sábado, 13 de maio de 2017

Relato de D. - Do Luto à Superação

Este é um longo relato sobre a experiência de D. na maternidade. Uma história de luto e superação.

Tudo começou em 2008, na minha primeira gestação. Durante a gravidez, descobri o “parto humanizado” e me encantei, sempre quis dar o melhor para o meu filho e achei que esse fosse o melhor caminho. Comecei a participar de um grupo de mães fervorosas pelo parto humanizado.

Recebia muitos conselhos técnicos de pessoas leigas e constantemente chegavam os famosos relatos de partos: os que conseguiam ser de forma natural eram vistos como a glória, os feitos em casa, então, eram o máximo do “empoderamento” feminino. Quando acabava em cesárea, era devastador para muitas destas mães que tinham se preparado durante a gravidez para o parto natural.

Muitas vezes, essas mães se sentiam péssimas por “não terem conseguido” e muitas relatavam o quão triste ficaram por isso. Naquele grupo, parecia que o mais importante era o parto e não a maternidade em si. Hoje vejo como tudo isso era doentio, era praxe dessas mães, ao final dos e-mails, assinarem seu nome, o nome dos seus filhos, a idade e tipo de parto.

Aos poucos fui entrando neste mundo, que na verdade, gosto mais de chamar de “bolha” e tudo o que via parecia ser lindo. Eu começava a achar que as pessoas que estavam fora dela é que estavam erradas. Ledo engano!

Era tanto feminismo, “empoderamento”, indicações de “bons” e “maus” médicos, aconselhamentos que você acabava sendo influenciada.

Meu primeiro filho morreu em decorrência do sofrimento que teve durante o longo trabalho de parto de uma gestação de 42 semanas e 5 dias. Durante muitos dias pensei se deveria enviar o meu relato e decidi que o mais justo era mostrar para todas as mães o outro lado vivido por mim.

O relato abaixo foi escrito um mês após a morte dele... Eu estava saindo da “bolha”, acordando para o mundo real. 




Obs.: Todos os nomes marcados com (*) foram alterados a pedido da família.
 

Meu Relato de Parto (adaptado)

Queridas Maternas,

Meu relato está bem longo, mas faço questão de compartilhar com vocês, apesar de toda dor que  senti ao reviver cada detalhe.  Gostaria muito de estar escrevendo um relato de parto com um final feliz, como tantos que li neste grupo, mas infelizmente, este não foi o meu caso.


Relato de Parto do Gabriel*

A minha gravidez não foi planejada. Meu marido e eu estávamos vivendo o momento mais especial de nossas vidas e tudo aconteceu naturalmente. Ficamos muito felizes quando soubemos da notícia.

Sempre fui a favor do parto normal e, curiosa que sou, comecei a me inteirar sobre o assunto, já que a grande maioria das mães que conhecia optou pela cesárea.

Os primeiros cinco meses da gestação foram bem difíceis, pois tive muita náusea. Minha vida se resumia a trabalho-cama, cama-trabalho. Um dia, como de costume, estava deitada zapeando os canais da TV e vi uma matéria sobre parto natural. Achei tudo aquilo o máximo, mas não tinha ideia qual o profissional que fazia este tipo de parto. Comecei, então, a pesquisar na internet e fui achando vários sites interessantes sobre o assunto.

Próximo passo: ver com minha obstetra como eram os procedimentos feitos no parto normal. Foi um balde de água fria! Além de fazer um parto cheio de procedimentos invasivos ela ainda era contra o parto natural.

Fiquei na maior indecisão sobre o que fazer, acabei decidindo mudar de médico, mesmo com minha gestação avançada (estava com 35 semanas). Procurei uma das autoras de um livro e ela me indicou 3 médicos. Fomos a 2 e gostamos mais de um deles. Ela tinha uma ótima formação, nos passou bastante confiança e competência e, finalmente, decidimos que ela faria meu parto. Meu pré-natal seguiu então com consultas com a obstetriz e com médica.

As semanas foram se passando e nem sinal das contrações, os exames normais como de costume, tudo caminhava para um parto perfeito e sem complicações. Mesmo sendo avisada pela médica e obstetriz de que o meu trabalho de parto poderia passar de 42 semanas, os dias pareciam intermináveis e a ansiedade aumentava cada vez mais. Estava muito ansiosa, quantas vezes chorei desesperadamente pedindo para que minhas contrações começassem.

Fiz tudo que elas orientaram para tentar estimular as contrações, mas nem sinal. Nesta altura já começava a me questionar se realmente meu corpo seria capaz de entrar em trabalho de parto... Alguma coisa dentro de mim dizia para não esperar mais, mas eu me lembrava das orientações, de que poderia ser perfeitamente normal, e decidia esperar mais um pouco.


Dia 19/02, 42 semanas se completavam. Sentia algumas cólicas, mas nada das contrações. Exames normais. Ansiedade. Não ter um dia limite me angustiava, então, depois de uma longa conversa com meu marido, decidimos que, se até o dia 23 as contrações não começassem, eu pediria para induzir meu parto. 


Dia 23/02 liguei para minha médica e contei sobre minha decisão. Ela me orientou ir ao hospital de madrugada do dia 24 para começar a indução. E assim eu fiz.

Naquela tarde, as contrações começaram a se intensificar e ficaram cada vez mais próximas, a cada 3-4 minutos aproximadamente. No início da madrugada do dia 25, foi feito um novo exame de toque e meu colo havia dilatado 1 cm. 10h da manhã, novo toque, desta vez 4 cm! O pessoal do hospital liberou minha ida para a sala de parto. Logo em seguida a minha médica chegou.


As dores estavam muito intensas e eu já não estava mais respondendo por mim. Ficava um pouco deitada, um pouco em cima da bola, na banheira... Depois de um tempo um novo toque foi feito e eu já estava com 7cm de dilatação.

Os minutos e as horas foram se passando e meu colo não dilatava mais. As dores estavam cada vez piores, e os intervalos entre elas, menores. Foi aí que não aguentei mais e pedi pela anestesia.


O trabalho de parto não avançava. Foi administrada ocitocina e a médica estourou minha bolsa. O líquido estava cheio de mecônio, mas a médica e a obstetriz disseram que era normal. A médica descobriu que o bebê estava virado com a cabeça para cima, uma posição incomum que faz com que a saída do bebê seja mais demorada. Fui orientada, então, a caminhar e fazer alguns exercícios com o quadril na tentativa do bebê mudar de posição.

Já passava das 21h e a única coisa que desejava naquele momento era que o Gabriel nascesse ainda naquele dia (25/02), pois eu já havia esperado demais. A caminhada e os exercícios não foram efetivos e a decisão foi de que ele nasceria naquela posição mesmo.

Quando as contrações iniciavam, eu começava a fazer força e a equipe tentava achar a melhor posição para ele nascer. Depois de fazer muita força meu filho finalmente começava a descer pelo canal de parto. A cada nova contração ele estava mais perto, foi quando a médica falou que eu podia tocar a cabecinha dele: nossa, que felicidade!

Depois de mais algumas contrações, a cabeça saiu e as 23:18h meu filho finalmente nasceu!

Logo em seguida ele veio para os meus braços: foi um momento inesquecível, indescritível, o mais feliz de minha vida. Eu e meu marido choramos de tanta alegria e emoção. As 36h de trabalho de parto não foram nada perto do que sentia naquele momento.

Enquanto estava nos meus braços, notei que o olhar dele estava meio perdido, mas mesmo assim, por alguns segundos, ele conseguiu focar seus olhos em mim.

Ele estava todo verdinho por causa do mecônio e não estava chorando. Foi, então, que começou a emitir um gemido sofrido. Percebi que algo poderia estar errado, mas a emoção era tanta que eu só conseguia perceber que ele tinha a voz mais linda que eu já havia escutado.

Gabriel foi retirado dos meus braços para fazer a sucção do nariz e da boca pela pediatra. Não conseguia enxergar o que estava acontecendo, pois ele estava um pouco longe, mas o gemido dele continuava. A pediatra dizia para meu marido não se preocupar com que ele estava vendo, apesar de muito mecônio estar sendo retirado na sucção. Ele foi levado ao berçário e lembro de avisaram para não me preocupar pois, em algumas horas, ele estaria comigo, nos meus braços.

Enquanto recebia os pontos, disse ao meu marido para ir atrás do Gabriel. Depois de algum tempo, ele voltou dizendo que ele não estava no berçário. Pedi novamente que ele fosse atrás do bebê e que não se preocupasse comigo. Quando estava sendo liberada da sala de parto, meu marido voltou e disse que ele estava na UTI e intubado.

Fui para o quarto, mas não conseguia parar de pensar no Gabriel. Depois de muita insistência com a enfermagem e autorização de minha médica e anestesista, fui liberada para vê-lo.

Assim que chegamos não pudemos entrar, pois os médicos estavam fazendo “procedimentos” nele. Esperamos por mais de 1h e, quando o vi, não pude conter minhas lágrimas...

Lá estava ele, intubado, recebendo vários medicamentos, cheio e sensores para medir seus sinais vitais, inconsciente. Aquele bebê tão pequeno, tão frágil, não conseguia acreditar no que estava acontecendo.


A médica que estava de plantão na UTI já chegou avisando que o caso era grave, que ele estava instável e que deveríamos esperar para ver como ele reagiria nas próximas horas. O raio-X do pulmão já havia sido feito constatando que ele havia aspirado uma quantidade maciça de mecônio.

Voltei para o quarto me sentindo completamente impotente, a única coisa que restava naquele momento era rezar.

Passei o resto da noite dormindo e acordando, parecia que eu estava tendo um pesadelo, mas toda vez que retomava minha consciência lembrava que aquela era a vida real.

Pela manhã voltamos à UTI, chegando lá, novamente não pudemos entrar e disseram que ligariam assim que fosse possível. Depois de um tempo recebemos a ligação e retornamos para lá.

Ao chegar vi que o aparelho que controla a respiração havia sido modificado, este tinha uma  “potência” maior, o que causava mais aflição e preocupação. Também notei que ele estava recebendo mais medicações e mais tubos estavam ligados a ele. O estado que ele se encontrava era o mesmo. Eu e meu marido nos estávamos num estado de total desespero. Ligamos para nossos pais e pedimos para não recebermos visitas e que, ao invés disso, que todos orassem por ele.

No final da manhã, fomos visitá-lo e novamente não pudemos entrar. Esta situação era assombrosa, pois não sabíamos o que estava acontecendo com ele. Tínhamos medo do pior.

Esperamos alguns minutos e o chefe da UTI veio falar com a gente. Ele nos disse que o Gabriel havia tido uma parada cardíaca... Nossos corações pararam também. Depois de 30 minutos conseguiram reanimá-lo. O desespero e a impotência só cresciam..

O desespero era tanto que eu e meu marido decidimos que mesmo sabendo da gravidade do Gabriel, rezaríamos e teríamos esperança até seu quadro estabilizar ou acontecer o pior. Também combinamos que não choraríamos e só falaríamos coisas boas quando estivéssemos perto dele.

À tarde retornamos e fomos informados que ele teve uma nova parada cardíaca, novamente de 30 minutos. Haviam mais tubos e medicações. A cena era chocante. O corpinho era pouco para quantidade de fios, tubos e sensores que estavam conectados a ele.

O intrigante é que ele esperava a gente sair da UTI para piorar. Enquanto estávamos lá ele estava aparentemente estável e não tinha nada. À noite voltamos para vê-lo e mais uma vez tivemos que esperar. Desta vez foram mais de 3 agonizantes horas.


A médica nos explicou que tentou trocar o respirador, mas ele não se adaptou. Ela também disse que seu estado era muito grave e que, com sua experiência, nunca havia visto um bebê sair vivo em um caso como este. Abaixei a cabeça e pensei que este poderia ser o seu primeiro.

Resolvi ficar mais tempo com ele. Fazia carinho na sua cabeça, segurava sua mão, esquentava seus pés. Meu marido não conseguia ficar mais do que 10 minutos olhando para ele, ele saia da sala por alguns minutos e voltava. Depois de bastante tempo com ele, resolvi ir para o quarto e pedi para a médica me ligar caso ele piorasse. Em menos de 1h recebemos o telefonema. Meu coração gelou.

Fomos correndo para lá. A médica disse que, assim que virei às costas, ele teve outra parada e eles conseguiram reanimá-lo novamente. Ela voltou a dizer que seu estado era gravíssimo, que ele só estava vivo devido aos medicamentos que estava recebendo e que seria um milagre se sobrevivesse até às 6h. 

Lembrei da conversa que havia tido com meu marido e decidi que não sairia de lá até um novo médico chegar para cuidar do meu filho. Eu não parava de rezar e fazer carinho nele. Entreguei-o para Deus e vibrava com ele a cada minuto a mais que ele vivia.

O relógio finalmente chegou às 6h e ele estava lá, vivo! O tempo foi passando e novos médicos foram chegando. Quando o chefe da UTI me viu, me deu um abraço apertado e ouvi novamente que o estado dele era muito grave. Voltei ao quarto para contar ao meu marido tudo que havia acontecido e combinamos que a partir de então não olharíamos mais para as medicações e para os aparelhos, apenas para ele.

Fomos registrá-lo no cartório, lembro que a fila estava cheia de pais felizes e orgulhosos com o nascimento dos seus filhos saudáveis. Mas infelizmente este não era o nosso caso. No final da manhã, chegando na UTI, os médicos disseram que talvez ele pudesse estar sem função cerebral e que poderíamos optar por um exame para confirmar ou não esse diagnóstico, concordamos que deveria ser feito.

Fui até o seu ouvido e disse que eu tinha muito orgulho dele e que ele estava sendo um heroizinho por estar aguentando firme, mas que se ele tivesse que partir que não se preocupasse que eu iria ficar bem. Alguns minutos depois ele começou a ter algumas respirações voluntárias entre as respirações artificiais (com o respirador). Sabia que ele estava querendo dizer alguma coisa, imaginei que ele pudesse estar respondendo que queria ficar comigo...

Saí  repleta de esperanças e morrendo de medo do tal exame. E se fosse constatado que ele não tinha função cerebral? Teríamos que autorizar que os aparelhos fossem desligados? Não quis mais pensar nisso. Depois de uns minutos que chegamos ao quarto, recebemos nova ligação da UTI.

Fui a primeira a vê-lo: olhei para o respirador e ele não estava funcionando... Seu corpinho estava imóvel, os aparelhos desligados. Olhei para ele novamente e só então me dei conta que ele havia partido. Meu marido chegou em seguida e eu disse que o Gabriel havia morrido, mas ele também demorou a entender...

Nos abraçamos e eu fiquei ali parada, totalmente em choque com que estava acontecendo e sem ação nenhuma.

Pedi para eu pegá-lo no colo e a enfermeira disse para eu esperar lá fora enquanto ela tirava os fios. Optei por ficar no fundo da sala aproveitando os últimos momentos que ainda podia vê-lo. Meu marido foi buscar sua roupinha, a que imaginávamos ser a primeira, não a única.

Depois que os fios foram retirados, assisti bem de perto seu primeiro banho. Ajudamos a enfermeira a colocar sua roupa e pela primeira vez, com seu corpinho sem vida, pude abraçá-lo e beijá-lo. Meu marido o pegou no colo pela primeira e última vez e nos despedimos dele.

O velório foi no dia seguinte, o último momento que estaríamos com ele fisicamente. Em toda minha vida nunca imaginei que enterraria um filho meu.

Foi uma existência muito breve no plano material, apenas 36h, mas ele está guardado no meu coração, no meu pensamento, para sempre. Meu anjinho Gabriel.

Eu era mãe, mas não sabia o que era amamentar, não sabia o que era dar banho e nem trocar fraldas. Não acompanhei o desenvolvimento do meu filho, nunca saberei como seria seu sorriso, seu choro, sua voz, sua personalidade.

Para mim, a via de nascimento de um filho já não é mais importante, muito menos quais procedimentos que serão feitos quando ele nascer. Também não me importa se ele será colocado nos meus braços assim que nascer ou horas depois. A única coisa que realmente espero é que ele chegue saudável nos meus braços e continue vivo por muitos e muitos anos.

Um grande abraço,

D. (mãe do Gabriel)










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Quando meu filho morreu, meu mundo definitivamente acabou, tudo havia perdido o sentido para mim. Ver o seu filho sem vida, velá-lo, enterrá-lo, chegar em casa de braços vazios, ter que colocar as roupas em uma caixa, desmontar o quarto que foi preparado com tanto amor, ver outras mães com seus filhos e eu indo visitar o meu no cemitério, passar o dia das mães sem seu filho... São situações que não desejo para ninguém.

O Gabriel era muito esperado por todos: meu primeiro filho, o primeiro neto dos meus pais, o primeiro bisneto da minha avó paterna. Não era só a mãe e pai de primeira viagem que haviam “morrido” naquele momento. Junto com eles também “morreram” os avós e a bisavó e tantos outros familiares a amigos que nos amavam.

Me senti culpada por tudo o que aconteceu por muito tempo. Muitos questionamentos de “e se” vinham a minha cabeça e, algumas vezes até hoje, me pego perguntando: “E se não tivesse mudado de médica? ”. “E se o Gabriel estivesse vivo? ”. Me sentia culpada por sorrir e, mesmo que em breves momentos, por me sentir feliz. Instintivamente achava que não era justo com o Gabriel.

Começamos a desconfiar das condutas da equipe logo após sua morte e como convivo com muitas pessoas da área da saúde, resolvi investigar. Pedi as cópias dos prontuários no hospital e mostrei para eles. Todas as pessoas consultadas, sem exceção, disseram que houve erros dos profissionais que me assistiram.

Decidimos, então, que o Conselho de Medicina seria a instituição mais adequada para avaliar isso e enviamos uma carta denúncia com esses questionamentos. Nosso intuito maior com essa atitude era, além de punição, caso a culpa fosse comprovada, que novos casos como o nosso fossem evitados. Entramos também com uma denúncia no Conselho de Enfermagem, mas, infelizmente, perdi um prazo, e a denúncia foi arquivada.

Obviamente mudei de médico e ele me liberou para engravidar novamente após 6 meses e foi nisso que me agarrei para continuar a viver. No segundo mês de tentativa, engravidei. Foi uma gestação apática, cheia de tensão e ansiedade. Confesso que não foi muito curtida, queria que acabasse logo para eu finalmente me sentir uma mãe “normal”.

Desta vez uma menina, minha Melissa*. Apesar de ter todas as indicações para fazer um parto normal, não tinha cabeça e nem sangue frio para isso (muito menos a minha família). Cesárea eletiva agendada: familiares e sala de parto cheia de tensão, apesar de todos tentarem disfarçar. Fui muito bem tratada, apesar de todos os procedimentos “usuais” deste tipo de parto. Esse sim foi o parto perfeito para mim: minha filha nasceu bem, saudável e não houve complicações ou intercorrências.

Como esperei o dia de chegar em casa com meu bebê nos braços! O nascimento dela foi um marco na minha vida. Só a partir deste momento minha vida começou a voltar para os eixos.

Engravidei novamente quando a Melissa estava com 1 ano e 3 meses. Da minha Alice*. Apesar de tranquila, tive muitas náuseas durante a gestação. Também não foi aquela curtição, creio que poderia engravidar muitas vezes, mas nenhuma delas seria tão mágica e especial como foi a gestação do Gabriel.

Eu ainda tinha o desejo, ou melhor, vontade de me livrar do meu “estigma” de não ter entrado em trabalho de parto e meu médico me apoiou em tentar o parto normal. Então deixamos combinado que se entrasse em trabalho de parto com até 40 semanas, tentaríamos. Depois de viver o que vivi, 40 semanas era o máximo que poderia aguentar esperar. Como tinha a cesárea prévia, havia uma série de restrições e tinha consciência que seria bem difícil de dar certo.

Com 39 semanas, foi detectado no ultrassom um pequeno sofrimento fetal intra-útero e foi necessário fazer uma cesárea naquele mesmo dia. Foi um parto menos tenso que o da Melissa, mas ela precisou ficar em observação por algum tempo após nascer, o que me deixou muito preocupada, mesmo com todos me dizendo que ela estava bem e estável.

Chegando em casa pela primeira vez com a Alice nos meus braços, tive um insight de que a família estava completa. A Alice chegou para me fazer voltar a enxergar o mundo colorido novamente. Passei a sentir que minha vida tinha voltado aos trilhos após a sua chegada.

Depois de um certo tempo, me peguei várias vezes pensando: “Se o Gabriel estivesse vivo hoje, minhas filhas estariam?" Foi um questionamento que me rondou por muito tempo, que me acompanhava de um sentimento não muito bom. Até que um dia, li uma entrevista da Fernanda Torres, sobre como lidou com a perda na gravidez do seu primeiro filho. Ela disse que ele veio ao mundo para dar a vida aos outros filhos dela. A partir daí, passei a pensar desta forma também e esse questionamento foi deixando de existir.

Hoje elas estão com 7 e 5 anos e estou vivendo a maternidade intensamente. Sou muito grata por ter continuado casada (acredite, se não houver união e muita vontade dos dois lados, a separação é inevitável), pelos meus filhos e pela minha história.

Eu e meu marido fizemos questão de nunca apagar a lembrança do Gabriel. Minhas filhas sabem e vivem falando do irmão. Nossa família é especial e tem um anjinho que vive em nossos corações!

Com a experiência materna que tenho hoje, posso afirmar que:

 - O parto é apenas o começo de uma linda e longa jornada. Não devemos nos aborrecer se a expectativa não correspondeu à realidade. O mais importante é que o bebê nasça bem e que você fique bem também;

- Definitivamente a via de parto não terá influência na mãe que você será para seu filho. Ser menos ou mais “empoderada” não vai te definir como pessoa;

- Se o médico que escolheu para fazer seu parto for a favor de condutas que você não é (por exemplo, parto domiciliar), mude de médico;

- Se você for orientada a omitir ou mentir informações para outros profissionais, desconfie. Mude de médico. Eu fui orientada algumas vezes a mentir a data da última menstruação para o médico dos últimos ultrassons que fiz do Gabriel; 

- Se você se sentir em uma “bolha”, em mundo paralelo, onde seus familiares e amigos que mais confie não participem, desconfie;

- Se você achar que houve erro médico, envie uma carta denúncia ao Conselho de Medicina do seu estado. É importante denunciar, mesmo que seja constatado que não houve erro futuramente. Porém, se for comprovado o erro, o médico poderá ser penalizado de acordo com a gravidade do caso, inclusive ter sua licença caçada. 


Recentemente uma amiga virtual me deu um presente muito especial, ela manipulou uma das únicas fotos que tenho do Gabriel e tirou o respirador da imagem. Foi um dos melhores presentes que já ganhei na vida. Compartilho essa foto com vocês.










6 comentários:

  1. Que experiência dolorosa, mas acredito que tudo coopera para o bem.
    Muita força p vc e saude para suas filhas!

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  2. Lindo!!! Anjinho no céu fazendo traquinagem

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  3. Sinto muito pelo que vocês passaram. Fiquei muito emocionada lendo seu relato. Sinta-se abraçada.
    Saúde para sua linda família e parabéns pela sua postura de denunciar e seguir em frente apesar da dor.

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  4. Não tenho palavras para tamanha dor que sentiu... vc é uma guerreira...seu Gabriel é lindo...um anjo...

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  5. O anjo mais lindo do céu,tmbm sou mae de um anjinho chamada Carolina,estava gravida de gemeos,eram duas lindas meninas,entrei em trabalho de parto com quatro meses de gestacao,elas nasceram faltando um dia pra seis meses,26 semanas completas segundo os medicos,maas infelimente uma delas nao sobreviveu por muito tempo,ficou viva por dois dias apenas,a minha carolina teve uma hemorragia pulmonar,na sequencia uma parada cardiaca,por ter nascido muito prematura faleceu,a minha outra princesa seguiu lutando dia apos dia,foram inumeras paradas,ipoxia,transfusoes de sangue,u cirurgia cardiaca,uma cirurgia nos olhos,um quilotorax,passou tres meses intubada,e com 121 dias de uti recebemos alta,ela saiu da uti pesando pouco mais de dois kilos,passamos cinco dias na enfermaria canguru e recebemos alta no dia 16 de dezembro de 2016.
    Ela nasceu com 870 gramas.30 centimetros
    A carolina nasceu com 670 gramas e 28 centimetros.
    Meu milagre hoje esta com dez meses e aproximadamente 5,500kg e uns 61cm.
    Em casa ha seis meses e para honra e gloria do senhor nunca teve intercorrencias..

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