonte: Reike e Cura

Eu estava segurando o meu recém-nascido nos braços, sentindo um orgulho e amor sem fim, quando meu colega entrou para me felicitar e me informar sobre o estado de saúde de uma de minhas pacientes.
Nós duas fomos internadas no hospital no mesmo dia, ambas as gestações a termo, as duas em trabalho de parto.
No entanto, tivemos resultados muito diferentes. Enquanto eu estava indo para casa com um menino saudável de 3,6Kg, ela era avisada de que sua bebê havia falecido devido a um descolamento de placenta.
Ela foi minha paciente desde seu primeiro aborto. Passou por problemas de infertilidade, até, finalmente, ter uma gravidez saudável e sem intercorrências. Nós tínhamos somente uma semana de diferença. Lembro-me de compartilhar histórias da minha gestação com ela.
Minha paciente ficou desapontada pois eu não estaria lá para acompanhar o seu parto e eu até brinquei que poderia vê-la no hospital de qualquer maneira, uma vez que poderíamos entrar em trabalho de parto na mesma data. É irônico estarmos no hospital ao mesmo tempo.
Quando eu descobri o que aconteceu com essa paciente, senti uma forte onda de tristeza e culpa. Desejei estar lá por ela durante todo o tempo e fiquei me questionando se eu não tinha deixado passar qualquer sinal que pudesse indicar esse terrível desfecho.
Todos nós obstetras escolhemos essa especialidade pois gostamos de trabalhar com mães felizes e seus bebês. Compreendemos que nem todas as gestações são perfeitas e que haverá resultados ruins. Antes de eu estar grávida, dizia para as pacientes que sofreram abortos espontâneos e perdas gestacionais tardias que eu sabia como elas estavam se sentindo, que não era culpa delas e que poderiam tentar novamente em breve. Olhando para trás, eu percebo o quão insensíveis esses comentários são.
Durante a minha gestação, me deparei com três pacientes com perdas gestacionais tardias e várias com perdas no primeiro trimestre. Eu poderia estar no lugar delas caso minha própria gravidez tivesse evoluído para tais desfechos...
E eu sentiria como se meu mundo tivesse acabado! Palavras como: "você pode tentar novamente em breve", ou "perdas no primeiro trimestre são muito comuns" não me trariam qualquer alívio.
É preciso que essas mães vivenciem o luto antes, para que possam ser capazes de se abrir para a ideia de tentar engravidar novamente.
Por enquanto, tudo que posso fazer pela minha paciente é enviar-lhe um cartão de pesar para que ela saiba que eu estou aqui por ela.

Rena.
            
Texto original do Blog Unspoken Grief

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