quinta-feira, 9 de março de 2017

BABY BLUES NÃO É DEPRESSÃO PÓS-PARTO


Juliana Parada é psiquiatra há 15 anos. A maternidade, a vivência de uma depressão pós-parto e de seu tratamento lhe trouxeram novas perspectivas pessoais e profissionais e o desejo de ajudar mulheres e famílias nesta fase tão singular da vida. Estas transformações internas se concretizaram na decisão de mudar de área de atuação e se dedicar ao estudo e ao atendimento de gestantes e puérperas – a psiquiatria perinatal. Como colaboradora, ela vai escrever alguns textos de extrema relevância para o blog, começando por este que se segue, que esclarece sobre um evento muito comum nas puérperas e costuma ser confundido com depressão pós-parto.


O bebê enfim nasceu! Todos estão felizes e radiantes com sua chegada! Mas diferentemente do “esperado”, sua mãe não parecia bem. Ela estava irritada, estranha, chorava sem motivo, chorava muito! Não dava para entender o que estava acontecendo.

“Eu chorava muito! Por tudo! Sentia que não era capaz de cuidar daquele ser tão frágil e dependente de mim. Eram turbilhões de emoções misturadas, mas principalmente as de impotência, incapacidade e tristeza. Foram duas semanas de sentimentos muito intensos, choros profundos direto da alma” - relata N, médica, descrevendo o que sentiu após o nascimento de sua filha.

BLUES MATERNO

O Baby Blues, Blues Materno, ou Tristeza Materna, é uma reação transitória presente em 60 a 80% das mulheres pós-parto. Ele se inicia nos primeiros dias após o nascimento do bebê e dura até duas semanas. 

Os sintomas incluem choro, sentimento de tristeza, humor instável, estranhamento de si mesmo e irritabilidade. Apesar destas alterações, a maioria das mulheres que apresentam blues consegue desempenhar adequadamente as novas funções maternas.




A PLACENTA – E A DANÇA DE HORMONIOS

Do ponto de vista fisiológico, o BLUES representa uma resposta emocional à queda abrupta dos hormônios da gravidez, que eram mantidos em níveis muito elevados pela placenta. Após o parto, com a saída da placenta, os níveis de estrogênio e progesterona voltam rapidamente aos valores pré-gravídicos. As mulheres sensíveis a flutuações hormonais apresentam alterações emocionais e de comportamento secundárias a esta queda, que alguns autores consideram que funciona como se fosse uma “síndrome de abstinência”

A CONEXÃO FUNDAMENTAL

Do ponto de vista psicológico, entende-se que se trata de uma reação positiva de adaptação da nova mãe. Esta hipersensibilidade favorece sua fusão emocional com o recém-nascido. Contribui para que ela se afaste do mundo externo e do seu antigo “eu”, e procure meios de compreender e atender as demandas do seu bebê.

FAZER O QUÊ? “KEEP CALM”

Justamente por se tratar de uma reação natural e benigna, não há necessidade do uso de qualquer medicamento. Basta aguardar as primeiras semanas e tudo estará resolvido.

Infelizmente vivemos numa sociedade imediatista e intolerante à manifestação de afetos de cunho supostamente negativos. Precisamos nos acalmar e lembrar que este sofrimento tem uma explicação e um propósito. Expressões de tristeza e choro trazem desconforto a quem vive e a quem convive, mas isto não justifica medicar o BLUES e “anestesiar a alma” da puérpera.

O uso de medicações está indicado apenas em casos graves, como quando há pensamentos de morte e suicídio. A indicação precipitada e inadequada de medicamentos pode mascarar a evolução de um quadro de depressão, confundir o raciocínio clínico e impossibilitar o planejamento adequado de um tratamento, caso ele se faça necessário posteriormente.

Se os sintomas persistirem por mais do que duas semanas de forma intensa e atrapalhando o dia-a-dia da mulher, é necessário considerar que um quadro de depressão pós-parto pode estar se instalando. Uma em cada cinco mulheres que apresenta o BABY BLUES desenvolve depressão pós-parto.

COMO AJUDAR...

Os melhores meios de dar suporte à mulher são a compreensão e a colaboração da família. Se todos compreenderem que se trata de uma reação normal e que irá passar, saberão respeitar o momento da mulher, preservar seu espaço e não interferir com comentários ou atitudes negativas.

A mulher deve receber apoio emocional, ser tranquilizada e não sofrer cobranças pelo seu estado. Frases do tipo “mas você deveria estar feliz, com seu filho nos seus braços” ou “você precisa ter força de vontade e parar de chorar”, não só não ajudam como aumentam o sentimento de incompreensão e inadequação da mulher diante de uma reação absolutamente normal.

O pai pode colaborar criando uma rede de proteção, que permita que a recém-mãe se desconecte do mundo externo e se conecte com seu bebê. Isso inclui manejar o contato com familiares, visitas, e organizar questões do funcionamento doméstico de uma forma geral.


Ajuda de ordem prática para outras tarefas (cuidados com a casa, alimentação, outros filhos, e outras questões da rotina familiar) possibilitam que ela tenha tempo para se dedicar ao bebê e descansar.

Se a mãe julgar necessário, deve receber ajuda para os cuidados com o bebê. No geral não recomendamos que a mulher seja afastada do seu bebê, mas sim que possa se dedicar a ele e vivenciar a intensidade deste momento.

O contato com outras mulheres para troca de experiências e compartilhar sentimentos é uma forma de perceber que a reação é natural e que você não se encontra sozinha. Não há motivos para preocupação e nem sentimentos de culpa!

A preparação física e psicológica para as mudanças emocionais da maternidade confere uma transição mais suave para a nova identidade da agora mãe.


Juliana Parada

Psiquiatra Perinatal em Belo Horizonte
Mãe de dois filhos que acredita na importância da psicoeducação e decisões informadas sobre a saúde mental de gestantes, lactantes e puérperas

Facebook @drajulianaparada
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