terça-feira, 8 de março de 2016

O PODER DE UM BASTA - por Vanessa Vandesteen

Celebrar o Dia Internacional da Mulher não consiste apenas em homenagear sua graça, força e diversidade, ou exaltar seu papel na sociedade. É, principalmente, uma data que simboliza a luta por seus direitos, por mais respeito e igualdade e pelo fim da violência.  

Sendo assim, trazemos um texto de  Vanessa Vandesteen,
mulher, mãe, filha, neta, pediatra, resiliente, sobrevivente de violência doméstica, voz que jamais será calada.




Senta feito moça, menina!
Não fala assim, quem vai querer casar com você?
Mulher direita não faz nada disso!
Quem vai dar janta ao seu marido, se você vai chegar a essa hora em casa, do trabalho?
Ah, ele te bateu? E o que você fez, pra ele chegar a isso?
Estupro? Saiu vestida assim, bebeu, e vem com essa depois?
Estupro?? Você é casada com ele! Ele tem seus direitos!

Peraí… Em que ano estamos? Que dia é hoje? Tem certeza???
Ok, não faz nem um século que adquirimos voz (obrigada, sufragistas!). Talvez faça um pouco mais que isso que deixamos de ser gado, com cotação de mercado e dote. Ou que nossos “donos” deixaram de ter o direito de nos internar em sanatórios, cada vez que agíamos contra suas vontades. Em boa parte do mundo, ao menos… Faz tão pouco tempo…
Mas mulher que faz o que quer ainda é puta.
Esposa, ainda é escrava e tem que dar conta de casa, filhos, marido e carreira sozinha, sorrindo e linda.
Mulher boa ainda é submissa, cordata, obediente e precisa querer ser magra o tempo todo. Ainda há quem ache que precisamos esperar provedores encantadores que nos salvarão de todos os perigos.
Ainda há quem separe as mulheres entre as que merecem ou não ser estupradas. Faz tão pouco tempo…
Mas as mães ainda educam suas filhas para serem princesas em busca do príncipe encantado. Ainda educam seus filhos pra serem pegadores, sempre em busca da próxima…


Enquanto essa for nossa realidade, a luta daquelas mulheres, que apanharam nas ruas, foram presas, humilhadas, surradas e violadas, por ter o desplante de achar que mulheres deviam votar e trabalhar em lugares que não fossem bordéis, não acabou. Enquanto mulheres não puderem ter voz, precisamos das nossas, elevadas, por elas. Até que todas as mulheres conheçam a força de sua individualidade, o poder de um BASTA, a supremacia de um NÃO, a luta não estará terminada. Quebremos os padrões, mulheres. Sejamos mais, deixemos um legado melhor. Filhos e filhas mais engajados na igualdade e no respeito mútuo. Avante, sufragistas, feministas, mulheres, humanidade. A luta não terminou. Ontem, hoje, todos os dias.

Vanessa Vandesteen é mãe, pediatra e sobrevivente de violência doméstica

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