domingo, 1 de maio de 2016

CESÁREA HUMANIZADA? - Por Juliana Parada

Sim, é possível humanizar a cesariana. Através do belo relato de Juliana Parada, queremos mostrar que pequenos gestos e atitudes da equipe podem fazer toda a diferença na experiência do parto. E que toda via de parto tem sua magia e emoção.


Meu primeiro filho nasceu há pouco mais de 3 anos, por meio de cesárea possivelmente  desnecessária. Durante sua gravidez eu afirmava querer um parto normal, porém sempre com aquele MAS emendado ao final da frase: MAS “quero segurança, não quero riscos”, “MAS o bebê é grande”, “MAS se for necessária uma cesárea, tudo bem”... Por fim, foi assim que ele chegou: em uma data limite estabelecida, com 40 semanas e 5 dias, sem que eu entrasse em trabalho de parto. 

A cesariana e o pós-operatório transcorreram tranquilamente, MAS diferente do que eu imaginava, não ficou “tudo bem” para mim. Fiquei ressentida por ter adotado uma postura tão passiva durante toda a gravidez, apenas “esperando” que um parto normal acontecesse, mas sem de fato me mobilizar para isso – seja em termos de me preparar física e psicologicmente, seja na escolha do obstetra.

Eu sempre afirmei e continuo afirmando que, independente da via de parto, o nascimento de um filho e o primeiro contato com ele é o momento mais sublime e transcendental da vida de uma pessoa! E foi. Entretanto, o detalhe de viver esta chegada imobilizada atrás de um campo cirúrgico passou a ser bastante desconfortável para mim.

Na segunda gravidez, vi a possibilidade de ter uma experiência diferente e fui a fundo no que eu considerava importante para aumentar as chances de viver um parto normal – ainda mais sabendo que devido a cesárea prévia existiam restrições em termos das condutas médicas para proporcionar este desfecho. Mergulhei de cabeça e coração neste desejo. Li livros, me informei muito sobre a fisiologia do parto, passei a acreditar na funcionalidade do meu corpo em parir um bebê grande, e desenvolvi um senso de segurança pessoal bastante sólido. Vi filmes e vídeos, li relatos de partos lindos, visualizei como poderia ser o meu. Pratiquei pilates, ioga, fisioterapia para preparar o assoalho pélvico, fiz massagens perineais, treinamento do expulsivo. Escolhi uma equipe multidisciplinar engajada com o parto normal “humanizado”, uma doula, uma maternidade com suíte de parto, e passei a considerar fortemente a possibilidade de um parto natural hospitalar - algo inimaginável dentro das minhas perspectivas anteriores.

No meu modo de ver, o grande desafio seria entrar espontaneamente em trabalho de parto – pois eu tinha plena convicção e segurança que “minha parte” seria feita da melhor maneira possível à partir daí. Mas quando a gente se engaja em um projeto que não depende exclusivamente dos nossos desejos, também é importante que nos prepararemos para a possibilidade de uma frustração. Eu considerava que a cesárea poderia ser necessária – e achava que estava preparada para este caso. Mas não imaginava o quanto seria difícil lidar com o turbilhão emocional que aconteceu conforme esta perspectiva foi se tornando mais próxima e concreta.

As semanas foram passando: 39, 40, 41... Faço acupuntura, terapias interativas, me mantenho ativa, namoro. Converso com o bebê, me sinto pronta para recebê-lo, peço que ele venha, me despeço da barriga. Tento ficar tranquila, manter a positividade, relaxar e lidar da melhor forma possível com as expectativas e com a passagem do tempo. Mas começo a vacilar entre acreditar ou me resignar. Tem virada para lua cheia, quem sabe? Será um daqueles bebês que resolvem nascer na noite da véspera da cesárea?

41 semanas e 3 dias, cinco descolamentos de bolsa, e nem sinal de trabalho de parto, apenas contrações de treinamento. O tempo que considerávamos seguro e que estávamos dispostos a esperar estava se esgotando. O que eu mais temia aconteceu de novo: cesárea marcada no prazo limite, desta vez já estendido.

Chorei bastante na véspera - lágrimas que corriam pela constatação e agora a certeza de que não poderia viver a experiência que tanto esperei e para a qual tanto me preparei. Impossibilidade de sequer experienciar o trabalho de parto, sentir o funcionamento pleno do corpo e a manifestação do meu filho de que era chegada sua hora. Ao mesmo tempo, me apegava ao sentimento de gratidão por ter engravidado sem dificuldades, pela gestação sem problemas, e por ter tido uma experiência pessoal tão enriquecedora neste percurso de auto- conhecimento. Através dele desconstruí todos os meus medos, reconstruí minhas crenças sobre o parir, entendi intimamente essência do termo “empoderamento” (que, confesso, antes me incomodava), me transformei como mulher e médica, tive o respeito e a admiração do meu marido, o apoio de minha família e de muitas mulheres magníficas que encontrei pela caminhada.

Em meio às lágrimas silenciosas, recebi um abraço do marido e depois em minhas mãos o livro Grande Sertão Veredas, com um trecho grifado: “O real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Desabo, sorrio. Precisava me refazer e ir receber meu filhote feliz e com uma energia boa, pois foi ele quem catalisou todas estas transformações pessoais. Fosse como fosse, tinha que agradecer, com a certeza de que desta vez o caminho necessário fora trilhado, embora não tivesse me levado para o destino que eu almejava.

Fazia parte do meu plano de parto a definição de opções para o caso de necessidade de cesariana, e pude escolher ativamente vários detalhes. Assim, a sala do bloco foi deixada à meia luz. Colocamos nosso playlist do parto, compilado ao longo dos meses, com músicas escolhidas a dedo e carregadas de sentido afetivo. Fiquei com os braços soltos e a cabeça elevada. Não fui sondada. Para que eu pudesse ver o exato momento em que ele foi delicadamente retirado do meu ventre, o campo cirúrgico foi abaixado. Coincidentemente, tocava "Chorinho para ele", de Hermeto Pascoal. Não tive como conter muitas lágrimas de emoção: aquelas que ocorrem naturalmente durante o parto, e aquelas de alívio e alegria por poder estar naquelas condições diferenciadas e especiais apesar de tudo der ocorrido de forma tão diferente do que imaginei! Sim, era uma cesárea, mas totalmente diferente. Ao longo do processo, as lágrimas do lamento se tornaram lágrimas de emoção e profundo agradecimento pelos gestos da equipe que nos assistia. Gestos simples, mas que fazem toda diferença para quem está do lado de trás do campo cirúrgico!

Ao nascer, meu filho foi colocado imediatamente sobre meu colo e todos contemplamos sorridentes sua chegada. Ele estava tranquilo e demorou um pouco para chorar, mas se apresentava nitidamente bem e não foi feita nenhuma manobra para estimulá-lo neste sentido. A pediatra estava na sala e respeitou nosso momento, permitindo que ficasse conosco sem qualquer interferência. A equipe falava baixo e discretamente, sem conversas paralelas, com muito respeito ao momento singular de nossa família.

Creio que nunca irei me esquecer das sensações táteis de sentir o calor que ele trazia ao sair de dentro de mim, a textura e a umidade das secreções que o envolviam e o vérnix escorregadio cobrindo seu corpo. O cordão foi cortado pelo pai, depois de vários minutos. A camisola foi abaixada e meus braços retirados das mangas. Ficamos pele a pele até o final da cirurgia. Somente depois de bastante tempo ele foi levado para ser examinado, acompanhado pelo pai, e retornou rapidamente para meu colo. Ele não foi aspirado, como solicitamos, e optamos por não aplicar o colírio. Logo vieram auxiliar a amamentação, ainda que naquela posição desfavorável, com cuidado e delicadeza.


Na verdade, não consegui deixar de chorar aquelas mesmas lágrimas silenciosas em vários momentos desde que acordei antes do despertador tocar naquele 23 de abril: ao me olhar no espelho, ao chegar ao hospital sem trabalho de parto, na assinatura do termo de consentimento para a cesárea, no encontro com minha obstetra e ao apertar suas mãos com olhares sinceramente cúmplices e emocionados, ao ir caminhando para o bloco e ao me deitar e receber a anestesia, enquanto deixava de sentir meu corpo e de ser ativa no processo do nascimento. Mas me lembrarei desta cesárea como um procedimento cuidadoso, caloroso e respeitoso, no qual estava cercada de pessoas especiais que acompanharam minha trajetória e que me apoiaram do início ao fim, que apostaram sinceramente que seria possível, que me estimularam sempre e me guiaram por esta profunda jornada pessoal de quebra de paradigmas.

Minhas lágrimas onipresentes e inevitáveis foram acolhidas e respeitadas, posto que compreendidas. E assim pude viver este sublime momento de encontro com o Nuno, com um Chorinho para Ele, à minha maneira e à minha intensidade, da forma mais linda que podia ser na nossa história: o real na travessia, venha como vier!

Juliana Parada
Médica psiquiatra que gosta de cultivar e compartilhar pensamentos e reflexões sobre a maternidade
Instagram: MAMAE.PENSADORA.

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4 comentários:

  1. Amém, minha filha, amém... ♡♡♡♡

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  2. Obrigado ao blog pela oportunidade de compartilhar minha experiência. Gosto muito da maneira como vocês abordam estes temas tão importantes da obstetrícia em meio aos radicalismos de ambos os lados do cabo de guerra. O importante é mesmo a ponderação, e é esta postura que admiro neste blog!

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  3. Que texto emocionante e inspirador! Amo como vc escreve. Vc é uma mulher muito especial! Parabéns! Muito amor na continuação da sua travessia!

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  4. lindo e emocionante seu relato. Parabens, a minha experiencia n foi mto legal. fui ate humilhada e chamada de gorda na hora do parto. tive pre eclampsia e tive meu filho em um hospital publico, nao q ele seja um hospital ruim, pq n é mas a media foi mto sem etica.

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