sexta-feira, 10 de novembro de 2017

ABORTO LEGAL - TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER

No calor da discussão sobre aborto legal, nosso blog traz um texto essencialmente baseado em estudos e estatísticas. Não compartilhamos, aqui, nenhuma posição pessoal dos membros do blog e mantemos nossa premissa de respeitar os princípios e as escolhas individuais. Contudo, diante de um tema tão polêmico, nós, reafirmando o compromisso com a saúde e o bem estar das mulheres, resolvemos trazer o debate à luz da informação, para enriquecer a discussão.

A Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira, 8/11/2017, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe em risco as formas de aborto previstas atualmente pelo Código Penal. Inicialmente, a PEC, de autoria do senador tucano Aécio Neves (PSBD), tratava da ampliação de direitos trabalhistas, como o aumento do tempo da licença-maternidade para mulheres cujos filhos nasceram prematuros. Mas o que era para ser uma discussão trabalhista abriu uma porta para o primeiro passo para a concretização de um retrocesso nos direitos das mulheres no Brasil e foi apelidada de "Cavalo de Tróia". Sob influência da bancada evangélica, o relatório final do deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP) incluiu uma mudança no artigo primeiro da Constituição – que versa sobre os princípios fundamentais – enfatizando no texto “a dignidade da pessoa humana desde a sua concepção”. Caso seja aprovada pelo Congresso e promulgada, ela não altera automaticamente as previsões legais do aborto, mas abre caminho para que isso aconteça e/ou pode barrar ou dificultar a prática do aborto em qualquer situação, inclusive naquelas que já são permitidas pela legislação brasileira.



QUAL A DEFINIÇÃO DE ABORTO?

A Organização Mundial de Saúde define abortamento como a interrupção da gravidez até a 20ª-22ª semana, com produto da concepção pesando menos que 500 gramas. Por aborto entende-se o produto da concepção, eliminado pelo abortamento.

EM QUE SITUAÇÕES O ABORTO É PERMITIDO NO BRASIL?

O abortamento é crime tipificado pelo Código Penal brasileiro, com exceção das situações previstas pelos incisos I e II do artigo 128, que estabelecem o direito de interrupção de gravidez decorrente de estupro (abortamento sentimental ou humanitário), ou quando há risco de morte para a gestante (abortamento necessário ou terapêutico). Mais recentemente, como resultante da evolução da propedêutica fetal, o Poder Judiciário passou a conceder autorização específica para o abortamento de gestações que cursam com anomalias fetais graves e incompatíveis com a vida extra-uterina.

Estima-se que seja mais fácil uma mulher, com idade entre 14 e 44 anos, ser estuprada que ser vítima de câncer ou acidente. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. São 130 mulheres estupradas todos os dias. E são dados subnotificados, porque as pesquisas mostram que apenas uma pequena parcela das mulheres violentadas e estupradas têm coragem de denunciar. Setenta por cento das vítimas de estupro são crianças e adolescentes, sendo mais de 80% do sexo feminino. Investigações em todo o mundo acumulam sólidas evidências sobre o impacto da violência sexual para a saúde das mulheres. Neste sentido, a gestação conseqüente de violência sexual destaca-se pela complexidade e severidade das reações que determina, seja na esfera emocional, familiar, social ou biológica. Para muitas mulheres, esta gravidez, forçada e indesejada, é sentida como uma segunda e intolerável forma de violência, o que muitas vezes torna impossível mantê-la até o término.

O Brasil é o quarto país do mundo com maior prevalência de nascimentos de bebês com anencefalia (ausência parcial ou total do cérebro), segundo a OMS. A incidência é de cerca de um caso para cada 700 nascimentos. Além da anencefalia, há outras condições fetais incompatíveis com a vida, tais como a agenesia renal bilateral e a displasia óssea tanatofórica, por exemplo. Conduzir a gestação de um feto inviável, ao longo dos meses, pode representar riscos à saúde da mulher, como em qualquer outra gravidez (diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, risco de hemorragias), contudo, sem o bônus do nascimento de um bebê saudável. Além disso, há de se considerar os efeitos psicológicos da gestação de um feto malformado que não terá chances de sobreviver.




Algumas condições e doenças maternas podem ser agravadas pela gestação, incorrendo em risco de morte. A gravidez provoca inúmeras alterações no corpo da mulher, as quais são consideradas fisiológicas numa gestante previamente sadia, mas pode trazer dramáticas conseqüências àquelas portadoras de doenças graves. É nestes casos em que se aplica o aborto terapêutico.

COMO A LEGISLAÇÃO ACERCA DO ABORTO EVOLUIU?

No Brasil, a legislação sobre o abortamento encontra-se entre as mais restritivas. Apesar de o Código Penal estabelecer as situações de exclusão de ilicitude para o abortamento desde 1940, por quase 50 anos, este direito das mulheres permaneceu ignorado pelos serviços de saúde. Embora a interrupção da gestação resultante de violência sexual constitua um direito previsto em Lei, parte expressiva das mulheres ainda não tem acesso a serviços de saúde que efetuem o abortamento de maneira segura e humanizada. Somente no final da década de 1980 os primeiros serviços públicos de saúde passaram a oferecer essa modalidade de atendimento.

Sobre a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, Viena (1993): os direitos das mulheres e meninas são parte inalienável, integral e indivisível dos direitos humanos universais, e a violência de gênero, inclusive a gravidez forçada, é incompatível com a dignidade e o valor da pessoa humana.

Na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, Cairo (1994), os governos reconheceram o abortamento como grave problema de saúde pública e se comprometeram a reduzir a necessidade das mulheres de interromper a gravidez, por medidas em prol da melhoria do acesso e da qualidade do planejamento reprodutivo. Ao mesmo tempo, estabeleceram que, em circunstâncias que não contrariem a legislação de cada país, deve-se garantir que as mulheres tenham acesso ao abortamento em condições seguras e humanizadas. No entanto, cabe ressaltar que esse princípio não tem a intenção ou finalidade de promover o abortamento como método de planejamento reprodutivo. Nesse sentido, o parágrafo 8.25 do Programa de Ação da Conferência do Cairo é suficientemente claro, ao advertir que: “Em nenhum caso o aborto deve ser promovido como método de planejamento familiar”.

Na Conferência Mundial sobre a Mulher, Beijing (1995): os direitos reprodutivos são constituídos por direitos humanos reconhecidos nos diversos tratados e convenções internacionais e incluem o direito de toda pessoa a ter controle e decisão sobre as questões relativas à sua sexualidade e reprodução, livres de coerção, discriminação e violência, e de dispor de informações e meios adequados que lhes garantam o mais elevado padrão de saúde sexual e saúde reprodutiva; o tema do aborto inseguro deve ser tratado de forma humana e solidária.

Poucos anos após, em 1999, na Assembléia Geral das Nações Unidas, os governos participantes assumiram a necessidade de implementar políticas públicas de saúde para enfrentar o abortamento, destacando a responsabilidade do sistema de saúde por substituir processos ultrapassados de atendimento e pela redução do impacto do abortamento para a saúde das mulheres. Nas circunstâncias em que o aborto não contrarie a lei, o sistema de saúde deve treinar e equipar os provedores de serviços de saúde e tomar outras medidas necessárias para assegurar que esses abortos sejam seguros e acessíveis. O Brasil, como país participante, é signatário dos documentos dessas Conferências, assim como de outros Tratados Internacionais de Direitos Humanos, assumindo o compromisso com as questões relativas ao abortamento. Essas referências estão incorporadas pela legislação brasileira com princípios éticos e jurídicos que contemplam a prevenção da gravidez indesejada e o abortamento seguro. A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 226, § 7º, estabelece que: “Fundado no princípio da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais e privadas” O Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher das Nações Unidas (Comitê CEDAW) compreende que a tipificação do abortamento como delito é insuficiente e não desestimula as mulheres de se submeterem à sua prática. Ao contrário, a criminalização restringe as alternativas das mulheres, colocando-as na rota de práticas clandestinas e inseguras.

EXISTEM ESTATÍSTICAS SOBRE ABORTO PROVOCADO?

Estima-se que cerca de 210 milhões de gestações ocorram no mundo, a cada ano. Deste total, 75 milhões são não previstas ou indesejadas, conduzindo a quase 46 milhões de abortamentos induzidos, a cada ano. Dentre estas interrupções de gestação, 20 milhões são praticadas em condições inseguras, implicando graves riscos para a vida e a saúde da mulher. Cerca de 95% dos abortamentos inseguros são realizados em países em desenvolvimento com restrições legais ao abortamento. Quase 13% das mortes maternas no mundo estão relacionadas ao abortamento inseguro, resultando em 67 mil mortes de mulheres, a cada ano. Na América Latina, calcula-se que 36% das gestações não são planejadas, resultando em quatro milhões de abortamentos induzidos. Em países do Caribe e da América Latina, ocorre um abortamento inseguro para cada três nascimentos vivos, implicando em 24% da mortalidade materna.

No Brasil, as estimativas mais recentes indicam 728.100 a 1.039.000 abortamentos, a cada ano. Embora se verifique decréscimo destes números na última década, a taxa atual de 3,7 abortamentos por 100 mulheres em idade reprodutiva ainda é, muitas vezes, superior aos valores observados nos países da Europa Ocidental, onde o abortamento é legal, seguro e acessível. A Pesquisa Nacional de Aborto (PNA) indica que o aborto é tão comum no Brasil que, ao completar quarenta anos, mais de uma em cada cinco mulheres já fez aborto. Tipicamente, o aborto é feito nas idades que compõem o centro do período reprodutivo feminino, isto é, entre 18 e 29 anos, e é mais comum entre mulheres de menor escolaridade, fato que pode estar relacionado a outras características sociais das mulheres de baixo nível educacional. A religião não é um fator importante para a diferenciação das mulheres no que diz respeito à realização do aborto. Refletindo a composição religiosa do país, a maioria dos abortos foi feita por católicas, seguidas de protestantes e evangélicas e, finalmente, por mulheres de outras religiões ou sem religião.



O QUE É ABORTAMENTO INSEGURO E COMO ISSO PODE SER CONSIDERADO UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA?

O abortamento é considerado inseguro quando praticado em condições precárias e inadequadas, por pessoal com insuficiente capacitação técnica, ou, em ambas as condições. Nesses casos, o abortamento está associado a taxas elevadas de mortalidade e morbidade. Por outro lado, quando efetuado em ambiente apropriado, com técnicas adequadas e por profissionais de saúde capacitados, o abortamento é procedimento seguro, com riscos reduzidos, se comparado com outros procedimentos médicos

O abortamento representa uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil. O estudo da Mortalidade de Mulheres, de 10 a 49 anos, com pesquisa realizada em 2002, em todas as capitais e no Distrito Federal, evidenciou a permanência de alta taxa de mortalidade materna no país, diferentemente do que ocorre em países desenvolvidos, onde essas taxas de morte, especificamente por aborto, são reduzidas. Entre 1995 e 2000, estatísticas de vários países europeus mostram taxas inferiores a 10 óbitos/100.000 nascidos vivos, com o aborto sendo realizado em condições seguras, não mais constituindo importante causa de óbito. A despeito da subnotificação dos óbitos por aborto, tem sido observada, nas últimas décadas, uma tendência de declínio da taxa de mortalidade por essa causa no Brasil. Entretanto, verifica-se também a permanência de desigualdades regionais, com menor redução dessas taxas nos estados nordestinos. Em municípios da Região Metropolitana do Recife, incluindo a capital, entre 1994 e 1996, o aborto ocupou, respectivamente, o primeiro e segundo lugar deste grupo de causas, decrescendo nos anos seguintes e, em Salvador, desde o início da década de 90, o abortamento permanece como a primeira causa isolada de morte materna, com adolescentes e jovens apresentando maiores riscos de morte. As repercussões sociais na vida pessoal, familiar, e no mundo do trabalho precisam ser analisadas e respeitadas, na medida em que o abortamento atinge mulheres jovens, em plena idade produtiva e reprodutiva, levando-as desnecessariamente à morte ou implicando sequelas à sua saúde física, mental e reprodutiva. No Brasil, sua prática se traduz numa inequívoca expressão das desigualdades sociais pois, embora compartilhem a mesma situação ante a ilegalidade da intervenção, as mulheres percorrem distintas trajetórias, com uma minoria delas podendo arcar com os custos de um abortamento rápido, seguro e sem riscos.

Uma das problemáticas referentes ao aborto, que emerge como questão de saúde pública, é a sua forma de realização, que ocorre, na maioria das vezes, de maneira clandestina e insegura, resultando em sérias consequências para a sociedade, pois compromete a saúde da mulher com elevada morbimortalidade. Além disso, sobrecarrega o sistema de saúde. Em média, 50% das mulheres que realizaram aborto e recorreram ao sistema de saúde foram internadas devido a complicações imediatas ou tardias, dentre elas, hemorragias, infecções, perfurações de órgãos e infertilidade.

O informe de outubro de 2008, do Instituto Guttmacher, aponta como métodos usuais em abortamentos inseguros a inserção de preparos herbais na vagina, chás, saltos de escadas ou telhados, o uso de paus, ossos de frango, dentre outros objetos de risco. 
A maior parcela da população feminina recorre a várias estratégias inseguras que frequentemente se complicam e acarretam mortes maternas por abortamento. Segundo o PNA, o uso de medicamentos para a indução do último aborto ocorreu em metade dos casos. O medicamento mais usado é o misoprostol, substância sabidamente teratogênica, ou seja, naqueles casos em que a tentativa de aborto foi frustrada, há possibilidade de ocorrerem malformações fetais.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

COMO SABER SE VOCÊ TEM ENDOMETRIOSE?


A endometriose é uma doença que atinge milhares de mulheres em idade reprodutiva. Muitas vezes silenciosa, outras, nem tanto. Geralmente, só é descoberta após muitos anos de dores ou dificuldades para engravidar. Isto porque não há, até o momento, um exame acessível, sensível e não invasivo, capaz de diagnosticar todas as formas da doença. Em certos casos, a endometriose só pode ser descoberta por meio da videolaparoscopia, um procedimento cirúrgico feito com anestesia geral. Por isto, não é um procedimento feito de forma liberal e há critérios para sua indicação.

A endometriose é encontrada em três formas nas mulheres acometidas: endometriose superficial, cistos endometrióticos ovarianos e endometriose profunda infiltrativa. As lesões superficiais, quando isoladas, constituem a forma da doença que requer a realização de laparoscopia para ser diagnosticada. Estas lesões não são identificadas por métodos de imagem e não há um exame de sangue com boa performance para diagnóstico. Elas são pequenas, mas podem causar grandes desconfortos.

Já o cisto endometriótico ovariano (endometrioma), tem um aspecto bastante típico e é de fácil suspeição ao ultrassom, sendo, muitas vezes detectado no exame endovaginal. As lesões profundas infiltrativas também podem ser vistas ao ultrassom, mas requerem um exame mais aprofundado, realizado por profissional especializado, com treinamento neste tipo de exame.

Ovário direito acometido por endometrioma - imagem de ultrassom endovaginal

As lesões não têm aparência única e não estão, necessariamente, no útero e nos ovários, órgãos em que os ultrassonografistas se focam ao realizar o exame endovaginal. Ao contrário, apresentam-se em formas e localizações variadas, nos diversos órgãos e estruturas pélvico-abdominais. Muitas vezes de pequenas dimensões, passam comumente despercebidas nos exames ultrassonográficos rotineiros.

Imagem de foco de endometriose infiltrativa ao ultrassom endovaginal 

É necessário preparo intestinal e avaliação por um ultrassonografista treinado para se documentar as lesões e permitir, a partir daí, uma abordagem resolutiva, adequada a cada caso. O exame é detalhado e pode ser feito em qualquer fase do ciclo. Algumas vezes, durante o período menstrual, as lesões tornam-se mais sensíveis, o que pode facilitar sua detecção. Após este exame, podem ser necessários outros como urorressonância, ressonância magnética da pelve ou colonoscopia. Cada um deles é indicado conforme os locais acometidos e as lesões detectadas pelo ultrassom. O médico especialista poderá indicar com precisão os passos seguintes.

No entanto, para que o diagnóstico seja feito, é necessária a suspeição clínica. O médico ginecologista deve estar atento às queixas de suas clientes, realizar exame clínico detalhado e solicitar que o ultrassom seja feito por profissional habilitado. É imprescindível que paciente e médico identifiquem, juntos, os sintomas. Dor pélvica e cólica menstrual não são “coisas normais das mulheres”. Assim como a infertilidade, a dor pélvica, seja ela contínua ou restrita ao período menstrual, durante o ato sexual, a evacuação ou micção, deve ser valorizada e investigada. É aí, na suspeita clínica, dá-se início à investigação, com o ultrassom realizado por profissional experiente como primeira linha de exame. E assim, com diagnóstico adequado, pode-se tratar adequadamente e minimizar o sofrimento causado pela endometriose.


Por Profª. Dra. Márcia Cristina França Ferreira 
(texto original em www.dopsom.com.br)
Professora adjunta do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG
Especialista em Reprodução Humana pelo Hospital das Clínicas da UFMG
Doutora em Fisiologia pela UFMG/University of Texas
Siga no facebook a página da Dra. Márcia

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

MÉTODOS CONTRACEPTIVOS


Em meio a muitos mitos em relação aos anticoncepcionais, o que se pode afirmar é que não existe um método que seja o melhor. A escolha deve ser individualizada e orientada pelo ginecologista, após a avaliação do exame clínico, histórico familiar e pessoal, bem como a rotina de vida e as preferências da mulher no momento da escolha do método. Como profissionais de saúde, devemos informar sem alarmar. Só o conhecimento vai proporcionar ferramentas para, juntamente com seu médico, tomar uma decisão acertada.

Para um melhor entendimento, dividiremos os métodos contraceptivos em: hormonais combinados, hormonais com progestágenos, DIU de cobre, métodos de barreira e métodos naturais.

CONTRACEPTIVOS HORMONAIS COMBINADOS

São contraceptivos que liberam dois tipos de hormônios: estrógenos e progestágenos. Promovem contracepção pelo bloqueio do ciclo ovulatório, ou seja, em uso deles, a mulher não irá ovular. Dentre eles, os mais difundidos são as pílulas conjugadas.

As pílulas conjugadas são medicamentos de uso diário que contêm os dois tipos de hormônios. O que difere as várias pílulas existentes no mercado são o tipo e a dose dos hormônios. Todas estas combinações vão cumprir o objetivo principal que é evitar a gravidez, mas podem provocar efeitos diferentes em cada mulher. Os efeitos colaterais mais comuns são: aumento de peso (devido à retenção de líquidos e não essencialmente por ganho de gordura), dor de cabeça (sendo contra-indicados nos casos de pacientes com enxaqueca, por aumentar a incidência e gravidade das crises), dor nas mamas, diminuição da libido e, mais raramente, eventos tromboembólicos. O uso da pílula aumenta o risco de trombose, mas, ainda assim, numa mulher sem outros fatores de risco, esta possibilidade é muito pequena. Já as mulheres com outros fatores de risco associados, como obesidade, tabagismo, doenças vasculares e história pessoal e/ou familiar de trombose, devem evitar o uso de contraceptivos hormonais combinados; não só a pílula, mas todos que promovam a liberação de estrógenos (injetável mensal, adesivos e anel vaginal).



Entretanto, não há apenas efeitos adversos e complicações com o uso das pílulas combinadas; elas também podem trazer benefícios bem estabelecidos para a usuária, além da contracepção. São eles: melhor controle do ciclo menstrual, alívio dos sintomas da TPM, melhora da acne, diminuição do fluxo menstrual e das cólicas. Todas as pílulas comercializadas hoje em dia são de baixa dose hormonal e os efeitos adversos vão depender da adaptação de cada mulher. A eficácia das pílulas combinadas é de 97%, quando utilizadas de maneira correta. O uso irregular das pílulas pode aumentar as chances de falha, portanto, se o esquecimento for constante, pode-se optar pelos injetáveis mensais, adesivos ou anel vaginal. Todos eles possuem os mesmos benefícios, efeitos colaterais e contra-indicações da pílula, mas com a vantagem de não serem de uso diário, facilitando a adesão ao método.

Os injetáveis mensais, assim como as pílulas conjugadas, combinam os dois tipos de hormônios. A diferença básica é que a sua aplicação intramuscular (injeção) causa um depósito destes hormônios, os quais vão sendo liberados na corrente sanguínea, ao longo do mês. Muitas mulheres acham que os injetáveis causam mais efeitos colaterais que as pílulas, mas isto não é verdade. Seus efeitos colaterais são muito semelhantes aos das pílulas de baixa dose. A vantagem é o menor risco de esquecimento, enquanto as desvantagens são a dor na aplicação e menor controle do ciclo e da acne.

Os adesivos são contraceptivos hormonais conjugados de absorção transdérmica (pela pele). Devem ser colados na pele, longe de áreas de atrito ou dobras, e trocados uma vez por semana. Após três semanas consecutivas, é feita uma pausa de uma semana e, assim, a menstruação acontece. Seus benefícios, efeitos adversos e contra-indicações são os mesmos das pílulas de baixa dose hormonal.



O anel vaginal é um anel de silicone maleável que, inserido na cavidade vaginal, libera estrógenos e progestágenos, diariamente. Causa bloqueio da ovulação assim como os outros métodos hormonais. Tem a vantagem de não precisar ser lembrado diariamente. A inserção e retirada podem ser feitas pela própria mulher, sem dificuldades e, depois de inserido, o anel não causa nenhum desconforto, nem mesmo durante atividades físicas ou relações sexuais.



CONTRACEPTIVOS HORMONAIS COM LIBERAÇÃO DE PROGESTÁGENOS

Dentre os contraceptivos hormonais contendo apenas progestágenos, temos: pílulas, injetável trimestral, DIU hormonal e implante subdérmico. As principais indicações para uso destes métodos seriam as situações que contra-indicam o uso dos estrógenos como, por exemplo, mulheres com fatores de risco para trombose, lactantes, hipertensas, obesas e tabagistas. É também indicado para controle clínico de doenças ginecológicas como endometriose, adenomiose, miomatose e hemorragia uterina disfuncional. Ótima opção também para as mulheres que não desejam menstruar regularmente.

As pílulas contendo apenas progestágenos são de uso contínuo e sua ação contraceptiva se deve ao bloqueio do ciclo ovulatório. Porém, sem a associação do estrógeno, seu uso deve ser contínuo e não leva ao sangramento por privação (menstruação). Sua principal indicação seria o uso no período da amamentação, por não diminuir a produção do leite. Deve-se tomar cuidado, pois existem duas dosagens comercializadas atualmente, sendo que a pílula com quantidade menor de hormônio é eficaz somente no período de amamentação exclusiva (quatro primeiros meses de vida do lactente), enquanto as com dosagem maior, são seguras inclusive para mulheres fora do período da amamentação.


O injetável trimestral tem a vantagem de ser aplicado apenas a cada 90 dias. Suas desvantagens são: ganho de peso (pois está associado a uma maior retenção de líquidos), atraso no retorno da fertilidade (uma vez que provoca um efeito acumulativo no bloqueio da ovulação) e sangramentos irregulares (já que está mais associado a sangramentos de escape do que os outros métodos).



O DIU hormonal é um dispositivo inserido na cavidade uterina, promovendo a liberação continua de hormônios progestágenos que agem preferencialmente no útero, causando bloqueio da proliferação do endométrio (camada do útero que descama e sangra durante a menstruação), com consequente diminuição e, na maioria das vezes, bloqueio do fluxo menstrual. Seu efeito contraceptivo se deve às alterações que provoca no endométrio, diminuição dos movimentos ciliares das tubas (dificultando a fecundação) e, na maioria das vezes, bloqueio da ovulação. A inibição da ovulação não é uma regra. Apesar da maioria das usuárias terem a ovulação suprimida, existem algumas mulheres que mantém os ciclos ovulatórios. A eficácia do método é próxima de 99% e tem a duração de cinco anos, sendo que, após este período, deve ser realizada a troca. Os efeitos sistêmicos dos progestágenos liberados pelo DIU hormonal são pouco relevantes, pois o nível destes hormônios na corrente sanguínea é menor que os outros métodos, mas, ainda assim, não são desprezíveis, pois pode haver piora da acne e diminuição da libido. As desvantagens estão, principalmente, relacionadas ao procedimento de inserção. A colocação do DIU, seja ele hormonal ou não, é um procedimento invasivo, que pode ser realizado a nível ambulatorial (em consultório médico). Pode ser doloroso e gerar complicações como infecção pélvica, sangramentos de difícil controle e perfuração do útero. Estas adversidades podem acontecer independentemente da técnica ou experiência do médico responsável e devem ser consideradas no momento da escolha do método.

O implante subdérmico é um dispositivo inserido sob a pele do braço. Este dispositivo é responsável pela liberação diária de progestágeno e atua como contraceptivo através do bloqueio da ovulação e alterações do ambiente uterino, que dificultam o encontro do óvulo com o espermatozóide. Sua eficácia gira em torno de 99%, e tem durabilidade de três anos, quando deve ser trocado. Apresenta como principal efeito colateral a ocorrência de sangramentos uterinos irregulares, mais comuns no primeiro ano de uso. Também pode aumentar a acne e diminuir a libido, mas não costuma interferir no peso.



 DIU DE COBRE

O DIU de cobre é um dispositivo de plástico com haste de cobre, inserido na cavidade uterina. Seu efeito contraceptivo é decorrente das alterações causadas pela liberação do cobre na cavidade uterina, as quais impedem o encontro dos espermatozóides com o óvulo e a eventual implantação do embrião. Sua eficácia gira em torno de 99%, se bem posicionado, e tem uma durabilidade de dez anos, quando deve ser trocado ou substituído por outro método. Não provoca o bloqueio do ciclo ovulatório, portanto, suas usuárias irão continuarão ovulando e menstruando. Assim sendo, se a mulher tiver, previamente, ciclos irregulares, cólicas, sintomas de TPM ou fluxo menstrual aumentado, este método não seria uma boa escolha. Apesar de não diminuir a libido, pode aumentar as cólicas e o fluxo menstrual. É uma ótima opção para as mulheres que não desejam os efeitos adversos dos métodos hormonais e não pretendem engravidar pelos próximos anos. Caso a usuária mude de idéia e deseje uma gravidez, a fertilidade é restituída imediatamente após a retirada do DIU.


MÉTODOS DE BARREIRA

O preservativo masculino é o método de barreira mais difundido, apesar de também existir o preservativo feminino, o qual é muito pouco conhecido. Os preservativos têm a principal vantagem de, além de serem métodos contraceptivos eficazes, atuam como principal “arma” na prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). São de fácil acesso e, com pequeno treinamento, os usuários já sentem seguros para utilizá-los. Não dependem do uso regular de nenhum medicamento e evitam doenças como AIDS, Hepatites, Sífilis, Gonorréia, Condilomatose e Câncer de Colo de Útero. A falha do método está relacionada ao mau uso. A ruptura do preservativo, quando utilizado de forma correta, é evento raro. Nestes casos, o uso do Contraceptivo Hormonal de Emergência (“Pílula do Dia Seguinte”), em até 72 horas após a relação sexual, pode diminuir a chance de uma gravidez indesejada em até 75%.

O Diafragma é um "copinho" de silicone em forma de cúpula que é inserido, dentro da vagina, algumas horas antes da relação sexual e retirado logo em seguida. Existem vários tamanhos e sua prescrição deve ser realizada pelo médico após exame ginecológico. Sua eficácia gira em torno de 77% e sempre deve ser associado ao uso de geléias espermicidas. Devido a seu grande índice de falha e baixa praticidade, é um método pouco difundido nos dias de hoje. Quando a mulher escolher essa opção, ela deve ser orientada a utilizar outro método associado, como tabelinha, coito interrompido ou o preservativo masculino.



MÉTODOS NATURAIS

Os métodos naturais têm a grande vantagem de não utilizarem nenhum tipo de hormônio ou dispositivo, além de não terem nenhum custo. Mas a grande desvantagem é seu alto índice de falha.

A tabela de Ogino-Knauss, método rítmico ou Tabelinha, como é mais conhecido, consiste no monitoramento da fertilidade baseado na observação do ciclo menstrual da mulher. Tem eficácia bem variável, 75 a 88%, pois vai depender, principalmente, da regularidade do ciclo menstrual. A grande desvantagem é que as mulheres que apresentam ciclos menstruais irregulares não conseguem se beneficiar do método. E, mesmo as mulheres extremamente regulares, estão sujeitas a apresentar alterações de ciclo decorrentes do uso de medicações ou situações de estresse.



O coito interrompido nada mais é do que a retirada do pênis de dentro da cavidade vaginal antes da ejaculação acontecer. Tem eficácia de 73% e depende única e exclusivamente do homem. Ele tem que ter controle suficiente para que a ejaculação não aconteça dentro da vagina. Este método pode gerar insegurança ao casal prejudicando, assim, o desempenho sexual.

Podemos concluir que não existe um método contraceptivo eleito como o melhor. O melhor para a sua amiga pode não ser o melhor para você.  Inclusive, o melhor para você hoje pode não ser a sua escolha no ano que vem ou no próximo relacionamento. Com a ajuda do seu médico, informação e esclarecimento, você poderá fazer a melhor escolha, sempre. Um filho merece ser desejado e planejado!


Dra. Juliana Calcagno
Ginecologista e Obstetra, especializada em Medicina Reprodutiva
Médica responsável pela Clínica Invitro de Ipatinga - MG
Facebook:Juliana Calcagno

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parteiras põem fim à campanha "Parto Normal" na Inglaterra.



 Fonte: The Guardian


O Royal College of Midwives (RCM) iniciou a campanha do “Parto
Normal” em 2005 a fim de encorajar as gestantes a terem um parto
sem intervenções médicas, incluindo indução, anestesia e cesarianas.

O sindicato das parteiras inglesas começará a usar o termo “parto fisiológico” para descrever aqueles que ocorrem sem intervenções - como parte de uma revisão de diretrizes profissionais - mas não mudará sua visão de que o parto sem intervenção médica é o melhor para muitas mulheres.

Na Inglaterra, 40% das mulheres dão a luz sem nenhum tipo de intervenção médica.

A professora Cathy Warwick, presidente-executiva da RCM, negou que a campanha de mais de uma década tenha comprometido a segurança das mães, mas admitiu que criou uma impressão errada. "Havia um perigo de que, se você falasse apenas sobre partos normais - e, particularmente, se você chamar isso de campanha – soasse como se você estivesse apenas interessada em mulheres com parto vaginal sem intervenções”, disse ela ao jornal The Times.

“O que nós não queremos, de forma alguma, é contribuir, em qualquer sentido, com a crença de que uma mulher tenha falhado porque não teve um parto vaginal. Infelizmente, parece ser como algumas mulheres vêm se sentindo".

A campanha foi criticada em um inquérito sobre a morte de dezesseis bebês e três mães no Hospital Geral Furness, em Cumbria, entre 2004 e 2013.

A investigação descobriu que uma "combinação letal" de falhas levou a mortes desnecessárias de onze bebês e uma mãe tratados na maternidade do hospital, que é parte do sistema público de saúde britânico.

O inquérito demonstrou que as parteiras, que se intitulavam "as mosqueteiras", expuseram as gestantes a partos inseguros devido ao desejo de ver essas mulheres terem um parto vaginal, sem intervenção médica, "a qualquer custo".

O relacionamento com os médicos foi descrito como "seriamente disfuncional", com relatos de parteiras negligenciando alertar os médicos, em tempo hábil, sobre as complicações das pacientes.

O inquérito, presidido pelo Dr. Bill Kirkup, relatou que os serviços da maternidade do hospital foram tomados por uma cultura de negação, coluio e incompetência. Kirkup, após a publicação do relatório em março de 2015, disse: "Nossas descobertas são críticas e catalogam uma série de falhas em quase todos os níveis: da maternidade aos responsáveis ​​pela regulação e pelo monitoramento. A natureza desses problemas é séria e chocante".

A professora Cathy Warwick disse que não acreditava que as parteiras tivessem falhado na campanha de "partos normais" por terem pensado que isso significaria forçar o nascimento vaginal acima das normas de segurança.

"Claramente, algumas parteiras foram identificadas tendo esse tipo de conduta, mas não tenho provas de que foram encorajadas por qualquer conduta ou recomendação da RCM".

James Titcombe, cujo filho Joshua foi um dos bebês que morreram no hospital Furness, comemorou o fim da campanha. "Esta foi uma campanha direta e franca destinada a influenciar a forma como as parteiras tomavam decisões em momentos absolutamente críticos. Foi implementada sem qualquer avaliação de risco, teste ou avaliação e acredito que teve consequências desastrosas", disse ele.

Em relação à mudança na linguagem que fará parte da nova iniciativa, Cathy Warwick disse: "Parece que esta palavra "normal "é particularmente tendenciosa... é mais simples usar uma palavra sem julgamento de valor. Por causa desse tipo de inferência, haverá casos em que você explicará melhor sua posição ao usar termos como "nascimento fisiológico".

Em junho, a ex-gerente de risco de maternidade do Hospital Geral de Furness disse ao Conselho de Enfermagem e Obstetrícia que deveriam afastá-la. Jeanette Parkinson admitiu que não havia investigado as falhas de uma colega sobre as mortes dos bebês no hospital e que sua própria aptidão para atuar como parteira sênior estava comprometida. Ela é a sétima parteira a ser investigada como resultado do escândalo.

Uma investigação sobre o tratamento das queixas contra as parteiras pelo Conselho de Enfermagem e Obstetrícia foi anunciada, na semana passada, pelo Departamento de Saúde. A investigação será conduzida por autoridade profissional e analisará a capacidade do Conselho de Enfermagem e Obstetrícia de gerenciar e administrar queixas, bem como sua relação com as testemunhas.

A revisão deverá demorar seis meses.