segunda-feira, 21 de agosto de 2017

MÉTODOS CONTRACEPTIVOS


Em meio a muitos mitos em relação aos anticoncepcionais, o que se pode afirmar é que não existe um método que seja o melhor. A escolha deve ser individualizada e orientada pelo ginecologista, após a avaliação do exame clínico, histórico familiar e pessoal, bem como a rotina de vida e as preferências da mulher no momento da escolha do método. Como profissionais de saúde, devemos informar sem alarmar. Só o conhecimento vai proporcionar ferramentas para, juntamente com seu médico, tomar uma decisão acertada.

Para um melhor entendimento, dividiremos os métodos contraceptivos em: hormonais combinados, hormonais com progestágenos, DIU de cobre, métodos de barreira e métodos naturais.

CONTRACEPTIVOS HORMONAIS COMBINADOS

São contraceptivos que liberam dois tipos de hormônios: estrógenos e progestágenos. Promovem contracepção pelo bloqueio do ciclo ovulatório, ou seja, em uso deles, a mulher não irá ovular. Dentre eles, os mais difundidos são as pílulas conjugadas.

As pílulas conjugadas são medicamentos de uso diário que contêm os dois tipos de hormônios. O que difere as várias pílulas existentes no mercado são o tipo e a dose dos hormônios. Todas estas combinações vão cumprir o objetivo principal que é evitar a gravidez, mas podem provocar efeitos diferentes em cada mulher. Os efeitos colaterais mais comuns são: aumento de peso (devido à retenção de líquidos e não essencialmente por ganho de gordura), dor de cabeça (sendo contra-indicados nos casos de pacientes com enxaqueca, por aumentar a incidência e gravidade das crises), dor nas mamas, diminuição da libido e, mais raramente, eventos tromboembólicos. O uso da pílula aumenta o risco de trombose, mas, ainda assim, numa mulher sem outros fatores de risco, esta possibilidade é muito pequena. Já as mulheres com outros fatores de risco associados, como obesidade, tabagismo, doenças vasculares e história pessoal e/ou familiar de trombose, devem evitar o uso de contraceptivos hormonais combinados; não só a pílula, mas todos que promovam a liberação de estrógenos (injetável mensal, adesivos e anel vaginal).



Entretanto, não há apenas efeitos adversos e complicações com o uso das pílulas combinadas; elas também podem trazer benefícios bem estabelecidos para a usuária, além da contracepção. São eles: melhor controle do ciclo menstrual, alívio dos sintomas da TPM, melhora da acne, diminuição do fluxo menstrual e das cólicas. Todas as pílulas comercializadas hoje em dia são de baixa dose hormonal e os efeitos adversos vão depender da adaptação de cada mulher. A eficácia das pílulas combinadas é de 97%, quando utilizadas de maneira correta. O uso irregular das pílulas pode aumentar as chances de falha, portanto, se o esquecimento for constante, pode-se optar pelos injetáveis mensais, adesivos ou anel vaginal. Todos eles possuem os mesmos benefícios, efeitos colaterais e contra-indicações da pílula, mas com a vantagem de não serem de uso diário, facilitando a adesão ao método.

Os injetáveis mensais, assim como as pílulas conjugadas, combinam os dois tipos de hormônios. A diferença básica é que a sua aplicação intramuscular (injeção) causa um depósito destes hormônios, os quais vão sendo liberados na corrente sanguínea, ao longo do mês. Muitas mulheres acham que os injetáveis causam mais efeitos colaterais que as pílulas, mas isto não é verdade. Seus efeitos colaterais são muito semelhantes aos das pílulas de baixa dose. A vantagem é o menor risco de esquecimento, enquanto as desvantagens são a dor na aplicação e menor controle do ciclo e da acne.

Os adesivos são contraceptivos hormonais conjugados de absorção transdérmica (pela pele). Devem ser colados na pele, longe de áreas de atrito ou dobras, e trocados uma vez por semana. Após três semanas consecutivas, é feita uma pausa de uma semana e, assim, a menstruação acontece. Seus benefícios, efeitos adversos e contra-indicações são os mesmos das pílulas de baixa dose hormonal.



O anel vaginal é um anel de silicone maleável que, inserido na cavidade vaginal, libera estrógenos e progestágenos, diariamente. Causa bloqueio da ovulação assim como os outros métodos hormonais. Tem a vantagem de não precisar ser lembrado diariamente. A inserção e retirada podem ser feitas pela própria mulher, sem dificuldades e, depois de inserido, o anel não causa nenhum desconforto, nem mesmo durante atividades físicas ou relações sexuais.



CONTRACEPTIVOS HORMONAIS COM LIBERAÇÃO DE PROGESTÁGENOS

Dentre os contraceptivos hormonais contendo apenas progestágenos, temos: pílulas, injetável trimestral, DIU hormonal e implante subdérmico. As principais indicações para uso destes métodos seriam as situações que contra-indicam o uso dos estrógenos como, por exemplo, mulheres com fatores de risco para trombose, lactantes, hipertensas, obesas e tabagistas. É também indicado para controle clínico de doenças ginecológicas como endometriose, adenomiose, miomatose e hemorragia uterina disfuncional. Ótima opção também para as mulheres que não desejam menstruar regularmente.

As pílulas contendo apenas progestágenos são de uso contínuo e sua ação contraceptiva se deve ao bloqueio do ciclo ovulatório. Porém, sem a associação do estrógeno, seu uso deve ser contínuo e não leva ao sangramento por privação (menstruação). Sua principal indicação seria o uso no período da amamentação, por não diminuir a produção do leite. Deve-se tomar cuidado, pois existem duas dosagens comercializadas atualmente, sendo que a pílula com quantidade menor de hormônio é eficaz somente no período de amamentação exclusiva (quatro primeiros meses de vida do lactente), enquanto as com dosagem maior, são seguras inclusive para mulheres fora do período da amamentação.


O injetável trimestral tem a vantagem de ser aplicado apenas a cada 90 dias. Suas desvantagens são: ganho de peso (pois está associado a uma maior retenção de líquidos), atraso no retorno da fertilidade (uma vez que provoca um efeito acumulativo no bloqueio da ovulação) e sangramentos irregulares (já que está mais associado a sangramentos de escape do que os outros métodos).



O DIU hormonal é um dispositivo inserido na cavidade uterina, promovendo a liberação continua de hormônios progestágenos que agem preferencialmente no útero, causando bloqueio da proliferação do endométrio (camada do útero que descama e sangra durante a menstruação), com consequente diminuição e, na maioria das vezes, bloqueio do fluxo menstrual. Seu efeito contraceptivo se deve às alterações que provoca no endométrio, diminuição dos movimentos ciliares das tubas (dificultando a fecundação) e, na maioria das vezes, bloqueio da ovulação. A inibição da ovulação não é uma regra. Apesar da maioria das usuárias terem a ovulação suprimida, existem algumas mulheres que mantém os ciclos ovulatórios. A eficácia do método é próxima de 99% e tem a duração de cinco anos, sendo que, após este período, deve ser realizada a troca. Os efeitos sistêmicos dos progestágenos liberados pelo DIU hormonal são pouco relevantes, pois o nível destes hormônios na corrente sanguínea é menor que os outros métodos, mas, ainda assim, não são desprezíveis, pois pode haver piora da acne e diminuição da libido. As desvantagens estão, principalmente, relacionadas ao procedimento de inserção. A colocação do DIU, seja ele hormonal ou não, é um procedimento invasivo, que pode ser realizado a nível ambulatorial (em consultório médico). Pode ser doloroso e gerar complicações como infecção pélvica, sangramentos de difícil controle e perfuração do útero. Estas adversidades podem acontecer independentemente da técnica ou experiência do médico responsável e devem ser consideradas no momento da escolha do método.

O implante subdérmico é um dispositivo inserido sob a pele do braço. Este dispositivo é responsável pela liberação diária de progestágeno e atua como contraceptivo através do bloqueio da ovulação e alterações do ambiente uterino, que dificultam o encontro do óvulo com o espermatozóide. Sua eficácia gira em torno de 99%, e tem durabilidade de três anos, quando deve ser trocado. Apresenta como principal efeito colateral a ocorrência de sangramentos uterinos irregulares, mais comuns no primeiro ano de uso. Também pode aumentar a acne e diminuir a libido, mas não costuma interferir no peso.



 DIU DE COBRE

O DIU de cobre é um dispositivo de plástico com haste de cobre, inserido na cavidade uterina. Seu efeito contraceptivo é decorrente das alterações causadas pela liberação do cobre na cavidade uterina, as quais impedem o encontro dos espermatozóides com o óvulo e a eventual implantação do embrião. Sua eficácia gira em torno de 99%, se bem posicionado, e tem uma durabilidade de dez anos, quando deve ser trocado ou substituído por outro método. Não provoca o bloqueio do ciclo ovulatório, portanto, suas usuárias irão continuarão ovulando e menstruando. Assim sendo, se a mulher tiver, previamente, ciclos irregulares, cólicas, sintomas de TPM ou fluxo menstrual aumentado, este método não seria uma boa escolha. Apesar de não diminuir a libido, pode aumentar as cólicas e o fluxo menstrual. É uma ótima opção para as mulheres que não desejam os efeitos adversos dos métodos hormonais e não pretendem engravidar pelos próximos anos. Caso a usuária mude de idéia e deseje uma gravidez, a fertilidade é restituída imediatamente após a retirada do DIU.


MÉTODOS DE BARREIRA

O preservativo masculino é o método de barreira mais difundido, apesar de também existir o preservativo feminino, o qual é muito pouco conhecido. Os preservativos têm a principal vantagem de, além de serem métodos contraceptivos eficazes, atuam como principal “arma” na prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). São de fácil acesso e, com pequeno treinamento, os usuários já sentem seguros para utilizá-los. Não dependem do uso regular de nenhum medicamento e evitam doenças como AIDS, Hepatites, Sífilis, Gonorréia, Condilomatose e Câncer de Colo de Útero. A falha do método está relacionada ao mau uso. A ruptura do preservativo, quando utilizado de forma correta, é evento raro. Nestes casos, o uso do Contraceptivo Hormonal de Emergência (“Pílula do Dia Seguinte”), em até 72 horas após a relação sexual, pode diminuir a chance de uma gravidez indesejada em até 75%.

O Diafragma é um "copinho" de silicone em forma de cúpula que é inserido, dentro da vagina, algumas horas antes da relação sexual e retirado logo em seguida. Existem vários tamanhos e sua prescrição deve ser realizada pelo médico após exame ginecológico. Sua eficácia gira em torno de 77% e sempre deve ser associado ao uso de geléias espermicidas. Devido a seu grande índice de falha e baixa praticidade, é um método pouco difundido nos dias de hoje. Quando a mulher escolher essa opção, ela deve ser orientada a utilizar outro método associado, como tabelinha, coito interrompido ou o preservativo masculino.



MÉTODOS NATURAIS

Os métodos naturais têm a grande vantagem de não utilizarem nenhum tipo de hormônio ou dispositivo, além de não terem nenhum custo. Mas a grande desvantagem é seu alto índice de falha.

A tabela de Ogino-Knauss, método rítmico ou Tabelinha, como é mais conhecido, consiste no monitoramento da fertilidade baseado na observação do ciclo menstrual da mulher. Tem eficácia bem variável, 75 a 88%, pois vai depender, principalmente, da regularidade do ciclo menstrual. A grande desvantagem é que as mulheres que apresentam ciclos menstruais irregulares não conseguem se beneficiar do método. E, mesmo as mulheres extremamente regulares, estão sujeitas a apresentar alterações de ciclo decorrentes do uso de medicações ou situações de estresse.



O coito interrompido nada mais é do que a retirada do pênis de dentro da cavidade vaginal antes da ejaculação acontecer. Tem eficácia de 73% e depende única e exclusivamente do homem. Ele tem que ter controle suficiente para que a ejaculação não aconteça dentro da vagina. Este método pode gerar insegurança ao casal prejudicando, assim, o desempenho sexual.

Podemos concluir que não existe um método contraceptivo eleito como o melhor. O melhor para a sua amiga pode não ser o melhor para você.  Inclusive, o melhor para você hoje pode não ser a sua escolha no ano que vem ou no próximo relacionamento. Com a ajuda do seu médico, informação e esclarecimento, você poderá fazer a melhor escolha, sempre. Um filho merece ser desejado e planejado!


Dra. Juliana Calcagno
Ginecologista e Obstetra, especializada em Medicina Reprodutiva
Médica responsável pela Clínica Invitro de Ipatinga - MG
Facebook:Juliana Calcagno

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parteiras põem fim à campanha "Parto Normal" na Inglaterra.



 Fonte: The Guardian


O Royal College of Midwives (RCM) iniciou a campanha do “Parto
Normal” em 2005 a fim de encorajar as gestantes a terem um parto
sem intervenções médicas, incluindo indução, anestesia e cesarianas.

O sindicato das parteiras inglesas começará a usar o termo “parto fisiológico” para descrever aqueles que ocorrem sem intervenções - como parte de uma revisão de diretrizes profissionais - mas não mudará sua visão de que o parto sem intervenção médica é o melhor para muitas mulheres.

Na Inglaterra, 40% das mulheres dão a luz sem nenhum tipo de intervenção médica.

A professora Cathy Warwick, presidente-executiva da RCM, negou que a campanha de mais de uma década tenha comprometido a segurança das mães, mas admitiu que criou uma impressão errada. "Havia um perigo de que, se você falasse apenas sobre partos normais - e, particularmente, se você chamar isso de campanha – soasse como se você estivesse apenas interessada em mulheres com parto vaginal sem intervenções”, disse ela ao jornal The Times.

“O que nós não queremos, de forma alguma, é contribuir, em qualquer sentido, com a crença de que uma mulher tenha falhado porque não teve um parto vaginal. Infelizmente, parece ser como algumas mulheres vêm se sentindo".

A campanha foi criticada em um inquérito sobre a morte de dezesseis bebês e três mães no Hospital Geral Furness, em Cumbria, entre 2004 e 2013.

A investigação descobriu que uma "combinação letal" de falhas levou a mortes desnecessárias de onze bebês e uma mãe tratados na maternidade do hospital, que é parte do sistema público de saúde britânico.

O inquérito demonstrou que as parteiras, que se intitulavam "as mosqueteiras", expuseram as gestantes a partos inseguros devido ao desejo de ver essas mulheres terem um parto vaginal, sem intervenção médica, "a qualquer custo".

O relacionamento com os médicos foi descrito como "seriamente disfuncional", com relatos de parteiras negligenciando alertar os médicos, em tempo hábil, sobre as complicações das pacientes.

O inquérito, presidido pelo Dr. Bill Kirkup, relatou que os serviços da maternidade do hospital foram tomados por uma cultura de negação, coluio e incompetência. Kirkup, após a publicação do relatório em março de 2015, disse: "Nossas descobertas são críticas e catalogam uma série de falhas em quase todos os níveis: da maternidade aos responsáveis ​​pela regulação e pelo monitoramento. A natureza desses problemas é séria e chocante".

A professora Cathy Warwick disse que não acreditava que as parteiras tivessem falhado na campanha de "partos normais" por terem pensado que isso significaria forçar o nascimento vaginal acima das normas de segurança.

"Claramente, algumas parteiras foram identificadas tendo esse tipo de conduta, mas não tenho provas de que foram encorajadas por qualquer conduta ou recomendação da RCM".

James Titcombe, cujo filho Joshua foi um dos bebês que morreram no hospital Furness, comemorou o fim da campanha. "Esta foi uma campanha direta e franca destinada a influenciar a forma como as parteiras tomavam decisões em momentos absolutamente críticos. Foi implementada sem qualquer avaliação de risco, teste ou avaliação e acredito que teve consequências desastrosas", disse ele.

Em relação à mudança na linguagem que fará parte da nova iniciativa, Cathy Warwick disse: "Parece que esta palavra "normal "é particularmente tendenciosa... é mais simples usar uma palavra sem julgamento de valor. Por causa desse tipo de inferência, haverá casos em que você explicará melhor sua posição ao usar termos como "nascimento fisiológico".

Em junho, a ex-gerente de risco de maternidade do Hospital Geral de Furness disse ao Conselho de Enfermagem e Obstetrícia que deveriam afastá-la. Jeanette Parkinson admitiu que não havia investigado as falhas de uma colega sobre as mortes dos bebês no hospital e que sua própria aptidão para atuar como parteira sênior estava comprometida. Ela é a sétima parteira a ser investigada como resultado do escândalo.

Uma investigação sobre o tratamento das queixas contra as parteiras pelo Conselho de Enfermagem e Obstetrícia foi anunciada, na semana passada, pelo Departamento de Saúde. A investigação será conduzida por autoridade profissional e analisará a capacidade do Conselho de Enfermagem e Obstetrícia de gerenciar e administrar queixas, bem como sua relação com as testemunhas.

A revisão deverá demorar seis meses.