quinta-feira, 3 de março de 2016

E se a gente quase fluxo ? por Natalie Lima

O mês de março chegou e com ele se aproxima o Dia das Mulheres. Poderíamos fazer mais um texto elogiando a força e a beleza das mulheres. Ou, quem sabe, falar sobre feminilidade, amor, filhos e maternidade.  Concluímos que não seria possível englobar tudo em um texto só, porque porque somos muitas. E somos únicas. Em cada uma dessas mulheres encontramos algo que nos identifica...

Foi assim que nasceu o "Março das Mulheres". A primeira escolhida foi a querida Natalie Lima. Escritora e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pelo Departamento de Letras da PUC-Rio. Vamos?

Se a gente quase fluxo?

por Natalie Lima 

Minha amiga Bárbara fez-me um convite: aproveitar este 8 de março para escrever um texto em homenagem à mulher. 
Gosto de vê-la, essa mulher, como várias, tantas, umas-e-outras e eu também – todas mulheres, nós muitas, indefiníveis. 
Tão diferentes e incontáveis entre si, que eu não ouso dizer que represento qualquer uma delas. Também não consigo escolher uma, umazinha que seja, pra me representar. 
Sou incapaz até de pensar na imagem nítida de uma mulher. Quando tento, geralmente tudo fica meio embaçado: tem vezes em que um contorno se movimenta rapidamente, ou então uma forma se desloca bem devagar: vejo bichos, vejo rapazes, vejo moças e seios, vejo canais e suas águas, terra rachada, pés de mandacaru. 
Acho que isso acontece porque a mulher, uma mulher, tantas mulheres, essas de múltiplas naturezas,sempre escapam. Das idealizações, dos estereótipos, dos controles. E tá cheio dessa porcaria por aí: como se vestir, onde protestar, com quem ficar, quando casar, como parir, quando calar, com quem gozar, como falar, quando chorar, onde rebolar, quando lutar... 
A lista de cerceamentos é infinita e chata, então tratemos logo de escapar a ela:
A vida é de cada uma de nós e é frágil, coisa a proteger sem cessar, e desconfio que se faz isso apostando e investindo no prazer, na escuta, no trabalho, no amor, na cidadania, na invenção, numa existência plena de desejos, enfim. 
Aí sim, aí se escapa aos controles em pleno meio-dia, e aí também se experimenta algo de precioso, uma “fonte de água pura”, como dizia Paulinho da Viola: fazer da existência um ato diário de criação é aceitar ser arrastada por um fluxo desejante que abraça o mundo, suas imagens instáveis, liquefeitas, permitindo-se encontrar e ser encontrada por coisas e pessoas que aumentam a potência de agir: ainda uma vez nova, agora mais uma mulher. 
São várias as “minhas” imagens fugidias, as “minhas” mulheres que ensinam a escapar. Gostaria de compartilhar ao menos algumas aqui: 
• minha avó pernambucana de 92 anos, Alzheimer pulsando, des-controlando, ela com colher de pau a mexer um pirão de peixe com graça de artista e cintura de moça, um vapor marinho saindo da panela e perfumando o ar; 
• a atriz francesa Jeanne Moreau no papel da insólita Catherine, jogando-se de supetão no rio Sena, encharcando-se, deixando Jules et Jim boquiabertos;
• uma outra avó, também minha, a que morreu com 105 anos e 19 filhos, indo embora do sertão baiano há quase um século, pequena e menina, em busca de terra e de água para parir tanta gente depois, em Goiás; 
• a escritora Clarice Lispector, aquela de Água viva, a escolher palavras na abundância, como ela mesma diz, de “fontes, lagoas e cachoeiras”;
• as garotas do movimento afro-funk, no Rio de Janeiro, suor deslizando aos 40 graus e percorrendo seus corpos, que elas balançam como bem querem; 
• Elza Soares, a “mulher do fim do mundo” ainda voz cantando tão negra e gata e insistente –procure um vídeo dela no Youtube e entenda o que estou dizendo em menos de 20 segundos;
• esta que escreve, que mal se divisa, mas onde desaguaram a fonte, o rio, o riso, a seca, o choro, o vapor do mar, o suor e as umidades.

Daí o convite, urgente e alegre convite: E se a gente quase fluxo?


  Natalie Lima é escritora e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pelo Departamento de Letras da PUC-Rio.





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