domingo, 26 de junho de 2016

CESARIANA SÓ COM 39 SEMANAS?

 Na última semana, foi publicada, no Diário Oficial da União, uma resolução do CFM sobre a realização de cesarianas. A notícia foi amplamente divulgada pela mídia e gerou muita confusão entre as gestantes. Nosso texto tem a intenção de esclarecer o impacto dessa normativa sobre a assistência pré-natal e a via de parto.





O QUE SIGNIFICA ESTA RESOLUÇÃO DO CFM?

Significa que, cesarianas eletivas e a pedido, em gestantes de risco habitual, só podem ser realizadas a partir de 39 semanas de gestação, a menos que exista uma recomendação médica para tal.

QUAL A RAZÃO DISSO?

O CFM adotou o marco de 39 semanas por ser o período em que se inicia a gestação a termo. Pesquisas apontaram a incidência recorrente de problemas específicos em grupos de bebês com idade gestacional inferior a 39 semanas.
De acordo com o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, bebês que nascem antes do tempo têm maior possibilidade de apresentar problemas respiratórios, dificuldades para manter a temperatura corporal e para se alimentar. Além disso, têm tendência a icterícia que, em casos severos, pode gerar danos cerebrais; assim como problemas de visão e audição. Entre 37 e 39 semanas, o bebê atravessa uma fase crítica de desenvolvimento do cérebro, dos pulmões e do fígado, segundo alerta o Instituto Nacional (norte-americano) de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano (NICHD).

O QUE DEFINE GESTAÇÃO DE RISCO HABITUAL E DE ALTO RISCO?

Já falamos sobre isso aqui , mas vale a pena repetir, de forma resumida. Gestação de risco habitual é aquela que transcorre tranquilamente, sem que haja um fator complicador para a mãe, para o feto, ou para ambos. Alto risco se define por desvios de uma gestação normal, em que, alguma doença materna prévia ou em curso, ou algum problema com o bebê é identificado. Porém, devemos ficar atentos pois, gestações de risco habitual podem complicar no final, ou mesmo durante o trabalho de parto.

CESARIANA ELETIVA... O QUE É ISSO?


É aquela cesariana com data marcada, por diferentes motivos. É diferente da cesariana intra-parto, que acontece quando a mulher entra em trabalho de parto, mas, por uma razão qualquer, precisa ser submetida a uma cesária.

QUAIS AS INDICAÇÕES DE CESARIANA INTRA-PARTO?

As mais comuns, são:

- desproporção céfalo-pélvica, ou seja, quando não há passagem.

- distócias, em geral. Distócias são dificuldades encontradas na evolução de um trabalho de parto, tornando uma função difícil, impossível ou perigosa para a mãe e para o feto. Ou o bebê não desce adequadamente pelo canal de parto, ou o colo não dilata, ou as contrações são ineficazes, ou a posição do bebê é anômala, etc, etc... Enfim: depende da avaliação de um profissional treinado e capacitado para diagnosticar, tentar reverter com manobras e medicamentos e, em último caso, indicar uma cesariana.

- sofrimento fetal agudo: é quando o bebê está sob risco iminente de ter falta de oxigênio. Suas reservas e/ou o suprimento sanguíneo estão comprometidos e a quantidade de oxigênio que chega ao cérebro não é suficiente. O prolongamento do trabalho de parto e a insistência em conduzir o parto normal podem significar lesões cerebrais e sequelas por toda a vida (paralisia cerebral).

- emergências obstétricas, como descolamento prematuro da placenta (nos casos de pré-eclâmpsia grave), prolapso de cordão, rotura uterina, entre outras.

Prolapso de cordão

QUAIS AS INDICAÇÕES DE CESARIANA ELETIVA ANTES DAS 39 SEMANAS?

Vamos citar as principais, ou mais comuns:

- gestação gemelar monocoriônica (gêmeos com a mesma placenta). Nos casos em que os gêmeos compartilham também a mesma bolsa de líquido, a cesariana deve ser realizada até 32 semanas de gestação.

 - vasa prévia: quando um vaso sanguíneo do cordão umbilical é frágil e está obstruindo o canal de parto*

- placenta prévia: quando a placenta é baixa e obstrui o canal de parto*

- inserção velamentosa de cordão: é quando a porção do cordão umbilical, que está junto à placenta, é frágil e desprotegida, devido à falta da geléia que cobre os vasos sanguíneos. Desta forma, os vasos ficam expostos e susceptíveis a uma rotura

- algumas malformações fetais, nas quais o nascimento precoce e programado é recomendável e necessário para que haja intervenções imediatas sobre o bebê

* nestes casos, é recomendável que a gestante não entre em trabalho de parto


Ultrassom endovaginal mostrando placenta prévia

HÁ OUTRAS SITUAÇÕES EM QUE A CESARIANA ELETIVA PODE SER INDICADA ANTES DAS 39 SEMANAS?

Sim. Há certas complicações maternas ou fetais que não são indicações absolutas de cesariana. Porém, esta via de parto deve ser considerada e discutida, confrontando com a indução do parto, de acordo com o quadro clínico e o benefício para o binômio mãe-feto, entre elas:

- diabetes gestacional descompensado, de difícil controle ou com repercussões para o feto

- crescimento intra-uterino restrito grave, com falta de líquido amniótico e alteração do fluxo sanguíneo do bebê (doppler alterado)

- doenças maternas com repercussões clínicas graves, nas quais o término da gestação pode representar uma melhora significativa para a saúde da mãe

- algumas malformações fetais, nas quais o benefício do nascimento e tratamento imediato das complicações são superiores à manutenção do feto dentro do útero

QUAIS AS INDICAÇÕES DA CESARIANA ELETIVA APÓS 39 SEMANAS DE GESTAÇÃO?

Exemplos:

- cesarianas sucessivas (duas ou mais cesarianas prévias). Quanto ao parto normal após cesariana, escrevemos um texto muito bem embasado aqui.

- feto em apresentação pélvica: apesar de não ser indicação absoluta, esta possibilidade deve ser considerada. Já falamos sobre parto pélvico nesse post.

- qualquer malformação fetal que necessite de intervenção agendada (ex: colocação de marcapasso cardíaco), cuja programação do procedimento e presença de uma equipe específica na sala de parto, se tornem necessários.

A CESARIANA A PEDIDO ESTÁ PROIBIDA?
Trecho da resolução do CFM

Não. A cesariana a pedido pode ser feita, desde que cumpridas as determinações do CFM, que são:

- parto agendado após as 39 semanas de gestação 

-  É direito da gestante, nas situações eletivas, optar pela realização de cesariana, garantida por sua autonomia, desde que tenha recebido todas as informações de forma pormenorizada sobre o parto vaginal e cesariana, seus respectivos benefícios e riscos. A decisão deve ser registrada em termo de consentimento, livre e esclarecido, elaborado em linguagem de fácil compreensão e o médico deve esclarecê-la e orientá-la tanto sobre a cesariana, quanto sobre o parto normal. 

NOTA DO VISÃO DE ILITIA

A decisão da via e da época do parto deve ser amplamente discutida com o pré-natalista, desde as primeiras consultas. Embasamento científico, informação, bom-senso, acolhimento e respeito devem estar presentes. E também deve se levar em conta o cálculo correto da idade gestacional. Converse com seu médico e faça a melhor escolha: O parto seguro!



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