sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

FEBRE AMARELA

Texto escrito e cedido pelo Dr. Adelino Melo, médico infectologista, coordenador do Serviço de Infectologia do Hospital Felício Rocho (BH - MG) e do Setor de Vacinas do Laboratório São Marcos. Publicado originalmente no aplicativo Canguru Gravidez



A Febre Amarela é uma doença infecciosa grave, causada por vírus e transmitida por mosquitos, tanto em áreas urbanas e silvestres. Em áreas florestais, os principais vetores são os mosquitos Haemagogus e Sabethes. Em áreas urbanas a doença pode ser transmitida pelo Aedes aegypti, porém isso não é registrado no Brasil há pelo menos 70 anos.
Para o combate à doença, o Sistema Único de Saúde oferece gratuitamente a vacina por meio do Calendário Nacional de Vacinação nos Postos de Saúde.
No início de 2017, foram notificados casos suspeitos de febre amarela em municípios das regiões de Teófilo Otoni, Coronel Fabriciano, Manhumirim e Governador Valadares, posteriormente confirmados como casos da doença.

A Doença
A maioria das pessoas que contrai o vírus não chega a apresentar sintomas ou estes são brandos e podem passar despercebidos. O período de incubação da doença é curto, variando entre 3 e 6 dias e as primeiras manifestações são repentinas: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos.
A forma mais grave da doença é rara e costuma aparecer após um breve período de bem-estar, que dura de um a dois dias, seguidos de manifestações de falência dos rins e do fígado, caracterizados por icterícia (olhos e pele amarelados), hemorragias e cansaço intenso. Essa segunda fase da doença pode ter mortalidade de até 50% dos acometidos.

Transmissão
Nas áreas rurais o vírus pode circular entre macacos, sendo transmitido pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes. Pessoas não imunizadas que vivem ou circulam nessas áreas podem ser infectadas pela picada destes mosquitos. Ao contrair a doença, a pessoa pode se tornar fonte de infecção para o mosquito Aedes aegypti, que é frequente nas cidades, levando ao ciclo urbano da doença. No entanto, desde 1942, a febre amarela urbana não é registrada no país.


Prevenção
A medida mais importante para prevenção e controle da febre amarela é a vacinação. A vacina é recomendada a todas as pessoas que moram ou vão viajar para áreas com indícios de febre amarela. Está disponível, por meio do SUS, em todas as unidades de saúde, e deve ser administrada pelo menos 10 dias antes do deslocamento para áreas de risco.
Todas as pessoas que já receberam duas doses da vacina ao longo da vida são consideradas imunizadas e não precisam de doses de reforço.

Tratamento
A doença não tem um tratamento especifico, sendo indicado suporte clinico, na maioria das vezes em regime de internação, para atenuar os sintomas da doença e reduzir riscos de complicações.

Esquema Vacinal
1. Nas áreas brasileiras com recomendação de vacinação:
1.a. Rotina: duas doses - aos 9 meses e aos 4 anos de idade;
1.b. Pessoas não vacinadas na rotina ou em atraso com esquema de duas doses: devem se vacinar a qualquer momento;
1.c. Crianças menores de 4 anos: aplicar a primeira dose a partir dos 9 meses e segunda dose aos 4 anos (respeitar intervalo mínimo de 30 dias entre elas);
1.d. Pessoas a partir de 5 anos de idade, que receberam a primeira dose da vacina antes de completar 5 anos: aplicar a segunda dose (respeitar intervalo mínimo de 30 dias entre elas);
1.e. Pessoas a partir de 5 anos de idade, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação: aplicar a primeira dose da vacina e depois de 10 anos, a segunda dose;
1.f. Pessoas com 60 anos ou mais, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação: faixa etária com maior risco de eventos adversos, portanto apenas aplicar a primeira dose após avaliação médica do risco benefício. Aplicar segunda dose depois de 10 anos;
1.g.Pessoas com 60 anos ou mais, que já receberam uma dose da vacina anteriormente: aplicar a segunda dose da vacina após 10 anos da dose anterior. Nestes casos não é necessária avaliação médica;
1.h. Pessoas de qualquer faixa etária que receberam duas doses da vacina são consideradas adequadamente imunizadas, não sendo recomendadas outras doses.

2. Em situações de surto e, portanto, alto risco epidemiológico, como ocorre em regiões do leste mineiro, é recomendável adiantamento da vacinação ou até ampliação dos grupos vacinados, situações que devem ser avaliadas individualmente:
2.a. Crianças de 6 a 9 meses incompletos de idade: aplicar uma dose da vacina, que não será considerada válida para fins de rotina da vacinação (menor eficácia, interferência de anticorpos maternos), devendo a criança receber outras duas doses conforme calendário do Programa Nacional de Imunizações, e sempre respeitando intervalo mínimo de 30 dias entre a primeira dose e a dose dos 9 meses de idade;
2.b. Crianças e adultos que já receberam a primeira dose: antecipar a segunda dose respeitando o intervalo mínimo de 30 dias.
2.c. Gestantes: considerar aplicação de uma dose após criteriosa avaliação médica do risco-benefício. Se a gestante não reside, mas pretende viajar para áreas de risco, tentar ao máximo abolir ou adiar a viagem, antes de recomendar a vacinação;
2.d. Mães em aleitamento: podem ser vacinadas após sexto mês de vida da criança. Quando a criança tem menos de seis meses de idade a mãe deve tentar adiar a vacinação conforme orientação para as gestantes. Caso não seja possível, o aleitamento deve ser suspenso por período mínimo de 15 dias após a vacinação. A mãe deve ser orientada a ordenhar leite, antes de ser vacinada, em quantidade suficiente para este período. O leite deve ser fracionado e mantido congelado, para uso no período sem aleitamento no peito. Se a ordenha não for possível, a mãe deve ser encaminhada para banco de leite humano.


 Eventos adversos da vacinação
A dor no local de aplicação ocorre em cerca de 4% dos adultos vacinados e é menos frequente em crianças pequenas. Duração de um ou dois dias, geralmente de intensidade leve a moderada. Manifestações sistêmicas como febre, dor de cabeça e muscular ocorrem em cerca de 4% dos vacinados pela primeira vez e menos de 2% nas segundas doses. Eventos graves como reações alérgicas e sintomas semelhantes à doença são raros, ocorrendo em menos de 1/500.000 doses.

Contraindicações à vacinação
a) Crianças com menos de 6 meses de idade;
b) Indivíduos com histórico de reação anafilática a substâncias presentes na vacina (ovo de galinha e seus derivados, gelatina e outros produtos que contêm proteína animal bovina);
c) Pacientes com imunossupressão de qualquer natureza: infectados pelo HIV com imunossupressão grave; tratamento com drogas imunossupressoras (corticosteroides, quimioterapia, radioterapia, imunomoduladores); transplante de órgãos; portadores de imunodeficiência primária ou neoplasias.


Referências:
· Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância em Saúde 8ªed. Capítulo 6: Febre Amarela, p. 419-36. Brasília, 2014.
· Governo do Estado de Minas Gerais. Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Informe Epidemiológico da Febre Amarela 24/01; acesso em 03/02/2017. Disponível em: http://www.saude.mg.gov.br/component/gmg/story/8979- informe-epidemiologico-da-febre-amarela-24-01
· Sociedade Brasileira de Imunizações SBIm. NOTA TÉCNICA 23/01/2017. Disponível em: http://sbim.org.br. Acesso em 03/02 2017.