sexta-feira, 11 de março de 2016

Pode uma situação me definir? - por Luísa Olivares

Nossa última convidada a escrever um texto no "Março das Mulheres" é Luísa Olivares, uma jovem que teve sua trajetória de vida transformada pela gravidez e maternidade. 

"Ok, vamos lá! Isso é um pouco dificil pra mim...Eu me deparei com uma frase que mexeu um pouco comigo:
 "O que você já deixou de fazer por ser mulher?"

Eu poderia listar algumas coisas, mas preferi falar sobre uma luta diária que começou há quase 3 anos. 

Muitos sabem, outros talvez não... Mas eu engravidei durante a faculdade. Esperam da gente graduação, mestrado,doutorado, talvez casamento, daí filhos.... Esse é o plano "seguro", " correto". Pois bem, eu também demorei muito pra aceitar esse atalho que eu criei. Esse plano certinho também era o que eu esperava...
O que eu não esperava vivenciar era uma total FALTA de respeito, gentileza e compreensão dos outros. Eu me perguntava como uma situação dessa poderia me definir pra sempre. 

"Nossa, que MERDA! O que você vai fazer da sua vida!" ou "Toda turma tem uma que fica prenha, achei que a nossa TINHA SE LIVRADO DISSO." ou mais além: "O QUE?! Você é MÃE...tão NOVA, pq VC fez isso com a sua vida, você foi ESTUPRADA?!". 
Eu já fui chamada de " puta", "piranha". Eu já ganhei " não, a vaga não serve pra você" em laboratórios na faculdade; eu já tomei foras de caras que disseram: " ninguém quer se relacionar com esse tipo de mulher"... Tudo isso porque sou nova e mãe.  

E se eu fosse um homem na faculdade... Durante a semana correndo atrás dos meus objetivos....final de semana eu estivesse em Teresópolis pra estar com meu filho e dar uma ajuda aos meus avós aposentados que cuidam dele... Talvez as coisas fossem diferentes... Talvez eu tomaria menos "foras" já que eu seria fofo e responsável. Talvez o meu chefe seria muito compreensivo em entender que eu sou pai e mereço uma oportunidade. Talvez, talvez... 

Ao mesmo tempo, agradeço aos amigos maravilhosos que existem em minha vida...aqueles de sangue e de sintonia. 
E às mães que dão nó em pingo d'água: todo meu respeito."


 Luísa Olivares, universitária.
Mulher desde sempre; mãe aos 21; forte desde então. 

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quinta-feira, 10 de março de 2016

Eu mulher e as várias outras que existem em mim, em nós - por Christiane Rezende

Dando sequência aos textos que homenageiam o "Março das Mulheres", convidamos a psicóloga Christiane Rezende, mãe e esposa, para nos falar da sua percepção e experiência como uma mulher que busca respeito e igualdade de direitos.

Foto: Sylvia Vartuli

Fui provocada por uma amiga deste blog (sim, na verdade este convite foi para mim uma provocação bem especial!) a escrever um texto sobre ser mulher dentro da minha perspectiva e vivência devido as comemorações ao Dia Internacional da Mulher. E como toda mulher, provocações são sempre desafiadoras e ainda estimulantes.

Pois bem, me veio então a cabeça de onde essa homenagem “oficial” começou, porque para mim, todos os dias são dias das mulheres que levantam cedo ou tarde, mas que nunca param a caminhada. Então, voltei no tempo e fiquei imaginando aquelas operárias de uma fábrica de tecidos, no dia 08 de março de 1857 em Nova Iorque. Naquele dia, ousadas e corajosas entraram em greve reivindicando por melhores condições de trabalho. Imaginem mais de 100 mulheres reunidas naquele tempo severamente machista, manifestando e exigindo coletivamente por direitos, equidade e justiça? Ao mesmo tempo absurdo para quem não concordava em ver mulheres daquela maneira “gritando” por seus direitos, mas necessário para a história de direitos humanos da mulher que ainda continua a seguir seu rumo.

E como acabou essa história? A mesma violência exacerbada que nos assola o dia a dia escancaradamente, seja contra a criança, jovem, mulher, idosa e homem (sim, todos nós estamos sofrendo com as violências da modernidade!) foi a que, ignorante e massacrantemente, atingiu aquelas mulheres que foram trancadas dentro da fábrica, incendiada, matando aproximadamente 130 tecelãs, mulheres, carbonizadas.

Aquelas mesmas mulheres representam as mulheres de hoje: a mulher mãe, a mulher esposa, a mulher crente, a mulher macumbeira, a mulher católica, a mulher hetero, a mulher lésbica, a mulher de família, a mulher puta, a mulher “piriguete”, a mulher que luta, a mulher que chora, a mulher... a mulher.... Que continua a caminhada descobrindo e se redescobrindo... Cheia de possibilidades, de sonhos, de lutas, de derrotas, mas também de vitórias.

E eu sou, nós somos, todas dessas mulheres em uma só! Não ousaria nos descrever e muito menos afirmar o que é ser mulher, mas posso dizer que um pouco de cada uma dessas mulheres e de outras que não coloquei aqui, existem dentro de mim (de nós), e se manifestam quando quero e preciso. E acredito que “essas mulheres” constituem na essência o que poderíamos dizer o que é ser mulher. Embora também há momentos que mesmo não podendo ou querendo algumas delas se manifestam em cada uma de nós dependendo das circunstâncias.

O mais importante é que o que realmente acho das mulheres é que elas, diante tantas qualidades, são extraordinariamente corajosas, portanto, eu sou corajosa. Sou mãe, esposa, profissional, filha, chefe, funcionária, dona de casa e pra completar lésbica. Complemento importante aqui somente porque eu não poderia deixar de citar diante a conjuntura de direitos LGBTT que têm sido conquistados. Pois, ser lésbica não me faz ser mais nem menos mulher, mas reafirma toda uma conjuntura de vida pessoal que também foi e continua sendo firmada de muita luta (não gosto muito dessa palavra, mas sinceramente não vejo outra que possa significar tanto como essa neste contexto) somada as de várias outras e diferentes mulheres.

Esse engajamento por conquistas já está em nós seres humanos, mas num mundo que prioriza o sexo masculino, acredito estar muito mais aguçado e diria afinado nas mulheres por serem capazes de fazer e ser tantas coisas ao mesmo tempo e ainda incansavelmente, como aquelas operárias de 1857, continuam firmes e ousadas para alcançarem direitos e igualdade.

E afinal, o que seria do mundo, sem a mulher? Não só pela importância da capacidade de gerar filhos, (hoje cada vez mais a tecnologia vem alçando voos de modo que em pouco tempo, acredito eu, isso não mais será uma única e exclusiva função da mulher), mas porque sem a mulher não conheceríamos o que é ser e ter real e verdadeiramente força, perspicácia, ousadia, sensibilidade, inteligência, coragem...


Então sigamos, continuemos a caminhada não somente porque ainda é preciso, mas porque sabemos muito bem onde nós queremos chegar.


Christiane Rezende é Psicóloga e Coordenadora da 
KNH Brasil Regional Sudeste e Centro-oeste

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quarta-feira, 9 de março de 2016

MULHER NA VISÃO DE UM HOMEM - por André L.R.M. Chaves

Como não poderia faltar, no "Março das Mulheres", convidamos um homem para falar da sua visão, percepção e convivência com elas. Segue o texto de André L.R.M. Chaves, médico, professor, neto, filho, irmão e amigo de mulheres incríveis, às quais presta a sua homenagem. Um texto sensível, que ressalta o importante papel da mulher na sociedade. 


André, sua  mãe e sua irmã


Alguns homens gostam de falar sobre esportes, outros sobre carros, outros sobre política, mas um assunto parece ganhar unanimidade, embora com abordagens bem diferentes: mulheres. 

E, cá estou, com o desafio de tratar de um tema central em minha vida e que, embora já tenha sido recorrentemente por mim abordado, se faz um desafio em resumir sem restringir. 

Minhas credenciais para o desafio é ser neto, filho, irmão, primo, colega de trabalho, médico, professor, amigo, ex-amante e ex-namorado de mulheres. No futuro (espero!) ser esposo e pai de mulher (exceção à regra, sempre me imaginei sendo pai de uma menina).

O primeiro desafio para um homem falar sobre mulheres sem se restringir, é, momentaneamente, colocar de fora a questão da sexualidade. A libido é um enorme fator de confusão para qualquer análise mais ponderada e menos esdrúxula sobre tudo que as mulheres são e representam em nossas vidas. Tendo isso em vista, por sagacidade, começarei falando, então, sobre mães.

Se existe uma expressão divina do amor entre um ser humano e outro, talvez o único amor plenamente incondicional, esse é o amor de uma mãe por seus filhos. Acredito que os filhos amem seus pais. Acredito que o pai ame seus filhos. Acredito no amor entre irmãos. Acredito no amor entre amigos. Acredito, inclusive, no amor romântico entre casais. Mas a sensibilidade mais atenta permite perceber que o amor de uma mãe por seus filhos está pelo menos um degrau acima. Salvo raras exceções, não existe doença, não existe deformidade, não existe falha humana em um filho que abale o amor de sua mãe. Há de se destacar, portanto, um dado aqui: a forma mais plena, pura e divina de amor está resguardada às mulheres. 

Mas, dito isso, eu que me formei no Útero de uma mulher e fui nutrido por seu amor e sabedoria, não poderia me limitar a esse aspecto. Independente da maternidade, a mulheres são as fontes inspiradoras do nosso Mundo. Suas características que percebemos como qualidades nos encantam. Suas características que percebemos como defeitos nos põem juízo. Basta dizer que, estatisticamente, homens casados vivem mais do que os solteiros. 

Nas famílias uma coisa é notória: as mulheres sempre são o cerne agregador. Filhos e maridos tendem a atitudes individualistas e impulsivas. As mulheres são o epicentro sobre o qual todos gravitam sem perder a unicidade e a coesão. É mais fácil conceber famílias funcionais sem homens do que sem mulheres. Eis a razão. 

Nas profissões, muitas das quais as mulheres começaram a participar há pouco mais de meio século, é inegável o altíssimo padrão de profissionalismo e dedicação. Nas duas profissões que exerço, ambas majoritariamente femininas, tenho nas minhas colegas padrões de excelência. Sempre com muito mais para me ensinar, do que para aprender. Orgulho-me de ter em muitas delas alguns de meus referenciais no bom exercício daquilo a que mais me dedico.

Mas, e o convívio entre homens e mulheres? Bom, eis a parte mais capciosa de meu breve texto (pelo menos no que se refere a vastidão do tema). Esse convívio notoriamente se modificou muito ao longo dos séculos. Enquanto o meio ambiente e as relações das sociedades humanas eram muito hostis, uma relação de proteção se fez necessária e, infelizmente, uma relação de dominação também acabou se estabelecendo. Mulheres, hora eram protegidas e subordinadas aos seus pais, hora eram protegidas e subordinadas aos seus maridos. Contudo, desde a segunda metade do século XX, sobretudo na cultura Ocidental, a mulher reivindicou e assumiu definitivamente sua independência e seu espaço e essas relações foram forcadas a mudar. As mulheres se tornaram plenamente capazes de se auto-sustentar, de se auto-realizar e se tornaram protagonistas de suas próprias histórias de vida. O homem que ainda não percebeu isso se encontra submerso, a bater a cabeça contra o muro de sua própria ignorância, sem saber como participar desse novo Mundo.

Mas uma coisa é certa: nenhum homem quer viver em um Mundo sem as mulheres, havendo, então, sempre a esperança na dedicação de ele querer, um dia, aprender. Isso desde que as mulheres não se submetam a relevar essa remanescente ignorância masculina.

Mas, que não nos confundamos. Em uma coisa, John Gray estava certo: homens são de Marte e mulheres são de Vênus. Por mais que devamos defender a plena igualdade de Direitos e Deveres entre homens e mulheres, jamais devemos pensar, por algum instante, que homens e mulheres são iguais. Isso é um erro primário no estabelecimento de relações saudáveis entre os dois gêneros. Nos diferimos em visão de Mundo, comportamento padrão, sensibilidade, humor e suas variações, suscetibilidade uns aos outros, sexualidade, etc, etc. A mulher que tentar entender um homem como se ele tivesse mentalidade feminina será tão fracassada quanto um homem que tentar entender uma mulher com se ela tivesse mentalidade masculina.

As mulheres são diferentes dos homens e minha única opinião sobre isso é: AINDA BEM! 

Por tudo isso eu exclamo: viva as mulheres! Precisamos muito de vocês em nossas vidas! Não desistam de nós homens!


André Luiz Rocha Mendes Chaves é Ginecologista e Obstetra e
Professor de Saúde da Mulher pela Faculdade de Medicina da UFSJ

terça-feira, 8 de março de 2016

O PODER DE UM BASTA - por Vanessa Vandesteen

Celebrar o Dia Internacional da Mulher não consiste apenas em homenagear sua graça, força e diversidade, ou exaltar seu papel na sociedade. É, principalmente, uma data que simboliza a luta por seus direitos, por mais respeito e igualdade e pelo fim da violência.  

Sendo assim, trazemos um texto de  Vanessa Vandesteen,
mulher, mãe, filha, neta, pediatra, resiliente, sobrevivente de violência doméstica, voz que jamais será calada.




Senta feito moça, menina!
Não fala assim, quem vai querer casar com você?
Mulher direita não faz nada disso!
Quem vai dar janta ao seu marido, se você vai chegar a essa hora em casa, do trabalho?
Ah, ele te bateu? E o que você fez, pra ele chegar a isso?
Estupro? Saiu vestida assim, bebeu, e vem com essa depois?
Estupro?? Você é casada com ele! Ele tem seus direitos!

Peraí… Em que ano estamos? Que dia é hoje? Tem certeza???
Ok, não faz nem um século que adquirimos voz (obrigada, sufragistas!). Talvez faça um pouco mais que isso que deixamos de ser gado, com cotação de mercado e dote. Ou que nossos “donos” deixaram de ter o direito de nos internar em sanatórios, cada vez que agíamos contra suas vontades. Em boa parte do mundo, ao menos… Faz tão pouco tempo…
Mas mulher que faz o que quer ainda é puta.
Esposa, ainda é escrava e tem que dar conta de casa, filhos, marido e carreira sozinha, sorrindo e linda.
Mulher boa ainda é submissa, cordata, obediente e precisa querer ser magra o tempo todo. Ainda há quem ache que precisamos esperar provedores encantadores que nos salvarão de todos os perigos.
Ainda há quem separe as mulheres entre as que merecem ou não ser estupradas. Faz tão pouco tempo…
Mas as mães ainda educam suas filhas para serem princesas em busca do príncipe encantado. Ainda educam seus filhos pra serem pegadores, sempre em busca da próxima…


Enquanto essa for nossa realidade, a luta daquelas mulheres, que apanharam nas ruas, foram presas, humilhadas, surradas e violadas, por ter o desplante de achar que mulheres deviam votar e trabalhar em lugares que não fossem bordéis, não acabou. Enquanto mulheres não puderem ter voz, precisamos das nossas, elevadas, por elas. Até que todas as mulheres conheçam a força de sua individualidade, o poder de um BASTA, a supremacia de um NÃO, a luta não estará terminada. Quebremos os padrões, mulheres. Sejamos mais, deixemos um legado melhor. Filhos e filhas mais engajados na igualdade e no respeito mútuo. Avante, sufragistas, feministas, mulheres, humanidade. A luta não terminou. Ontem, hoje, todos os dias.

Vanessa Vandesteen é mãe, pediatra e sobrevivente de violência doméstica

sábado, 5 de março de 2016

QUEM É ELA? - por Carina Bortolini

Dando continuidade ao "Março das Mulheres", apresentamos um texto de Carina Bortolini, que homenageia as mulheres em algumas de suas formas, opções, peculiaridades e pluralidade. Carina é formada em Direito, servidora pública, casada e mãe de Estevão e Isabel.




Ana acorda às cinco
Leva os filhos pra creche
Trabalha o dia todo
À noite, prepara o jantar cantando

Teresa sempre foi a primeira da classe
Passou em quatro vestibulares
É mestre e doutora
Decidiu não se casar

Lídia é feliz no casamento
Mas não pode engravidar
Após anos na fila de adoção
Agora é mãe de Juliana

Maria lida na roça desde criança
Teve nove filhos
Agora que todos estão crescidos
Está aprendendo a ler

Roberta é muito apaixonada
Quando ama, se entrega
Mesmo após alguns romances frustrados
Ainda acredita no verdadeiro amor

Clara tem uma linda casa
Um marido amoroso
E dois gatos
Adora crianças, mas não quer ser mãe

Lúcia era casada há vinte anos
Quando foi traída e abandonada
Escolheu continuar vivendo
Agora faz dança de salão

Joana tinha um ótimo emprego
Quando se viu mãe de uma criança especial 
Largou tudo para se dedicar 
E jamais se arrependeu

Elena é uma idealista
Não se conforma com injustiças
Olha sempre para o outro
Ela quer mudar o mundo

Quem são elas?
Sou eu, somos nós
Somos emoção e razão
Somos força e zelo
Somos alma e carne
Somos coragem, muita coragem
Somos mulheres.


Carina Bortolini é formada em Direito pela PUC-MINAS,
 servidora pública federal, casada e mãe de dois filhos.









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quinta-feira, 3 de março de 2016

E se a gente quase fluxo ? por Natalie Lima

O mês de março chegou e com ele se aproxima o Dia das Mulheres. Poderíamos fazer mais um texto elogiando a força e a beleza das mulheres. Ou, quem sabe, falar sobre feminilidade, amor, filhos e maternidade.  Concluímos que não seria possível englobar tudo em um texto só, porque porque somos muitas. E somos únicas. Em cada uma dessas mulheres encontramos algo que nos identifica...

Foi assim que nasceu o "Março das Mulheres". A primeira escolhida foi a querida Natalie Lima. Escritora e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pelo Departamento de Letras da PUC-Rio. Vamos?

Se a gente quase fluxo?

por Natalie Lima 

Minha amiga Bárbara fez-me um convite: aproveitar este 8 de março para escrever um texto em homenagem à mulher. 
Gosto de vê-la, essa mulher, como várias, tantas, umas-e-outras e eu também – todas mulheres, nós muitas, indefiníveis. 
Tão diferentes e incontáveis entre si, que eu não ouso dizer que represento qualquer uma delas. Também não consigo escolher uma, umazinha que seja, pra me representar. 
Sou incapaz até de pensar na imagem nítida de uma mulher. Quando tento, geralmente tudo fica meio embaçado: tem vezes em que um contorno se movimenta rapidamente, ou então uma forma se desloca bem devagar: vejo bichos, vejo rapazes, vejo moças e seios, vejo canais e suas águas, terra rachada, pés de mandacaru. 
Acho que isso acontece porque a mulher, uma mulher, tantas mulheres, essas de múltiplas naturezas,sempre escapam. Das idealizações, dos estereótipos, dos controles. E tá cheio dessa porcaria por aí: como se vestir, onde protestar, com quem ficar, quando casar, como parir, quando calar, com quem gozar, como falar, quando chorar, onde rebolar, quando lutar... 
A lista de cerceamentos é infinita e chata, então tratemos logo de escapar a ela:
A vida é de cada uma de nós e é frágil, coisa a proteger sem cessar, e desconfio que se faz isso apostando e investindo no prazer, na escuta, no trabalho, no amor, na cidadania, na invenção, numa existência plena de desejos, enfim. 
Aí sim, aí se escapa aos controles em pleno meio-dia, e aí também se experimenta algo de precioso, uma “fonte de água pura”, como dizia Paulinho da Viola: fazer da existência um ato diário de criação é aceitar ser arrastada por um fluxo desejante que abraça o mundo, suas imagens instáveis, liquefeitas, permitindo-se encontrar e ser encontrada por coisas e pessoas que aumentam a potência de agir: ainda uma vez nova, agora mais uma mulher. 
São várias as “minhas” imagens fugidias, as “minhas” mulheres que ensinam a escapar. Gostaria de compartilhar ao menos algumas aqui: 
• minha avó pernambucana de 92 anos, Alzheimer pulsando, des-controlando, ela com colher de pau a mexer um pirão de peixe com graça de artista e cintura de moça, um vapor marinho saindo da panela e perfumando o ar; 
• a atriz francesa Jeanne Moreau no papel da insólita Catherine, jogando-se de supetão no rio Sena, encharcando-se, deixando Jules et Jim boquiabertos;
• uma outra avó, também minha, a que morreu com 105 anos e 19 filhos, indo embora do sertão baiano há quase um século, pequena e menina, em busca de terra e de água para parir tanta gente depois, em Goiás; 
• a escritora Clarice Lispector, aquela de Água viva, a escolher palavras na abundância, como ela mesma diz, de “fontes, lagoas e cachoeiras”;
• as garotas do movimento afro-funk, no Rio de Janeiro, suor deslizando aos 40 graus e percorrendo seus corpos, que elas balançam como bem querem; 
• Elza Soares, a “mulher do fim do mundo” ainda voz cantando tão negra e gata e insistente –procure um vídeo dela no Youtube e entenda o que estou dizendo em menos de 20 segundos;
• esta que escreve, que mal se divisa, mas onde desaguaram a fonte, o rio, o riso, a seca, o choro, o vapor do mar, o suor e as umidades.

Daí o convite, urgente e alegre convite: E se a gente quase fluxo?


  Natalie Lima é escritora e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pelo Departamento de Letras da PUC-Rio.





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