sábado, 28 de maio de 2016

Estupro: estamos protegidas?

Recentemente, fomos invadidos por uma noticia alarmante, que revirou o estomago de todos. Ou de quase todos. Uma menina de 17 anos foi estuprada por mais de 30 homens que, não satisfeitos, a filmaram desacordada com a vagina sangrando, postaram nas redes sociais e ironizaram. Logo se juntaram outros para rir da situação. O que temos é um show de covardia animalesca.

E mais triste foi ver que, até mesmo em comentários chocados com a situação , vários homens  colocaram a culpa na maneira como a jovem estava vestida, no fato dela se drogar, no fato de estar em um baile sozinha. Mas, quer pior? O pior foram os comentários das mulheres.  

Estas que acham que isso só aconteceu porque a jovem facilitou com um comportamento inadequado. Será que elas acham que estão salvas porque sabem se vestir?  Ou porque não vão ao Baile de Favela? Vi uma colocação que isso aconteceu porque era um baile na zona oeste do Rio de Janeiro e que não acontece no lugar em que estamos acostumadas a frequentar com nossos amigos e familiares. 

E este sentimento amargo que está dentro de mim me fez lembrar de algumas historias que conheço.  Sou mulher, mãe, médica ginecologista. Acostumada com mulheres o dia todo. E vou contar aqui. Que situação ou comportamento nos expõe ou nos protege? 

Estamos protegidas quando...

Quando vamos a um churrasco com amigos da faculdade - Belo Horizonte, MG

 Uma amiga estava em um churrasco de sua turma de faculdade de medicina, em uma casa. Amigos cujo convívio era diário e de extrema confiança. Todos beberam e se divertiram. Em um determinado momento ela procura um lugar para se deitar e entra em um dos quartos que tinha duas camas de solteiro e um colchonete entre elas.  Se deparou a cena chocante. Uma amiga já estava deitada e dormindo. Um amigo estava acariciando os seios desta colega e se masturbando. Ficou nervosa e o expulsou dali. 
Mas a historia não para por ai. Após o acontecido, minha amiga preferiu não falar nada para ninguém e foi se deitar. Acordou com uma dor dilacerante e se deu conta que este colega (que me recuso, agora, a chamar de amigo),  que ela não denunciou na hora, havia voltado e a penetrado por trás. Ela gritou e, com seu esforço, e ele correu e saiu de perto do quarto. 
Amigos que escutaram os gritos, que não foram muitos, amenizaram a situação e colocaram o quanto ela havia facilitado por ter bebido e estar desacordada.  Que ela estava exagerando a situação e que o contexto não era aquele. E se ela levasse adiante ou contasse desta forma iria prejudicar uma pessoa para a vida toda. E as que colocavam mais panos quentes eram as amigas mulheres. 
Uma menina, nova , feliz, entre amigos em churrasco dentro de uma casa, com sua turma de medicina que ela via diariamente. Ela se sentiu culpada e acuada. Sera mesmo que ela facilitou ? O que ela poderia ter feito para evitar ? E não contou mais nada para ninguém. Já se passaram 20 anos.  Isso marcou a vida dela que não consegue esquecer e se perguntar se existia outra alternativa para ela. E para o estuprador ? Nada. Ele é medico, exerce sua profissão dignamente e não tem nada que manche seu currículo.. 

Quando vamos a uma festa de aniversario de uma amiga - Brasília, DF

Uma paciente estava em uma festa de aniversario na casa de uma amiga. Ali tinha familiares, amigos e amigos da amiga. Um lugar seguro e acolhedor. Todos beberam e se divertiram. Ela resolve entrar para dormir em um dos quartos. E a cena da historia anterior se repete. Ela acorda com dor e percebe que tinha sido penetrada por trás enquanto dormia. O estuprador foge com os gritos. No caso, ela não o conhecia. Era amigo da amiga, convidado para a mesma festa que ela. Classe Media alta. Mas este agressor deixou cair sua carteira durante a fuga e, assim, foi identificado pela vitima e por alguns amigos que foram ajudar. Ela foi a uma emergência e lá foi avaliada por um proctologista. Fissura anal. Fissura na alma. E vamos colocar panos quentes. Uma amiga disse que ela facilitou porque tinha bebido e estava desacordada. Isso foi semana passada.

Quando viajamos com o namorado - Rio de Janeiro

 Ela estava programando há meses esta viagem para descansar. Foi com o namorado para uma pousa maravilhosa em Cabo Frio. No seu primeiro dia, acordou às 8 h , deixou o namorado dormindo e foi correr. Se libertar. Ver a natureza, música , corrida ... 
Chegou em uma parte linda da praia mas se deu conta que estava sozinha. Não deu tempo de voltar.  Apareceu seu algoz. E ali, naquela praia perfeita, ele a estuprou. A areia e o ato violento a machucaram profundamente. Mais do que pode se ver. 
E, quando ela foi deixada lá e conseguiu socorro, a primeira coisa que escutou foi: Mulher não pode correr sozinha por aqui.  E ela se perguntou: Por que fui sozinha ? Por que não esperei ele acordar ?

Quando vamos a um torneio de jogos esportivos de estudantes de Medicina - Rio de Janeiro

Uma estudante se junta com seus amigos e vai ao torneio estadual de estudantes de medicina em outro estado. Ficam no alojamento fornecido pela organização do evento, no mesmo quarto que todos os seus amigos. 
Durante a festa, todos bebem e se divertem. No fim do dia, ela se cansa e vai dormir no alojamento. Seus amigos entram e a encontram lá. 
Cinco deles resolvem que ela estava facilitando  e se revezaram sobre ela.  Não teve foto, não foi para a rede social . 
Aliás, eles abafaram o caso. Isso iria estragar a carreira destes futuros médicos. E ela pediu isso?  Só porque foi sozinha e não esperou seus amigos para irem junto? Mas,  que amigos, mesmo ?

Quando temos um namoro saudável e familiar - Rio de Janeiro

Uma amiga, cursando a faculdade de direito, namorava um colega de turma. Um namoro familiar onde um frequentava a casa do outro. 
Ela terminou o namoro. Mas ele ficou chateado e queria conversar . Ela foi até a casa dele, afinal, ele sempre foi tão bacana com ela! 
O ex namorado queria reatar e investiu no "sexo pra fazer as pazes". Ela não queria reatar mas, o sexo, foi obrigada a fazer. 
Foi na casa dele, aquela mesma casa onde sempre ficavam juntos, viam filmes, estudavam e riam. E ela se perguntou se realmente importava aquele último sexo, já que isso tinha acontecido tantas outras vezes?

Estas são histórias verídicas, das quais tomei conhecimento porque aconteceram no meu meio, próximas a mim. Já pararam para imaginar de quantas não sabemos? Por isso, penso que as mulheres não estão seguras. Minha filha não está segura.  Em que mundo vivemos? Porque fingimos existir igualdade entre os sexos ? 

O que nos resta é criar os nossos meninos e futuros homens aprendendo o valor da mulher. Ensinem aos seus filhos a respeitarem as mulheres e não suas filhas a temerem os homens. Mostrando a nossa força, nossos filhos nos terão como exemplo. 

Uma boa reflexão para todos.




domingo, 8 de maio de 2016

MÃES DE ILITIA

Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito
Também o céu tem três letras
E nelas cabe o infinito
Para louvar a nossa mãe,
Todo bem que se disser
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do CÉU
E apenas menor que Deus!
(Mário Quintana)

Tathiane Passos, Rio de Janeiro
  
Luisa Olivares, Rio de Janeiro
Gabrieli Dietrick Rodrigues, Santa Catarina



Carina Bortolini, Minas Gerais
Priscilla


Gostaríamos de demonstrar todo nosso respeito e admiração por essas mulheres que se dedicam a uma nobre missão que envolve amor, zelo, responsabilidade, renúncia... que têm a incumbência de educar e formar seres humanos. Nossa homenagem a todas as mães, que gestaram ou não, que deram à luz à sua maneira, às futuras mamães, que têm em comum o amor, na sua forma mais incondicional e infinita. 


Christiane Rezende, Minas Gerais



Janaína R. dos Santos, São Paulo

Nathalia Munhoz, São Paulo

Juliana Parada, Minas Gerais

Para finalizar, segue um vídeo lindo,feito a partir da adaptação do livro Mãe, de Cris Guerra, com ilustrações de Anna Cunha. Feliz Dia das Mães!



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domingo, 1 de maio de 2016

CESÁREA HUMANIZADA? - Por Juliana Parada

Sim, é possível humanizar a cesariana. Através do belo relato de Juliana Parada, queremos mostrar que pequenos gestos e atitudes da equipe podem fazer toda a diferença na experiência do parto. E que toda via de parto tem sua magia e emoção.


Meu primeiro filho nasceu há pouco mais de 3 anos, por meio de cesárea possivelmente  desnecessária. Durante sua gravidez eu afirmava querer um parto normal, porém sempre com aquele MAS emendado ao final da frase: MAS “quero segurança, não quero riscos”, “MAS o bebê é grande”, “MAS se for necessária uma cesárea, tudo bem”... Por fim, foi assim que ele chegou: em uma data limite estabelecida, com 40 semanas e 5 dias, sem que eu entrasse em trabalho de parto. 

A cesariana e o pós-operatório transcorreram tranquilamente, MAS diferente do que eu imaginava, não ficou “tudo bem” para mim. Fiquei ressentida por ter adotado uma postura tão passiva durante toda a gravidez, apenas “esperando” que um parto normal acontecesse, mas sem de fato me mobilizar para isso – seja em termos de me preparar física e psicologicmente, seja na escolha do obstetra.

Eu sempre afirmei e continuo afirmando que, independente da via de parto, o nascimento de um filho e o primeiro contato com ele é o momento mais sublime e transcendental da vida de uma pessoa! E foi. Entretanto, o detalhe de viver esta chegada imobilizada atrás de um campo cirúrgico passou a ser bastante desconfortável para mim.

Na segunda gravidez, vi a possibilidade de ter uma experiência diferente e fui a fundo no que eu considerava importante para aumentar as chances de viver um parto normal – ainda mais sabendo que devido a cesárea prévia existiam restrições em termos das condutas médicas para proporcionar este desfecho. Mergulhei de cabeça e coração neste desejo. Li livros, me informei muito sobre a fisiologia do parto, passei a acreditar na funcionalidade do meu corpo em parir um bebê grande, e desenvolvi um senso de segurança pessoal bastante sólido. Vi filmes e vídeos, li relatos de partos lindos, visualizei como poderia ser o meu. Pratiquei pilates, ioga, fisioterapia para preparar o assoalho pélvico, fiz massagens perineais, treinamento do expulsivo. Escolhi uma equipe multidisciplinar engajada com o parto normal “humanizado”, uma doula, uma maternidade com suíte de parto, e passei a considerar fortemente a possibilidade de um parto natural hospitalar - algo inimaginável dentro das minhas perspectivas anteriores.

No meu modo de ver, o grande desafio seria entrar espontaneamente em trabalho de parto – pois eu tinha plena convicção e segurança que “minha parte” seria feita da melhor maneira possível à partir daí. Mas quando a gente se engaja em um projeto que não depende exclusivamente dos nossos desejos, também é importante que nos prepararemos para a possibilidade de uma frustração. Eu considerava que a cesárea poderia ser necessária – e achava que estava preparada para este caso. Mas não imaginava o quanto seria difícil lidar com o turbilhão emocional que aconteceu conforme esta perspectiva foi se tornando mais próxima e concreta.

As semanas foram passando: 39, 40, 41... Faço acupuntura, terapias interativas, me mantenho ativa, namoro. Converso com o bebê, me sinto pronta para recebê-lo, peço que ele venha, me despeço da barriga. Tento ficar tranquila, manter a positividade, relaxar e lidar da melhor forma possível com as expectativas e com a passagem do tempo. Mas começo a vacilar entre acreditar ou me resignar. Tem virada para lua cheia, quem sabe? Será um daqueles bebês que resolvem nascer na noite da véspera da cesárea?

41 semanas e 3 dias, cinco descolamentos de bolsa, e nem sinal de trabalho de parto, apenas contrações de treinamento. O tempo que considerávamos seguro e que estávamos dispostos a esperar estava se esgotando. O que eu mais temia aconteceu de novo: cesárea marcada no prazo limite, desta vez já estendido.

Chorei bastante na véspera - lágrimas que corriam pela constatação e agora a certeza de que não poderia viver a experiência que tanto esperei e para a qual tanto me preparei. Impossibilidade de sequer experienciar o trabalho de parto, sentir o funcionamento pleno do corpo e a manifestação do meu filho de que era chegada sua hora. Ao mesmo tempo, me apegava ao sentimento de gratidão por ter engravidado sem dificuldades, pela gestação sem problemas, e por ter tido uma experiência pessoal tão enriquecedora neste percurso de auto- conhecimento. Através dele desconstruí todos os meus medos, reconstruí minhas crenças sobre o parir, entendi intimamente essência do termo “empoderamento” (que, confesso, antes me incomodava), me transformei como mulher e médica, tive o respeito e a admiração do meu marido, o apoio de minha família e de muitas mulheres magníficas que encontrei pela caminhada.

Em meio às lágrimas silenciosas, recebi um abraço do marido e depois em minhas mãos o livro Grande Sertão Veredas, com um trecho grifado: “O real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Desabo, sorrio. Precisava me refazer e ir receber meu filhote feliz e com uma energia boa, pois foi ele quem catalisou todas estas transformações pessoais. Fosse como fosse, tinha que agradecer, com a certeza de que desta vez o caminho necessário fora trilhado, embora não tivesse me levado para o destino que eu almejava.

Fazia parte do meu plano de parto a definição de opções para o caso de necessidade de cesariana, e pude escolher ativamente vários detalhes. Assim, a sala do bloco foi deixada à meia luz. Colocamos nosso playlist do parto, compilado ao longo dos meses, com músicas escolhidas a dedo e carregadas de sentido afetivo. Fiquei com os braços soltos e a cabeça elevada. Não fui sondada. Para que eu pudesse ver o exato momento em que ele foi delicadamente retirado do meu ventre, o campo cirúrgico foi abaixado. Coincidentemente, tocava "Chorinho para ele", de Hermeto Pascoal. Não tive como conter muitas lágrimas de emoção: aquelas que ocorrem naturalmente durante o parto, e aquelas de alívio e alegria por poder estar naquelas condições diferenciadas e especiais apesar de tudo der ocorrido de forma tão diferente do que imaginei! Sim, era uma cesárea, mas totalmente diferente. Ao longo do processo, as lágrimas do lamento se tornaram lágrimas de emoção e profundo agradecimento pelos gestos da equipe que nos assistia. Gestos simples, mas que fazem toda diferença para quem está do lado de trás do campo cirúrgico!

Ao nascer, meu filho foi colocado imediatamente sobre meu colo e todos contemplamos sorridentes sua chegada. Ele estava tranquilo e demorou um pouco para chorar, mas se apresentava nitidamente bem e não foi feita nenhuma manobra para estimulá-lo neste sentido. A pediatra estava na sala e respeitou nosso momento, permitindo que ficasse conosco sem qualquer interferência. A equipe falava baixo e discretamente, sem conversas paralelas, com muito respeito ao momento singular de nossa família.

Creio que nunca irei me esquecer das sensações táteis de sentir o calor que ele trazia ao sair de dentro de mim, a textura e a umidade das secreções que o envolviam e o vérnix escorregadio cobrindo seu corpo. O cordão foi cortado pelo pai, depois de vários minutos. A camisola foi abaixada e meus braços retirados das mangas. Ficamos pele a pele até o final da cirurgia. Somente depois de bastante tempo ele foi levado para ser examinado, acompanhado pelo pai, e retornou rapidamente para meu colo. Ele não foi aspirado, como solicitamos, e optamos por não aplicar o colírio. Logo vieram auxiliar a amamentação, ainda que naquela posição desfavorável, com cuidado e delicadeza.


Na verdade, não consegui deixar de chorar aquelas mesmas lágrimas silenciosas em vários momentos desde que acordei antes do despertador tocar naquele 23 de abril: ao me olhar no espelho, ao chegar ao hospital sem trabalho de parto, na assinatura do termo de consentimento para a cesárea, no encontro com minha obstetra e ao apertar suas mãos com olhares sinceramente cúmplices e emocionados, ao ir caminhando para o bloco e ao me deitar e receber a anestesia, enquanto deixava de sentir meu corpo e de ser ativa no processo do nascimento. Mas me lembrarei desta cesárea como um procedimento cuidadoso, caloroso e respeitoso, no qual estava cercada de pessoas especiais que acompanharam minha trajetória e que me apoiaram do início ao fim, que apostaram sinceramente que seria possível, que me estimularam sempre e me guiaram por esta profunda jornada pessoal de quebra de paradigmas.

Minhas lágrimas onipresentes e inevitáveis foram acolhidas e respeitadas, posto que compreendidas. E assim pude viver este sublime momento de encontro com o Nuno, com um Chorinho para Ele, à minha maneira e à minha intensidade, da forma mais linda que podia ser na nossa história: o real na travessia, venha como vier!

Juliana Parada
Médica psiquiatra que gosta de cultivar e compartilhar pensamentos e reflexões sobre a maternidade
Instagram: MAMAE.PENSADORA.

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