sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PARTO HUMANIZADO - ENTREVISTA COM A DRA. ANA CRISTINA RUSSO


O QUE VOCÊ CONSIDERA UM PARTO SEGURO E TRANQUILO?

O parto seguro e tranquilo é o parto com respeito, acompanhado por profiss
ional capacitado e em ambiente com estrutura.

O parto com respeito exclui qualquer tipo de violência física ou verbal e inclui a autonomia da gestante para fazer escolhas, como o ambiente, a melhor posição durante o trabalho de parto e o parto, se deseja acompanhante ou doula para suporte emocional; se quer anestesia ou medidas não medicamentosas para alívio da dor, se quer parto vaginal ou cesariana.


Existe gestação de baixo risco, mas não existe parto de baixo risco. Qualquer parto, mesmo de gestação saudável, pode apresentar complicações imprevisíveis, algumas revertidas por procedimentos cirúrgicos.

A segurança do parto inclui o acompanhamento adequado por equipe capaz de diagnosticar e reverter imediatamente eventuais complicações.
 

O profissional mais capacitado para diagnosticar e o único capacitado para reverter todas as complicações do parto é o médico. Logo, a segurança no parto requer médicos na equipe e ambiente hospitalar (centro cirúrgico, laboratório, medicamentos, banco de sangue).


O QUE É HUMANIZAÇÃO?

A assistência ao parto precisa associar técnica e apoio emocional. Toda assistência que tem o foco apenas na técnica, distancia o médico da gestante e gera insegurança emocional, assim como, a assistência que tem o foco apenas emocional, minimiza os riscos e aumenta a chance de morte ou sequelas. 

No passado, visando aumentar o controle e segurança do parto, muitas intervenções eram feitas. Um exemplo era manter a gestante no soro, para deixar uma veia pega para eventual hemorragia com necessidade de infusão rápida de soro. Outro era manter em jejum para evitar broncoaspiração no caso de necessidade de cirurgia de urgência. Outra era fazer um corte no períneo para evitar lacerações durante a passagem do bebê. 


Com o estudo do parto, e a evolução de técnicas e recursos, o parto então passou a ser um evento mais seguro, porém mais distante do fisiológico.


Há algum tempo, novos estudos mostraram que muitas dessas intervenções eram desnecessárias e algumas até prejudiciais quando feitas de rotina.


Essa foi a principal mudança nesse processo de humanização. O parto voltou a ser visto como um evento fisiológico, onde as intervenções devem ser feitas para tratar e não para prevenir complicações.
Isso não significa que intervenções nunca devam ser feitas, significa apenas que não devem ser feitas de rotina. 

No parto humanizado, a gestante pode fazer escolhas de ações que não interfiram na segurança. Essa autonomia não inclui interferir em decisões médicas quando existe um risco iminente de vida. 


Precisa ficar claro que, humanização não depende apenas do médico. Toda a equipe e o ambiente precisam ser preparados. É fundamental um pré-parto ideal e uma equipe multiprofissional onde todos tenham o objetivo da assistência ideal e respeitem seus limites de ação. 


É preciso ainda ficar claro que, humanização não é sinônimo de parto primitivo, de retrocesso, de desafiar condutas estabelecidas, de parto em lugar sem segurança.







"O parto é tanto da mãe,

quanto do pai e do bebê.
Todos devem ser valorizados."



QUAL A DIFERENÇA DE PARTO NORMAL E HUMANIZADO?

O parto normal se refere à via vaginal. O parto humanizado se refere ao parto onde os recursos estão disponíveis, mas a intervenção só acontece quando necessária ou desejada pela gestante . Pode ser vaginal ou cesariana. 

Na humanização medidas para garantir o conforto e autonomia da gestante são respeitadas e o vínculo precoce da mãe com o bebê é estimulado.



QUAIS SERIAM AS VANTAGENS DO PARTO NORMAL?

O parto vaginal é fisiológico, o vínculo da mãe com o bebê e a amamentação são facilitados. Tem menor risco de hemorragia e infecção. Tem menor risco de eventos trombóticos, pela deambulação mais precoce. Acarreta riscos menores que a cesariana para gestações futuras, de complicações como placenta prévia, acretismo placentário e rotura uterina. Tem menor associação com dor pélvica crônica que a cesariana. 

Assim como a cesariana, não é isento de riscos. Mas os desfechos de morte e sequela em ambas as vias são raros e na maioria das vezes associados à negligência na assistência.



EM QUE SITUAÇÕES O PARTO CESÁREA É MAIS INDICADO?

Existe uma indicação absoluta de cesariana que é a placenta prévia total (placenta baixa que cobre o colo do útero). O parto vaginal neste caso é fatal para mãe e bebê.
A cesariana é ainda indicada no caso de desproporção entre a cabeça do bebê e a pelve da mãe (não tem passagem).


As demais indicações de cesariana são chamadas relativas, onde os estudos mostram risco de sequelas ou morte aumentados no parto vaginal, justificando a cesariana para a segurança da mãe ou bebê. São exemplos a apresentação pélvica (bebê sentado), o herpes genital ativo, a infecção não tratada por HIV e gestantes com mais de duas cesarianas.


A cesariana também é frequentemente indicada em casos de complicações do trabalho de parto, que levam ao sofrimento fetal (falta de oxigenação do bebê).


Importante observar que quase sempre vai nascer sem a cesariana, mas não é apenas isso que importa, mas sim o nascimento de um bebê saudável, sem sequelas e sem prejuízo à saúde materna. 


A cesariana pode ainda ser indicada por escolha da gestante, após informada dos riscos e benefícios de cada via de parto.




"Não idealize um tipo único

de parto. Aceite que o parto
é imprevisível e o seu
objetivo maior é
a saúde da mãe e do bebê."



QUAL A EQUIPE DE ESPECIALISTAS NECESSÁRIA PARA GARANTIR A SEGURANÇA E TRANQUILIDADE DE UM PARTO?

O ideal é uma equipe multiprofissional. O parto de gestantes de baixo risco pode ser acompanhado por enfermeiro. Mas é fundamental a presença do médico na equipe, visto que é o único profissional capacitado para reverter todas as possíveis complicações. O parto seguro requer obstetra, anestesista e pediatra na equipe.




HOJE EM DIA HÁ UMA TENDÊNCIA SOBRE TER O FILHO EM CASA, NA BANHEIRA e etc.. ESSAS SITUAÇÕES COLOCAM MÃE E BEBÊ EM RISCO?

O parto domiciliar apresenta risco aumentado de morte principalmente para o bebê. Estudos mostram risco 3 a 7 vezes maior de morte. O parto pode apresentar complicações imprevisíveis, algumas que precisam ser imediatamente diagnosticadas e revertidas. Em casos como prolapso de cordão e sofrimento fetal agudo, a oxigenação do bebê é interrompida e temos poucos minutos para a extração fetal. Logo, é necessária equipe médica e centro cirúrgico para evitar a morte do bebê. Nem os médicos mais capacitados são capazes de reverter tais complicações em ambiente domiciliar. 

Para a mãe o maior risco de morte é por hemorragia. Esta complicação precisa ser rapidamente revertida com medicamentos ou cirurgia. E no caso de demora na assistência, a paciente pode evoluir com choque hipovolêmico ou consumo de fatores de coagulação, condições que apresentam alta mortalidade.


A banheira, assim como outras medidas não medicamentosas, são capazes de amenizar a dor. Porém, o único recurso capaz de abolir a dor do trabalho de parto é a anestesia. A dor é subjetiva e algumas mulheres acreditam no benefício da dor para questões pessoais. Muitas falam em empoderamento para suportar a dor. Porém, a dor no trabalho de parto é desnecessária do ponto de vista da saúde, deve ser opcional e não imposta. A ciência evoluiu para que o parto seja cada vez mais seguro e confortável. Mesmo o parto vaginal pode ser sem dor. A gestante pode optar por estas medidas não medicamentosas também no hospital ou substituir estas medidas pela anestesia no trabalho de parto. 


O parto ideal é em ambiente hospitalar seguro, em pré-parto adaptado para o conforto e as escolhas. A escolha individual deve ser respeitada, mas o parto domiciliar não é seguro.



AS DOULAS PODEM AJUDAR?

As doulas têm papel importante no apoio emocional. Para mulheres que desejam o parto mais natural, sem anestesia, o apoio emocional, feito por doula, acompanhante ou profissionais de saúde tem grande importância.


QUANDO UMA PESSOA NÃO TEVE DILATAÇÃO NAS DUAS PRIMEIRAS GESTAÇÕES, PROVAVELMENTE ELA NÃO TERÁ TAMBÉM NA TERCEIRA?

Não. A progressão do parto depende da contração uterina. É a contração que dilata o colo do útero e empurra o bebê pelo canal do parto. A contração pode ser ineficaz por falta de quantidade ou por falta de qualidade. Ambas podem ser corrigidas durante o trabalho de parto. Logo é uma complicação que não necessariamente vai repetir na próxima gestação.




"O parto voltou a ser visto
como um evento fisiológico (...)
Isso não significa que intervenções
nunca devam ser feitas,
significa apenas que
não devem ser feitas de rotina."


HÁ ALGO QUE A GESTANTE POSSA FAZER PARA AUMENTAR AS CHANCES DO PARTO NORMAL? SE SIM, O QUE?

O mais importante para aumentar a chance de parto normal é o acompanhamento adequado da gestação, trabalho de parto e parto. No pré-natal são detectados riscos, diagnosticadas e revertidas algumas complicações da gestação que limitariam o parto normal.


A detecção precoce de complicações no trabalho de parto e correção antes de levarem ao sofrimento fetal, evita cesarianas desnecessárias. O parto realizado por profissional capacitado para realização de manobras específicas, que podem ser necessárias, também evita a cesariana. 

 Além disso, se o parto normal for a escolha, a gestante deve se preparar, conhecer o processo do trabalho de parto e as medidas para conforto e segurança. Deve ser assistida por equipe que incentive e ofereça os recursos disponíveis.



QUAL A IMPORTÂNCIA DO PAI PARTICIPAR DO PRÉ NATAL?

A gestação é uma condição que requer apoio técnico, mas também emocional. O vínculo da gestante com o pai é capaz de reduzir a ansiedade, medo e até mesmo condições patológicas como o parto prematuro. Participar do processo da gestação facilita o apoio e o entendimento de mudanças físicas e emocionais da gestante.


Muito se discute o "empoderamento" da mulher, mas o "empoderamento" do pai é fundamental para ajudar inclusive nas decisões, algumas que acarretam até riscos em escolhas individuais. O parto é tanto da mãe, quanto do pai e do bebê. Todos devem ser valorizados.


QUAIS AS SUAS DICAS PARA A MULHER REALIZAR UM PARTO SEGURO E TRANQUILO?

1) O pré-natal é fundamental. Tem como um dos objetivos, detectar riscos potenciais ou presentes a cada consulta. Mesmo gestantes previamente saudáveis podem ter complicações clínicas ou obstétricas que, se negligenciadas, aumentam os desfechos desfavoráveis;


2)Se informe sempre com especialistas sobre os riscos e benefícios de cada via de parto. Muitos leigos, mesmo bem intencionados, fazem recomendações sem fundamento. A experiência individual de alguém não é garantia do melhor pra você;


3) Escolha sempre que possível um profissional capacitado para o acompanhamento da gestação, do trabalho de parto, do parto e pós-parto. As mortes e sequelas no ciclo gravídico puerperal são na maioria das vezes evitáveis, relacionadas à qualidade da assistência;


4) Não abra mão dos recursos que garantem a segurança ou conforto no parto. O apelo do parto alternativo é grande mas, muitas vezes, ignora os riscos. O parto visto como um evento de saúde, em ambiente hospitalar, não inclui violência ou exclui humanização. Apenas garante a segurança em caso de complicação;


5) Não idealize um tipo único de parto. Aceite que o parto é imprevisível e o seu objetivo maior é a saúde da mãe e do bebê. Tenha autonomia para fazer escolhas, mas reconheça, com a ajuda de profissionais, os limites e o momento de abrir mão dessas escolhas para garantir a vida.






Ana Cristina Russo, 46, é médica obstetra da UERJ e do Hospital dos Servidores, no Rio. É também professora-adjunta de Ginecologia e Obstetrícia da Unigranrio.


Essa entrevista foi retirada do Facebook da autora, com prévia autorização .

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